Daniel Smith/Disney, via The New York Times
Daniel Smith/Disney, via The New York Times

Remakes da Disney tentam corrigir legado problemático

Com 'Aladdin' e outras refilmagens, o estúdio tenta retificar erros do passado; espectadores criticam mudanças nas histórias originais

Aisha Harris, The New York Times

05 de junho de 2019 | 06h00

Estamos em 2019, e a princesa Jasmine não quer mais ser apenas uma princesa. Na versão de Aladdin dirigida por Guy Ritchie, a mais recente refilmagem de uma animação de sucesso da Disney usando atores de verdade, Jasmine (Naomi Scott) está de olho na sucessão ao pai, sultão de Agrabah. Mas ela é uma mulher, e o pai não pensa em tê-la como herdeira. É contra a tradição. 

Começa, então, uma balada no estilo da Broadway: "I can't stay silent", canta a princesa.

Essa não é a Jasmine dos anos 1990, aquela cuja maior preocupação era se casar com o príncipe de sua escolha. Temos uma Jasmine 2.0 - uma heroína ambiciosa, concentrada na carreira. Isso deveria ser positivo: uma história mais progressista e inclusiva!

Talvez a Disney esperasse que a geração Y, educada durante a infância com um regime constante de princesas Disney e fitas VHS musicais aderisse à jornada da Jasmine 2.0, valorizando o fato de ela ter evoluído para muito além de sua predecessora animada do sucesso de 1992. Afinal, como disseram os executivos do estúdio, a empresa tem o compromisso de se tornar mais inclusiva.

Mas é difícil ver com bons olhos as nada sutis tentativas dos novos filmes de corrigir pecados anteriores. Jasmine não é uma exceção à regra. As outras refilmagens condescendentes da Disney, como a versão de A Bela e a Fera, de 2017, e a recente versão de Dumbo, dirigida por Tim Burton, tendem a ser igualmente desajeitadas e forçadas. As mensagens progressistas incluídas à força só ajudam a chamar mais atenção para a cafonice inerente do exercício nostálgico ao qual a Disney está se dedicando. 

A função principal dessas refilmagens (além de ficar com seu dinheiro) é reacender a paixão pelas obras originais. E, para muitas pessoas, estamos falando de lembranças intensas. Como disse certa vez o animador Glen Keane, que há anos trabalha no estúdio, ao descrever sua abordagem para a caracterização da personagem Pocahontas, é necessário tomar cuidado: "A versão da Disney se torna a versão definitiva".

Será possível a versão da Disney da versão da própria Disney se tornar a versão definitiva? Uma parte fundamental da campanha publicitária do novo Aladdin envolveu garantir aos interessados que não seriam cometidos os mesmos erros do antigo Aladdin, cujo elenco de dublagem traz vozes predominantemente brancas, além de evocar estereótipos questionáveis a respeito do Oriente Médio (entre outros detalhes, uma canção que falava em cortar orelhas fora teve os versos substituídos na versão lançada em vídeo em 1993 após protestos; a cidade de Agrabah, antes descrita como "bárbara", é agora "caótica").

Mas a Disney mostrou-se mais sedutoramente progressista em seus filmes originais dos anos mais recentes. Frozen colocou a relação entre as irmãs acima do romance. Moana era estrelada por uma princesa das Ilhas do Pacífico; Coco (produzido pela Pixar, que pertence à Disney) tem um herói mexicano; as duas histórias representam suas culturas de maneira respeitosa, ao mesmo tempo mantendo-se acessíveis ao público global. Entre os filmes com atores de verdade, o sucesso da Marvel (pertence à Disney) Pantera Negra foi importante em seu retrato da diáspora negra.

Esses filmes não dependem de modelos que devem ser seguidos à risca, como é o caso de Aladdin. Depois de apresentarem todos os elementos básicos da narrativa Disney (pais mortos, parceiro não humano e assim por diante), os criadores estão livres para trabalhar sem pensar em expectativas específicas de fãs. O resultado disso são filmes melhores, histórias mais interessantes e uma sensação de sinceridade e autenticidade mais fortes em suas afirmações da inclusão. 

É verdade que seus diretores já meteram os pés pelas mãos em mais de uma ocasião, mas, ao menos, eles trabalham com a mão mais livre, sem serem obrigados a inserir a diversidade forçadamente em uma obra que já tem seu lugar no imaginário coletivo.

A inevitável refilmagem de A Pequena Sereia pode retratar Ariel como uma empreendedora especializada na produção de tops de concha valorizando a positividade corporal, e nem isso bastaria para apagar 30 anos de memórias de crianças impressionáveis que viram o filme original e absorveram sua mensagem sugerindo que as expectativas irreais de beleza valem qualquer sacrifício.

É bom (também para os negócios) que a Disney reconheça as partes constrangedoras de seu passado. Mas a melhor maneira de fazer isso é deixar o passado para trás e criar mais filmes como Coco e Moana - versões definitivas E originais. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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