Jussi Puikkonen para o The New York Times
Jussi Puikkonen para o The New York Times
Michael Kimmelman, The New York Times

15 de março de 2020 | 06h00

HAIA – Um manifesto e uma carta de amor à cidade, o livro Delirious New York, publicado em 1970, ajudou a impulsionar a reputação de um jovem arquiteto holandês. Quase esquecido hoje, uma mostra de desenhos acompanhou o livro, em 1978 –  com vistas reais e imaginárias da cidade produzidas pelo autor do livro, Rem Koolhaaas, e seus colegas do Office for Metropolitan Architecture, OMA, empresa fundada alguns anos antes por ele, junto com Madelon Vriesendorp e Elia e Zoe Zenghelis, com o fim de desenvolver “uma forma mutante de urbanismo”.

The Sparkling Metropolis, como foi chamada a exposição, ocupou as salas no topo da espiral do Museu Guggenheim. “Não deixei de notar a ironia da situação”, disse Koolhaas, referindo-se ao fato de que Frank Lloyd Wright, o arquiteto do Guggenheim, odiava as cidades.

Koolhaas agora montou uma nova exposição no Guggenheim, uma continuação de Delirious New York e, num certo sentido, da sua carreira. A mostra Countryside, The Future foi inaugurada em 20 de fevereiro e deve durar seis meses, e tem seu foco orientado para os 98% do planeta não ocupados por cidades.

Prevendo a crítica que obviamente surgiria, ele descreveu a exposição como um “retrato pontilista”, uma demonstração global, das “condições atuais do interior” que, ele admite, é um “termo flagrantemente inadequado para indicar todo o território que não é urbano”

Ao se referir a território não urbano, ele quer dizer fazendas e florestas, oceanos e vilarejos, o Halahari, o Great Barrier Reef e as Dakotas – mas também os clusters exurbanos densos de áreas industriais de alta tecnologia e os mega campi dos centros da Amazon, as gigantescas fábricas da Tesla em locais como o deserto fora de Reno, Nevada.

A exposição percorre desde as aldeias urbanizadas no Quênia ao longo das rotas ferroviárias construídas por chineses,  às comunidades em risco na Sibéria, onde a mudança climática vem acelerando o derretimento do gelo permanente do solo. Há alguma coisa sobre satélites fornecendo dados em tempo real para tratores movidos a computador lavrando imensas fazendas de monocultura no centro dos Estados Unidos e uma área na rotunda devotada aos imigrantes iraquianos, sírios e outros, cidades ressuscitadas como Carmini, na Calábria, Itália, e Manheim, perto de Colônia, na Alemanha.

A mostra é produção de um exército de colaboradores. Troy Conrad Therrien, curador da divisão de arquitetura do Guggenheim trouxe Koolhaas para o grupo em 2015. Koolhaas não assume nenhuma posição política em muitos dos assuntos levantados pela exposição e se qualifica como um repórter, não um especialista, recuando-se a fazer julgamentos morais. Os temas surgiram de “uma jornada pessoal, onde nossas energias nos levaram”, disse ele.

E levaram a lugares como a Koppert Cress, que ocupa um espaço industrializado fora de Haia, na Holanda, e é a segunda maior exportadora de alimentos do mundo por causa de suas estufas de última geração. Koppert Cress produz micro-vegetais  e sua fábrica tem o tamanho de 23 campos de futebol.

Há anos, as Nações Unidas anunciaram que este é o primeiro século urbano, a primeira vez que mais da metade da população do mundo vive em cidades. E sua previsão era de que 70% dos humanos seriam moradores das cidades. Tidas como mortas uma geração atrás, as cidades de repente de tornaram o grande sucesso. Koolhaas diz que o foco no urbanismo “deu às pessoas o direito de ignorar o interior”.

Segundo ele, as raízes da exposição remontam à cidadezinha suíça de St. Moritz, onde costumava passar férias. Ali ele observou que a queda da população da cidade aumentava; vacas, cavalos e fazendeiros davam lugar a proprietários de imóveis sempre ausentes que vinham de Milão e gastavam milhões transformando antigos estábulos em vilas minimalistas. Isto despertou seu interesse nos outros 98%.

“Sim, há alguma coisa inerentemente ridícula quanto a repentinamente entender que o restante do mundo existe”, ele admite. Mas diz que aprendeu, anos atrás, com um mentor jornalista a abordar situações novas como se fosse um marciano, com uma inocência que pode parecer inútil, mas permite à pessoa observar o que outros não mais veem porque se tornou por demais familiar.

A esperança é que Countryside inflame o debate, leve as pessoas a pensar sobre os acontecimentos e lugares que demandam atenção, porque a cidade e o interior, o urbano e o rural, no final, não são temáticas separadas. Em Koppert Cress, as estufas parecem algo tirado de Ad Astra: espaços silenciosos da largura das avenidas de Nova York, plantas que se estendem tão longe até os olhos conseguirem enxergar embaixo de luzes brancas, verdes ou vermelhas.

Lugares como este são uma grande revelação de Koolhaas em Countryside, o que ele chama de edifícios pós-humanos criados por códigos e algoritmos, não inspiração. Para ele, a arquitetura, como a Nova York dos anos 1970, é um experimento em desenvolvimento. Um novo manifesto. “Abandonar a conexão entre humanismo e arquitetura naturalmente é algo extremamente aterrador. Mas é também estimulante”, disse o arquiteto. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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