Sima Diab/The New York Times
Sima Diab/The New York Times

Remo no Nilo: um descanso em uma metrópole caótica

Os antigos faraós remavam no Nilo. Agora, os egípcios redescobriram a prática, descobrindo uma nova perspectiva sobre o rio que moldou seu país

Vivian Yee, The New York Times - Life/Style

25 de janeiro de 2021 | 05h00

CAIRO – O pôr do sol é quando o Nilo ganha vida no Cairo, os barcos de festa cintilando como Las Vegas, os casais passeando devagar na brisa pela ponte Qasr el-Nil, os cafés ribeirinhos tilintando com o movimento até muito depois da hora de dormir da maioria das cidades.

Por volta das seis da manhã, quando o resto já foi para casa, os remadores chegam a um Cairo que poucos conhecem: sem trânsito, sem multidão, com pouco caos. Até os pássaros podem ser ouvidos a essa hora da manhã, quando as buzinas de carro da cidade oferecem apenas uma competição grogue e a neblina do inverno empalidece os hotéis cinco estrelas situados ao longo da costa. No barco, as pás do remo mancham e raspam o rio como uma faca sobre o cream cheese. O ritmo substitui o pensamento: mergulhe os remos. Empurre com as pernas. Puxe. Repita.

"Estar na água no início da manhã, onde você não pensa em nada além de seguir a pessoa à sua frente – isso te leva para fora da cidade. Muitas pessoas pensam em seus problemas no chuveiro. Penso nos meus enquanto remo", disse Abeer Aly, de 34 anos, que fundou a Academia dos Dragões do Nilo, escola de remo no centro do Cairo.

Hoje em dia, os problemas de Aly não incluem falta de negócios. A escola, poucos anos depois da abertura, em 2013, tinha uma lista de espera de centenas de pessoas; agora há tantos cairotas interessados no remo amador que meia dúzia de centros de esportes aquáticos oferecem aulas nas margens do rio.

O Nilo deu origem à civilização egípcia há milhares de anos, com suas águas sedimentares proporcionando a riqueza agrícola que construiu um império e que ainda o sustentam. Os residentes do Cairo podem tomar café em um restaurante flutuante ou embarcar em uma feluca para um cruzeiro de uma hora; a água do Nilo flui das torneiras e cultiva os alimentos. Mas as manhãs no rio são o mais próximo que a maioria dos remadores já chegou da massa de água em si.

"Quando as pessoas ouvem que estou remando, perguntam: 'Remando? Onde?' Você vê as pessoas remando ao passar de carro por cima do Nilo, mas não pensa nisso como algo que dá para fazer", comentou Nadine Abaza, de 43 anos, que começou a remar há três meses na ScullnBlades, escola de remo perto de sua casa em Maadi, subúrbio abastado do Cairo.

Para a maioria dos cairotas, o rio sem o qual seu país não existiria se tornou um mero cenário. Caso seja possível vê-lo.

No passado, um calçadão à beira do rio, o corniche, permitia que os motoristas fossem da parte sul do Cairo até sua extensão ao norte, sem que a vista do rio fosse interrompida.

No entanto, em grande parte do centro do Cairo, clubes e restaurantes privados construídos nas últimas quatro décadas às margens do rio ou estacionados permanentemente em barcaças fixas esconderam o Nilo de todos, exceto daqueles que podem pagar. Muitos locais importantes pertencem a organizações de militares, à polícia e ao judiciário.

É verdade que há outras razões para ficar longe de um rio que recebe esgoto, lixo e outros poluentes por quilômetros antes de fluir, marrom esverdeado e intermitentemente pungente, no Cairo. Os remadores compartilham a água não apenas com barcos da polícia, pescadores e balsas, mas também com o arquipélago ocasional de lixo e – pelo menos uma vez – com uma vaca morta.

"Existimos por muitos milhares de anos por causa dele, mas agora o estamos destruindo e ignorando", disse Amir Gohar, urbanista e paisagista que estudou a relação dos egípcios com o Nilo.

Algumas partes do corniche ainda permanecem abertas para caminhadas, e nos bairros pobres do Cairo e em outras partes do Egito as pessoas vão ao Nilo para nadar, pescar e – se não tiverem água corrente – lavar pratos, roupas e animais. Em comparação aos cairotas do passado, porém, os moradores de hoje em dia mantêm uma relação muito mais distante com o rio.

Esculturas antigas e modelos de barcos encontrados em tumbas sugerem que as pessoas subiram o Nilo para transportar suprimentos – incluindo os enormes blocos de pedra das Grandes Pirâmides –, para celebrar festivais e simplesmente para se deslocar. Era de barco que o sol cruzava o céu e os mortos iam para a vida depois da morte, acreditavam os antigos egípcios.

Os europeus que dominaram o Egito no início dos anos 1900 foram os primeiros a estabelecer os clubes de remo modernos ao longo do Nilo. Durante décadas, o esporte foi reservado para estrangeiros e para a elite egípcia, com corridas que recebiam nome em francês.

Depois que a monarquia caiu e os estrangeiros fugiram na esteira da revolução de 1952 do Egito, o Nilo, bem como tantas outras coisas no Egito, foi transformado sob a visão socialista do presidente Gamal Abdel Nasser. À medida que Nasser estabeleceu novos sindicatos para cuidar das necessidades dos associados, desde a moradia até os cuidados de saúde, esses sindicatos receberam terras em frente ao Nilo para construir clubes nos quais os membros pudessem relaxar e, em alguns casos, remar.

Na década de 1970, buscando atrair turistas de volta ao Egito depois de uma guerra com Israel, o governo organizou regatas que atraíram remadores de primeira linha da Europa e dos Estados Unidos, que passaram a toda a velocidade pelos templos de Luxor e pelo centro do Cairo. Entre os egípcios, no entanto, o remo nunca teve chance contra esportes populares como o futebol.

Hoje, os clubes privados ao longo do Nilo ainda pertencem ao sindicato dos engenheiros, ao clube dos juízes, à polícia e outros. Mas, como os últimos governos rejeitaram o nasserismo em nome do capitalismo, os empreendedores privados transformaram grande parte da margem do rio em cafés e residências caras. Isso em uma cidade com menos de 32 centímetros quadrados de área verde por residente.

"Você está falando do Cairo, que tem 20 milhões de habitantes agora, mas que tem pouquíssimo espaço público ou área verde. E, com tudo que existe no Nilo, ele não é apenas exclusivo, mas estamos também impedidos de vê-lo e desfrutá-lo", disse Yahia Shawkat, pesquisadora urbana.

Os egípcios se apropriam da margem do rio onde podem. Toda noite, os cairotas se reúnem nas pontes do Nilo para apreciar a vista e a brisa refrescante. Há peixes. As famílias compram lanches de grão-de-bico cozido e batata-doce assada de vendedores que montam cafés não licenciados nas calçadas. Casais tiram selfies.

As aulas de remo custam cerca de US$ 7 a US$ 13 a hora, fora do alcance da maioria dos egípcios. Porém, para os jovens que trabalham e para famílias de classe média alta com dinheiro, o remo se tornou um nicho que cresce com rapidez, com alguns se contentando em remar de maneira recreativa e outros sendo compelidos a ingressar em times amadores.

As escolas de esportes aquáticos afirmam ter inscrito alunos entre 20 e 60 anos, parte de uma tendência do condicionamento físico que emergiu depois da revolução de 2011 no Egito. As redes sociais ajudaram, assim como a pandemia: a ScullnBlades recebeu o dobro de inscrições depois da chegada do coronavírus, por ser uma atividade ao ar livre.

"O remo não era acessível até recentemente. Não era possível que alguém na casa dos 30 anos decidisse começar a remar", informou Emma Benany, de 31 anos, cofundadora da Cairow, academia de esportes aquáticos no bairro de Dokki. Quando ela começou a remar, em 2011, encontrou apenas times de estudantes ou clubes privados; não havia quase nada para amadores. Novas academias, incluindo a dela, ainda funcionam em docas de clubes.

As pessoas acreditam que não é possível ter medo do Nilo e, ainda assim, decidir entrar em um barco. No entanto, muitos novos remadores têm perguntas como: se eu cair, não vou me afogar? Não há redemoinhos? Não vou pegar esquistossomose, doença muito comum na região causada por parasitas de água doce?

Não, você não vai se afogar, não há redemoinhos e os parasitas não sobrevivem na água em movimento, explicam os treinadores, embora a corrente possa ser mais complicada do que nadar em uma piscina. Aly, da Academia dos Dragões do Nilo, disse já ter até tomado a água do Nilo diretamente para tranquilizar os remadores desconfiados. Aqueles que estudaram a contaminação do rio podem não aprovar. Mas, ainda assim, assunto encerrado.

"Antigamente, eu tinha medo do Nilo. Agora sinto que o Nilo é uma parte importante do meu dia", afirmou Mariam Rashad, treinadora da Cairow.

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