Erica Yoon para The New York Times
Erica Yoon para The New York Times

Filha de imigrantes encontra no remo chance de entrar na universidade

Sebastiana Lopez integra a Row New York, organização sem fins lucrativos que ensina estudantes a remar, oferecendo apoio acadêmico e orientação para admissão na universidade

Juliet Macur, The New York Times

25 de dezembro de 2019 | 06h00

Enquanto lidera a equipe de remo, Sebastiana Lopez sente a chuva no rosto, molhando as roupas e fazendo a umidade chegar até os ossos. Os dedos dela perdem a sensibilidade. Mas Sebastiana, 17 anos, cursando o último ano do ensino médio, diz que essa é a melhor coisa que já fez por si mesma.

Mais de quatro anos atrás, ela se inscreveu na Row New York, organização sem fins lucrativos que ensina aos estudantes da cidade a remar, oferecendo apoio acadêmico e orientação para a admissão na universidade. Agora a rotina dela inclui enfrentar os árduos momentos difíceis desse esporte exigente. “Consigo suportar os dias mais difíceis", disse Sebastiana. “Eu me obrigo a completar os treinos porque quero muito ir à universidade e sei que isso vai me ajudar na admissão.”

Ela tenta não chorar, sem sucesso. “Quero que minha família tenha uma vida melhor". A composição demográfica das equipes da Row New York contraria o estereótipo segundo o qual o remo seria um esporte dos ricos e brancos. Muitas das colegas de equipe de Sebastiana são as primeiras de suas famílias a nascerem nos Estados Unidos, como ela, filhas de pais que vieram de países como México, China, Equador e Belize, e muitas são imigrantes.

Sebastiana mora com dez parentes em um apartamento de três quartos e um banheiro. Ela divide um quarto com os pais, que são imigrantes mexicanos, e dois irmãos mais novos. O pai trabalha 13 horas por dia em um mercado de frutos do mar. A mãe trabalhava como manicure até o salão de beleza fechar em setembro.

Sebastiana é uma timoneira, a líder da equipe do barco, e sua função não é remar, e sim definir a direção e anunciar comandos para motivar as colegas. Ela pretende manter a posição na universidade. Ela disse que o timoneiro deve ser um líder tenaz capaz de funcionar de maneira consistente sob pressão, qualidades que fariam de qualquer pessoa o universitário ideal.

Amanda Kraus, que já foi remadora pela Universidade de Massachusetts, em Amherst, fundou a Row New York em 2002 para dar aos excluídos uma chance contra os abastados. Ainda que um pequeno número de formandos do programa tenham recebido bolsas de estudos para participar dos programas de remo - e cerca de metade tenham recebido algum tipo de bolsa - Amanda está mais preocupada em garantir que esses formandos desenvolvam a confiança e a ética de trabalho necessárias para a universidade.

Um terço das 260 participantes do Row New York vem de lares com renda inferior a US$ 30 mil ao ano. Para a maioria das participantes, o programa é gratuito, e quase todas as que se formam no remo entram na universidade. A maioria deixa de remar durante o ensino médio.

“Não podemos remar por essas jovens nem fazê-las estudar para os exames, mas daremos a elas ferramentas para saberem do que são capazes", disse Amanda. “E temos expectativas em relação a elas em um momento em que, infelizmente, poucas pessoas em suas vidas as tratam assim.”

As alunas do ensino médio participam do programa durante o ano todo, de segunda a sábado. Uma vez por semana, participam de atividades preparatórias para exames e processos seletivos para a admissão universitária. Para muitas, incluindo Sebastiana, esse compromisso exige horas de viagem de ida e volta até as raias, estendendo a duração de seus dias até 13 horas ou mais. Sebastiana fez um teste para participar da equipe e descobriu que adorava o esporte - exceto por um detalhe. Ela não sabia nadar e morria de medo da água.

A Row New York pagou pelas aulas de natação dela porque mais da metade das recrutas não sabe nadar. Ela precisou de três tentativas até passar no teste de natação. O trabalho de Sebastiana enquanto timoneira envolve atuar como uma técnica na água, ajudando a organizar os treinos como líder arrojada e de voz potente. Os treinos têm duas horas de duração e as alunas preparam quase tudo, chegando até a prender o motor do barco da técnica. As recrutas mais novas recebem esfregões. Seu trabalho é limpar as docas do cocô de ganso.

Sebastiana dá ordens para as colegas de sua “irmandade de mulheres fortes”, nas palavras dela. A equipe treina para competir contra outros clubes locais e viaja até cidades como Washington e Filadélfia para participar de regatas maiores. Não costumam estar entre as favoritas, mas o objetivo principal não é a vitória.

“Quando entrei para a equipe, nunca tinha desempenhado antes um papel de liderança, e tive medo", disse Sebastiana. “Mas eu era a encarregada de garantir a segurança de todas, e elas confiaram em mim. É algo que nos dá a sensação de que somos importantes.” A Row New York a levou em várias visitas a campi universitários, e Sebastiana ficou impressionada com as possibilidades fora da cidade de Nova York.

Depois que os filhos forem para a faculdade, a mãe e o pai de Sebastiana, Cristina Cuevas e Isidoro Lopez, planejam voltar ao México para poderem trabalhar menos e cuidar dos parentes no país. A esta altura, os três filhos já poderão se cuidar. “Sempre disse a Sebastiana, não precisamos de muito espaço, nem de muitas roupas para fazer algo grandioso", conta o pai dela. “Ela está sempre estudando até tarde, é a última a dormir. Tenho certeza que ela vai subir muito na vida.” Ela respondeu: “Eu sei, Papi, tudo isso terá valido a pena um dia". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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