Alessandro Grassani/The New York Times
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Renato Casaro: o responsável por alguns pôsteres famosos do cinema como 'Conan, o Bárbaro'

A arte desenhada à mão fisgou o público de cinema em todo o mundo desde a década de 1950; Tarantino e Stallone são grandes fãs. Um segredo para seu sucesso? 'Você não pode trapacear'.

Elisabetta Povoledo, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2021 | 05h00

TREVISO, Itália - Renato Casaro fazia uma viagem pelo caminho da memória, uma longa jornada em uma carreira que se estende desde a década de 1950, quando Roma era conhecida como a Hollywood no Tibre, até a última década, quando Quentin Tarantino pediu sua ajuda para o filme de 2019 Era uma vez ... em Hollywood.

“Eu fui me adaptando”, disse Casaro, que está a poucos dias de completar 86 anos. “É por isso que continuei trabalhando quando os outros pararam.”

Por mais de seis décadas, seus pôsteres de filmes desenhados à mão levaram o público aos cinemas, funcionando como presságios resumidos das delícias por vir.

“O importante era captar o essencial: aquele momento, aquele olhar, aquela atitude, aquele movimento que diz tudo e condensa toda a história. Essa é a parte difícil ”, disse Casaro. “Você não pode trapacear. Você não pode prometer algo que não está lá. ”

O essencial pode se traduzir no abraço terno que ele retratou no pôster de uma versão do balé russo de 1955 de Romeu e Julieta. Ou pode ser um olho aterrorizado iluminado por uma vela no thriller de 1969, Casa Maldita. Ou talvez um Arnold Schwarzenegger impossivelmente musculoso brandindo uma espada como Conan, o Bárbaro em 1982.

Embora sua arte tenha sido vista por incontáveis milhões, o próprio Casaro é praticamente invisível, seu trabalho não foi devidamente creditado (exceto por sua assinatura impressa cuidadosamente e discretamente colocada em uma margem). Ele é conhecido principalmente por colecionadores e por muitos produtores e diretores que o procuraram para divulgar suas fotos.

“É um ponto um pouco dolorido”, disse Casaro durante uma entrevista recente em Treviso, a cidade no nordeste da Itália onde ele nasceu e voltou a morar alguns anos atrás. Pelo que sabia, disse, ele foi creditado nos títulos finais apenas uma vez, em 1984, por Sergio Leone, por seu trabalho em Era uma vez na América.

Mas agora Casaro está em destaque pois o Ministério da Cultura da Itália e Treviso celebram sua arte por meio de uma retrospectiva ambiciosa: Renato Casaro. O último designer de pôsteres de cinema. Treviso, Roma, Hollywood.

“Estamos muito orgulhosos de celebrar o mestre que emocionou tantas pessoas”, disse o prefeito de Treviso, Mario Conte. Muitos dos pôsteres de Casaro se tornaram ícones, "para sempre alojados em nossas memórias", ele disse.

O título da exposição traça a trajetória da carreira de Casaro - desde a criação de pôsteres de filmes quando adolescente em troca de ingressos grátis para o Teatro Garibaldi de Treviso, até os dias em que filmes extravagantes do estilo “espada e sandália” ambientados na Roma antiga eram filmados na moderna capital italiana, aos seus encontros com atores de Hollywood de primeira linha.

Casaro disse que “nasceu com um pincel na mão”, um talento natural que ficou melhor “com muita experiência”.

Ele se mudou para Roma em 1954, no momento em que a cidade estava se tornando a favorita dos cineastas internacionais, que aproveitaram a cidade por seu cenário incomparável, a experiência de produção dos Cinecittà Studios e o fascínio por estrelas locais em ascensão como Sophia Loren.

Ele encontrou trabalho em um conhecido estúdio de design publicitário, especializado em pôsteres de filmes.

“Você aprende no trabalho”, disse Casaro, que acabou saindo de lá por conta própria. “Você tem que ser capaz de desenhar de tudo, de um retrato a um cavalo, a um leão.”

Foi realmente la dolce vita, ele lembrou.

Em Roma, ele trabalhou constantemente. Roberto Festi, curador da exibição, estimou que nessa primeira fase de sua carreira, ele estava fazendo cerca de 100 pôsteres por ano.

A virada em sua carreira, que atraiu atenção de fora da Itália, veio quando Dino De Laurentiis o contratou para fazer o pôster do blockbuster de 1966 A Bíblia: No início… Foi o começo de uma colaboração duradoura com De Laurentiis , e a amizade ajudou a colocá-lo na mira de Hollywood.

Casaro desenhou os pôsteres para a trilogia de Conan, filmes que foram um marco para Schwarzenegger, que em 1982 era conhecido principalmente como fisiculturista. Para o primeiro filme, De Laurentiis, um dos produtores, disse a Casaro para se focar no rosto do ator, não apenas em seus músculos. “Dino queria lançá-lo”, disse Casaro. “Ele sabia que Schwarzenegger explodiria como ator”.

Outra grande estrela da época, Sylvester Stallone, adorou o modo com que Casaro o retratou em seu papel como o problemático veterano do Vietnã,  Rambo. “Stallone disse que eu havia entrado em sua alma”, disse Casaro.

O estilo inicial de Casaro, que ele descreveu como "impressionista", tornou-se cada vez mais realista na década de 1980, quando ele começou a usar um aerógrafo. Isso tornou sua técnica mais fotográfica, mas também "mais mágica", ele disse.

“Quando ele começou a trabalhar com hiperrealismo, essa foi a grande mudança”, disse Nicoletta Pacini, chefe de pôsteres e memorabilia de filmes do Museu Nacional de Cinema da Itália. “Aquilo era puro Casaro, e outros começaram a copiá-lo.”

O artista não tem certeza de quantos pôsteres de filmes criou no total, mas estima que sejam cerca de 2.000.

“Ele sempre entendeu o espírito do filme”, criando imagens que eram “especiais e distintas”, disse Carlo Verdone, um dos mais famosos atores e diretores de comédia da Itália, que contratou Casaro para fazer pôsteres para vários filmes.

Casaro parou de fazer pôsteres em 1998, quando o gosto por imagens desenhadas à mão diminuiu em favor de renderizações digitais e com photoshop. Não para ele, ele disse.

Ele mudou seu foco para os desenhos da vida selvagem africana - e elaborou releituras de pinturas famosas da Renascença repletas de estrelas de cinema.

Em uma releitura do Juízo Final de Michelangelo, Marilyn Monroe conduz a audiência. “Ela sempre foi o último mito para mim”, disse Casaro. “Com todas as suas fraquezas, ela ainda representa um momento especial na história do cinema.”

Então, do nada, Tarantino ligou, pedindo pôsteres em um estilo western-spaghetti vintage para Era uma vez... em Hollywood, a carta de amor do diretor para a Los Angeles dos anos 1960.

Para os admiradores de Casaro, a exposição de Treviso está muito atrasada.

“A história da arte tende a marginalizar os pôsteres porque eles foram concebidos para as massas e os ilustradores eram vistos mais como artesãos”, disse Walter Bencini, que fez um documentário sobre Casaro. “Mas pôsteres de filmes podem ser arte popular no verdadeiro sentido da palavra, porque fazem parte da imaginação coletiva, mas também evocam muitos sentimentos pessoais ligados a momentos específicos.”

Os sentimentos evocados em seu pôster para O céu que nos protege, exuberantemente filmado por Bernardo Bertolucci em 1990, tornam-no um dos favoritos de Casaro. “Ele captura o mistério”, ele disse, “a noção de mergulhar no deserto”.

Se os filmes são principalmente sobre entretenimento, então o resumo de Casaro sobre sua carreira é adequado.

“Eu me diverti”, ele disse. "Eu me diverti muito." /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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