Gianni Cipriano para The New York Times
Gianni Cipriano para The New York Times

Repentinamente, a Itália perde o seu forte desempenho econômico

Entre as tarifas de aço do governo Trump, a reintegração das sanções ao Irã e o caos político, o país está lutando economicamente mais uma vez

Peter S. Goodman, The New York Times

03 Julho 2018 | 10h00

GIOIA TAURO, ITÁLIA - O Gruppo Ventura, sediado na Calábria, a região mais pobre e menos desenvolvida da Itália, olhou para o mundo lá fora e identificou uma oportunidade de crescimento - no Irã.

A empresa familiar opera na instalação de trilhos para ferrovias. A economia italiana estava praticamente parada, enquanto o Irã caminhava para um rápido desenvolvimento, após prometer que abandonaria a busca de armas nucleares em troca do abrandamento de devastadoras sanções internacionais.

O acordo que o Gruppo Ventura concluiu no ano passado com um parceiro iraniano era modesto, mas as possibilidades pareciam enormes. Então, o presidente Donald J. Trump retirou os Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã em um verdadeiro golpe contra as companhias de toda a Europa.

As sanções americanas não só proíbem as empresas nacionais de fazerem negócios no Irã, como também ameaçam congelar as empresas estrangeiras fora do sistema financeiro americano.

Trump também impôs tarifas sobre o aço e o alumínio, provocando uma revolta dos aliados europeus, ameaçando ao mesmo tempo encarecer ainda mais o aço.

A expansão internacional do Gruppo Ventura agora está suspensa.

“A nossa esperança era expandir-nos no Irã, construir linhas ferroviárias”, disse o diretor financeiro do Gruppo, Alessandro Ventura. “Não temos mais esperança de poder fazê-lo”.

Há apenas poucos meses, a Europa era o principal exemplo do vigor recuperado pela economia global depois do trauma de uma crise mundial. Até mesmo a Itália, país europeu tradicionalmente problemático, estava crescendo.

Mas a decisão de Trump de abandonar o acordo nuclear com o Irã ameaça custar às companhias europeias bilhões de dólares em vendas perdidas, enquanto as empresas alemãs, italianas e francesas estão particularmente expostas. A imposição de novas sanções ao Irã limitará o fluxo do seu petróleo para os mercados mundiais. Esta perspectiva provocou o aumento dos preços do combustível, submetendo as economias europeias a nova pressão.

Trump se recusou a poupar a Europa de suas tarifas sobre o aço e o alumínio, e aproveitou de uma reunião anual das principais democracias para bater de frente com os aliados, aumentando os temores de um conflito comercial.

O Gruppo Ventura se apresenta como relativamente isolado contra tais choques, porque é o governo italiano que o paga pelos serviços prestados às linhas ferroviárias. Mesmo assim, os executivos da companhia estão preocupados com a possibilidade de o custo destas linhas subir juntamente com o preço do aço.

“Agora a situação ficou um pouco mais complicada”, afirmou a presidente do Gruppo Ventura, Maria Antonietta Ventura.

Tudo isto ocorre em plena eclosão do mais recente drama político italiano, que colocou o poder nas mãos dos dois partidos populistas, o Movimento Cinque Stelle e a Liga. Eles prometeram cortes dos impostos e um programa de renda básica - subvenções pecuniárias incondicionais para todos - sem explicar como pagarão por estas medidas, gerando mais preocupações com a alarmante dívida pública da Itália.

Na tarde em que foi anunciado que Trump não isentaria a Europa de suas tarifas sobre os metais, Claudio Capponi tentava calcular o impacto. Ele é o diretor comercial da IRON, uma companhia listada em bolsa que produz peças industriais.

“A Europa é um parceiro comercial dos Estados Unidos importante demais para o presidente Trump fazer uma coisa dessas”, afirmou.

Considerando que a IRON compra aço, a companhia poderia beneficiar-se com as tarifas americanas. O aço produzido nas siderúrgicas da Europa que atualmente embarca para os Estados Unidos deveria ficar aqui e evitar as tarifas, aumentando a oferta e baixando os preços locais, mesmo que eles subissem em grande parte do mundo.

Mas Capponi acredita que os seus consumidores o pressionarão para obter uma redução dos preços.

Além disso, disse Capponi: “Nós dependemos do acesso a um mercado global. É a incerteza que nos enlouquece. Olhamos da janela o que está acontecendo fora da nossa fábrica. Estamos preocupados com o precedente destas tarifas. Estamos preocupados com a possibilidade de as forças do protecionismo ficarem à solta”.

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