Lena Mucha/The New York Times
Lena Mucha/The New York Times

A garantia de uma renda mensal mudou sua vida. Então, ele começou a distribuir dinheiro

O site de Michael Bohmeyer, 'My Basic Income', deu a pessoas selecionadas aleatoriamente quase US$ 1,2 mil por mês durante um ano para ver se isso melhorava suas vidas. Sua resposta: sim

Sally McGrane, The New York Times - Life/Style

11 de janeiro de 2021 | 05h00

BERLIM – Dos escritórios no loft de tijolos da sua startup, Michael Bohmeyer dirigiu uma cervejaria transformada em espaço para uma espécie de café, “Se nós sentarmos lá fora, posso pegar um café”, falou o empreendedor da área de tecnologia de 36 anos, fundador do site My Basic Income. “Afinal, você precisa curtir um pouco a vida”.

Curtir a vida não é um assunto trivial para Bohmeyer, um homem magro, sério, cuja plataforma experimental hoje popular, já deu a mais de 650 pessoas escolhidas ao acaso mil euros mensais, ou cerca de US$ 1.165, por um ano, sem nenhum compromisso, apenas para testar uma tese.

A teoria é que as pessoas não precisam de mais dinheiro em um mundo que muda rapidamente, apenas de maior segurança. E que uma renda básica sem condições prévias – uma soma mensal suficiente para cobrir os gastos normais da vida que, se implementados, seriam pagos pelo governo e todo mundo poderia se beneficiar – permitiria isto.

A ideia repercutiu na Alemanha, um país rico que gasta cerca de 33% do seu Produto Interno Bruto com um robusto sistema previdenciário. Nos últimos seis anos, desde que Bohmeyer começou a pedir doações, My Basic Income captou cerca de 8 milhões de euros, graças a aproximadamente 140 mil doações de quantias insignificantes de uns dois euros mensais de particulares.

Agora, depois de publicar um best-seller em que especifica as experiências de um amplo espectro de beneficiários – desde a herdeira de um hotel a um sem-teto – Bohmeyer e sua equipe se associaram ao respeitado Instituto para a Pesquisa Econômica da Alemanha em Berlim para elaboração de um estudo.

Como parte deste projeto piloto, 120 pessoas escolhidas aleatoriamente receberão 1.200 euros por mês por três anos, enquanto um amplo grupo de controle maior de “gêmeos estatísticos” em situações de vida semelhantes não receberá nada. Quando os apelos de contribuições saíram em agosto, um milhão de pessoas se inscreveram em menos de três dias. Para Jürgen Schupp, pesquisador sênior do instituto e professor da Universidade Livre de Berlim, o número de candidatos foi menos surpreendente do que o número de doadores.

“Fiquei mais pasmo com as pessoas dando dinheiro gratuitamente para patrocinar a ideia”, disse Schupp, que supervisionará o projeto-piloto. “Temos muitos ‘cientistas cidadãos’ contando pássaros e entregando os dados para os cientistas. É algo semelhante a isto, mas para a sociedade civil”. Considerando sua dimensão limitada, o estudo não procura impactos microeconômicos, como, por exemplo, se os impostos seriam afetados ou se uma renda básica levaria à inflação.

Ao contrário, tenta simplesmente descobrir se pagamentos em dinheiro sem condições atreladas levariam a mudanças estatisticamente significativas do comportamento e dos sentimentos dos beneficiados. “Há um aspecto negativo?” perguntou Schupp, observando que, em pesquisas recentes, cerca da metade dos alemães acharam o conceito bom, em princípio. “Ou iremos encontrar a confirmação de lindas histórias no livro de Michael Bohmeyer?”.

Para escrever O que você faria? Como uma renda básica incondicional muda as pessoas, Bohmeyer e seu coautor viajaram dez dias por toda a Alemanha entrevistando 24 beneficiados, passados e presentes.

De acordo com as conclusões de outros estudos sobre uma renda básica ao redor do mundo, eles concluíram que poucas pessoas abandonaram seus empregos, Muitas, entretanto, fizeram mudanças: uma assistente social usou os recursos extras para reciclar-se como assistente em casas de repouso, e uma aposentada que não ia para frente em seu emprego de garçonete sem contrato para um patrão explorador, deixou o trabalho e encontrou outro em um restaurante melhor.

Independentemente de como gastaram o dinheiro, se o pouparam, investiram ou o deram, quase todas as pessoas entrevistadas disseram que a verba mensal fez com que elas se sentissem melhor. “Nós a chamamos ‘sensação da renda básica’”, disse Bohmeyer, que se baseou em obras de psicólogos, sociólogos, economistas, e da filósofa Hannah Arendt para tentar entender o que estava ouvindo dos beneficiados.

“O subtexto da ajuda incondicional é: Nós, enquanto sociedade, acreditamos que você é gente boa. Não quero parecer esotérico, mas a mensagem é: ‘Todos nós temos o mesmo direito de existir’”. Bohmeyer credita a sua vontade de fazer uma experiência como esta à maneira como foi criado. Nascido fora de Berlim, nos últimos anos da República Democrática Alemã, Bohmeyer tinha cinco anos quando o muro caiu. Mas o espírito do ‘faça você mesmo’ se manteve em sua casa. “Hoje, chamaríamos a isto ‘disruptivo’”, disse Bohmeyer com um pequeno sorriso”. Mas na RDA, a gente não podia comprar tudo o que queria ou mesmo certas coisas, por isso tinha de fazer muitas coisas por conta própria. Para mim, era totalmente normal ter uma ideia e depois realizá-la”.

Após o colapso do sistema da Alemanha Oriental, ele via os pais – um físico e uma técnica – se recuperarem com sucesso como empreendedores. A experiência ensinou-lhe o valor do trabalho duro, mas também a ter um olhar crítico. “O que aprendi com meus pais é que os sistemas não duram para sempre”, afirmou. “Da noite para o dia, podem cessar de existir. É por isso que não levo o capitalismo totalmente a sério”.

Depois de cursar o último ano em Michigan, onde foi inspirado pela atitude americana, como ele a chama, do “faça você mesmo”, Bohmeyer voltou para casa e abriu um centro de distribuição on-line de sinalizações (tipo, “Proibido fumar”). Aos 29 anos, decidiu que precisava tentar algo novo. Deixou o trabalho diário do negócio de sinalizações, mas continuou recebendo cerca de mil euros mensais como sua parcela de lucro. “Sou um capitalista”, afirmou, encolhendo os ombros.

Reduzir o ritmo deu-lhe uma chance de questionar o caminho que havia tomado até então, e chegou à conclusão de que, para ele, ganhar mais dinheiro não era um fim em si. “Eu não iria comprar nada mesmo”, disse. Começou a ler o filósofo francês Michel Foucault e a refletir sobre sua própria vida. “Quem sou eu? Como quero viver? Do que preciso para ter uma boa vida?”, ele disse. “Perguntas difíceis, mas totalmente legais, se você tem condições de responder”.

Ele observou também outras mudanças: a relação com a sua parceira melhorou. Ele ficou mais paciente com a filha de dois anos. Suas dores de estômago crônicas desapareceram. Começou a refletir se uma renda básica, como a que ele tinha, poderia ajudar outras pessoas a encontrar um maior equilíbrio e tranquilidade em suas vidas.

Os primeiros apelos por doações foram atendidos prontamente, e, seis anos mais tarde, Bohmeyer se acostumou a aparecer em programas de entrevistas na televisão e a conversar com políticos dos altos escalões. Agora, ele está convencido de que uma renda básica pode oferecer soluções para uma série de males sociais, como o desgaste emocional, o consumo excessivo que prejudica o meio ambiente e o populismo de direita. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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