Fiona Goodall / The New York Times
Fiona Goodall / The New York Times

Reordenar economia é saída para testar nova política monetária

Países pequenos, como Nova Zelândia e Noruega, podem, por exemplo, buscar novas políticas para obter padrão de vida mais elevado

Neil Irwin, The New York Times

23 de março de 2019 | 06h00

Há muitos anos os defensores da “Teoria Moderna da Moeda" - MTM, na sigla em inglês - constituem um bando de gente do contra. Se eles ministrassem um curso, poderia ser chamado de “Tudo o que você sabe sobre macroeconomia está errado.”

Na opinião destes senhores, um governo que tem condições de tomar emprestado em sua própria moeda não precisa sofrer restrições por causa dos déficits orçamentários e pelo endividamento - o que significa que ele pode agir de maneira mais ousada do que os economistas imaginavam, sem consequências negativas.

Ora, este pessoal da MTM começa a ser levado muito mais a sério. Suas ideias estão sendo cada vez mais contestadas - embora com certo ceticismo - pelos principais pensadores  da política econômica de esquerda.

Até o momento, o debate versou principalmente sobre a teoria macroeconômica abstrata, mas também esgrimiu com estilos retóricos e uma considerável quantidade de dinâmica interna versus externa.

Mas apesar de todas as discussões das últimas semanas sobre a mera economia da teoria, tem se discutido surpreendentemente pouco sobre as implicações práticas do funcionamento da política econômica.

Por exemplo, uma ideia fundamental por trás da teoria é que o Congresso dos Estados Unidos deveria gastar dinheiro da maneira que considerar adequada, e que suas únicas restrições deveriam dizer respeito aos recursos disponíveis da mão de obra e dos materiais do mundo real para tornar concretas estas ambições de gastos. Segundo este modelo, a inflação é o sinal de que é preciso conter os gastos ou aumentar os impostos.Mas talvez seja demais esperar que o Congresso use esta visão e sabedoria na aplicação dos freios no momento oportuno.

Além disso, a capacidade de um país tomar emprestado em sua própria moeda não é uma situação permanente dos negócios. É verossímil que um país possa ganhar e perder, como aconteceu com inúmeras nações ao longo dos séculos. A visão convencional é que esta capacidade possa ser alcançada ao longo do tempo por meio de uma inflação baixa, um banco central independente, um sistema legal forte e boa governança.

Um país que imprime seu próprio dinheiro não tem necessidade de deixar de pagar a sua dívida. Mas a história nos oferece muitos exemplos do resultado da utilização da impressão de moeda como solução para a falta de compradores privados da dívida: um círculo vicioso do aumento da inflação.

O que está sendo proposto é uma reordenação fundamental do funcionamento das instituições e das prioridades econômicas.  Seria bom ter alguma prova do conceito antes que fosse seja posto em prática na maior economia do mundo, que, além disso, tem a moeda de reserva mundial.

Seria realmente fascinante ver um pequeno país - com a sua própria moeda - governar-se de acordo com os princípios da teoria. Aqui estão algumas possibilidades: a Nova Zelândia, Noruega, Suíça, Suécia, Israel, Cingapura.

Se esses países menores podem corrigir as falhas da governança econômica em um mundo da MTM e obter um padrão de vida mais elevado, então talvez isso possa ser paulatinamente realizado por países médios, como Austrália, Canadá, Grã-Bretanha e Coreia do Sul.

Se os críticos tradicionais da MTM estiverem equivocados, a sabedoria convencional seguramente mudará.

Não há nada errado em contestar a sabedoria que nos foi transmitida, e a Teoria Moderna da Moeda identifica  falhas na visão de mundo dos estrategistas tradicionais. Realmente é o caso, por exemplo, de um país como os Estados Unidos, que não é vulnerável ao tipo de crise fiscal que a Grécia experimentou em 2010, contrariamente às advertências dos falcões do déficit americano.

O que ocorre é que o sustento de bilhões de pessoas em todo o globo depende da ideia de que os Estados Unidos não vão por tudo a perder. Talvez a governança macroeconômica devesse ter sua própria fórmula de juramento como a do médico: em primeiro lugar, não provocar dano.

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