Gabriela Portilho para The New York Times
Gabriela Portilho para The New York Times

Remendando um tecido urbano com geometria e bambu

Alison Grace Martin traz geometria e lógica para a arte da tecelagem

Siobhan Roberts, The New York Times

05 de agosto de 2019 | 06h00

SÃO PAULO, BRASIL - Na tarde de um feriado, no início de julho, Alison Grace Martin, artista e tecelã britânica, se encontrava no meio da multidão de paulistanos que passeavam pelas curvas do elevado no centro de São Paulo. Os três quilômetros do Minhocão estavam fechados para o trânsito de automóveis. Crianças jogavam futebol. Um pit bull urinava calmamente sobre uma pilha de bambus.

O bambu - cortado recentemente e serrado em tiras de cerca de seis metros de comprimento - chegara no local com Alison e o engenheiro James Solly, que dirigiam uma oficina de design urbano. As tiras seriam usadas na construção de uma cúpula experimental.

Os planos para transformar o Minhocão em um parque existem há muito tempo. Desde a sua inauguração, em 1971, o elevado é motivo de controvérsias, uma ferida de concreto que corta os bairros, e sufoca os moradores com barulho e poluição. “A construção rasgou a tessitura urbana”, afirmou Franklin Lee, o diretor da oficina. Em janeiro, o prefeito Bruno Covas anunciou que a estrada seria desativada, dando lugar ao Parque Minhocão.

O objetivo da oficina era construir soluções - de bambu trançado, um recurso sustentável e local - destinadas a criar sombras no futuro parque, ou estruturas que filtrariam a luz solar através de aberturas na via elevada para a paisagem urbana escurecida logo em baixo.

Alison costuma tecer estruturas de bambu de tamanho médio, como treliças de jardim em formato de túneis para o quintal. Ultimamente, sua obra vem atraindo a atenção de arquitetos e engenheiros. “Ela está quilômetros na nossa frente, explorando formas que nós jamais imaginamos possíveis”, afirmou Pedro Reis, que dirige o Laboratório de Estruturas Flexíveis no Instituto Suíço de Tecnologia; Alison visitara o seu laboratório duas semanas antes. “Nós caminhamos na sua direção com métodos mais matemáticos e científicos”.

O que Solly e Alison valorizam em relação às estruturas trançadas é o fato de não haver parafusos e porcas, e poucas junções. Na maior parte, o bambu trançado se fixa no lugar mediante o atrito das interseções em cima-em baixo-em cima-em baixo como se se tratasse de uma tessitura. O seu é um processo de “descoberta da forma”. Como Alison explicou aos seus alunos: “Basta deixar que o bambu faça o que quer”.

Solly disse que admira a perspectiva artesanal de Alison e a criação de formas baseadas na lógica. “A graça do trabalho de Alison é a sua beleza, exatamente do jeito que vem à sua cabeça”, afirmou. “Eu levaria um século trabalhando no computador para conseguir o que ela faz rapidamente de uma maneira tátil”.

Por exemplo, um cesteiro começaria com uma espécie de mosaico trançado de hexágonos. Passando de um hexágono para um polígono com um número menor de lados - um pentágono, por exemplo - ele introduz uma singularidade e gera uma curvatura positiva, como  a curva externa de uma rosquinha. Mudando para um polígono com um número maior de lados, como um octógono, ele gera uma curvatura negativa, como o interior da rosquinha. O truque, segundo Alison, é intuir onde colocar esta singularidade na trama, e que tipo de singularidade deverá ser.

O projeto para aquele dia no Minhocão era construir uma cúpula com 30 tiras de bambu, colhido no fim de semana anterior na propriedade do pioneiro do gênero, James Elkis, que mora fora de São Paulo. O grupo - 27 jovens aspirantes a arquiteto, designers urbanos e paisagistas do mundo todo -  havia feito uma tentativa no final de semana, mas com escasso sucesso. A cúpula, tecida verticalmente, ficara inclinada e pontuda no topo, em lugar de arredondada.

Solly propôs uma solução para a inclinação: a cúpula poderia ser tecida achatada no chão e depois levantada lentamente como uma bolha. Alison pensou que curvando as tiras de uma vez a estrutura acabaria se rompendo. Mas eles estavam ansiosos por ter uma prova do conceito, de um jeito ou de outro. “Vamos levar uma pilha de bambus lá para cima e vamos ver se irão nos prender!” disse Solly.

Partindo da base da oficina na Escola da Cidade, uma faculdade particular de arquitetura e urbanismo, a caravana que carregava o bambu caminhou até o elevado. Subiu uma das rampas de acesso e encontrou um local favorável para a sua prática. Sua atividade atraiu logo uma multidão. Felipe Rodrigues, um arquiteto e membro da Associação Parque Minhocão, que estava caminhando pelo elevado, parou para falar sobre a complexidade do espaço.

“É uma alquimia”, ele disse: um precioso espaço público, em uma cidade em que os shoppings são conhecidos como “a praia paulistana”. “O parque já existe”, prosseguiu. “Já não o vejo mais como uma via elevada. Eu o considero uma plataforma de atividades em que tudo pode acontecer”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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