Federico Rios Escobar para The New York Times
Federico Rios Escobar para The New York Times
Nicholas Casey e Clifford Krauss, The New York Times

15 de janeiro de 2019 | 06h00

REVENTADOR, EQUADOR - A represa fica à sombra de um vulcão ativo, cuspindo colunas de cinzas no céu. As autoridades alertam contra a represa há décadas. Geólogos dizem que um terremoto pode acabar com ela. Agora, apenas dois anos após sua inauguração, milhares de rachaduras estão fragmentando o maquinário da represa. O reservatório está sujo de sedimentos, areia e árvores. E, na única vez em que os engenheiros tentaram usar a instalação com sua potência total, tudo balançou violentamente, causando uma pane na rede elétrica nacional.

A represa gigante fica na selva, financiada e construída pela China, e deveria ser o marco inicial de uma era de grandes ambições para o Equador, solucionando suas necessidades de energia e ajudando a tirar o país sul-americano da pobreza. Em vez disso, tornou-se parte de um escândalo nacional mergulhando o país na corrupção, num endividamento perigoso e num futuro diretamente ligado à China.

Quase todos os funcionários do alto escalão do governo envolvidos na construção da represa estão presos ou sentenciados por suborno. Entre eles há um ex-vice-presidente, um ex-ministro de Energia e um ex-fiscalizador anticorrupção encarregado de supervisionar o projeto.

Temos então a questão de seu preço: cerca de US$ 19 bilhões em empréstimos chineses, não apenas para esta represa, conhecida como Coca Codo Sinclair, mas também para pontes, estradas, sistemas de irrigação, escolas, clínicas e várias outras represas pelas quais o governo se esforça para pagar. Não importa se o Equador pode pagar ou não. A China receberá seu dinheiro.

Para quitar a dívida, a China ficará com 80% da exportação mais valiosa do Equador - petróleo - porque muitos dos contratos foram estabelecidos em termos de barris, e não dólares. Na prática, a China obtém o petróleo a um preço com desconto e o revende lucrando com a diferença. A necessidade de produzir petróleo suficiente para pagar a China se tornou um imperativo a ponto de o Equador estar perfurando cada vez mais fundo na Amazônia, ameaçando um desmatamento ainda maior.

Afetado pelo endividamento, o presidente Lenín Moreno cortou os gastos sociais, subsídios à gasolina, folha de pagamento de agências do governo e mais de mil cargos do funcionalismo público. A maioria dos economistas prevê uma recessão para o país, o que despertou a indignação.

"A China se aproveitou do Equador", disse o ministro da Energia do Equador, Carlos Pérez. "A estratégia da China é clara. Eles assumem o controle econômico dos países".

A história de como a represa foi construída reúne dois aliados naturais, ambos ansiosos por mudar o curso de seu hemisfério e derrubar os Estados Unidos da posição de potência inquestionável na região.

A China deixou seu plano claro dez anos atrás, quando chegou à América Latina durante a crise financeira, oferecendo aos governos uma chance de sobrevivência e prometendo "tratamento entre iguais", uma crítica ao domínio americano. Funcionou. A China, atualmente a principal parceira comercial da América do Sul, proporcionou à região uma série de projetos de infraestrutura e uma trilha de empréstimos. O país também colheu os benefícios políticos, fazendo com que os países latino-americanos rompessem os laços diplomáticos com Taiwan. Ainda assim, como demonstra a gigantesca represa no Equador, os dois parceiros estavam longe de serem iguais.

Ambos os países estavam dispostos a ignorar os problemas de desenho, as questionáveis vantagens econômicas e os alertas indicando que os estudos técnicos para a represa eram de décadas atrás. Mas, ao aplicar uma abordagem usada para bilhões de dólares em empréstimos oferecidos a todo o mundo em desenvolvimento, a China nunca se viu diante de um grande risco financeiro.

A aposta foi toda do Equador, e agora o país procura novos empréstimos para quitar as muitas dívidas em aberto, recorrendo inclusive a mais dinheiro do país asiático. No mês passado, Moreno foi à China para renegociar parte da dívida de seu país - e pedir emprestado mais US$ 900 milhões.

"Os chineses o fisgaram", disse o economista Steve Hanke, da Universidade Johns Hopkins.

Relacionamento difícil

Quando Fernando Santos, ministro da Energia nos anos 1980, descobriu que a represa Coca Codo Sinclair estava em construção, ele mal pode acreditar. Durante a época em que esteve no governo, as autoridades rejeitaram uma versão muito menor do projeto. Segundo ele, a ideia toda era impraticável por causa da proximidade do vulcão. Um forte terremoto arrasou a infraestrutura do petróleo na região em 1987. Santos disse que investir tanto dinheiro “num local tão arriscado não faz nenhum sentido". Não foi o único alerta.

Uma análise independente do projeto realizada em 2010, preparada por uma agência do governo mexicano, alertou que não eram realizados estudos do volume de água na região para impulsionar a hidrelétrica da represa há quase 30 anos. Desde aquela época, o Equador foi castigado pela seca, e surgiram preocupações com o derretimento de suas geleiras.

Apesar das orientações, Luciano Cepeda, ex-gerente-geral da represa, contou que autoridades equatorianas do alto escalão insistiram na execução porque "seriam necessários anos para a realização de um novo estudo", e eles não queriam desacelerar. Um diplomata chinês no Equador sem autorização para fazer comentários públicos disse que teve dúvidas em relação ao projeto. "Não demos atenção suficiente aos relatórios ambientais", disse o diplomata.

Havia também forças geopolíticas maiores envolvidas. O presidente do Equador na época, Rafael Correa, era um populista de esquerda que prometeu modernizar o país e libertá-lo da órbita dos EUA. As instituições financeiras ocidentais ficaram sob a mira de Correa. Ele denunciou o Fundo Monetário Internacional, dizendo que este restringia os gastos do país. Então, em 2008, anunciou a moratória no pagamento de US$ 3,2 bilhões da dívida externa de seu país e convidou a China para ocupar o espaço vazio.

Subitamente, Correa teve acesso ao dinheiro, mas uma nova crise veio à tona: o país estava ficando sem eletricidade. Uma seca estava esgotando os reservatórios do país, paralisando suas represas hidrelétricas. Em vez de buscar outra fonte, Correa dobrou a aposta na energia hidrelétrica.

As autoridades dizem que foi o ministro da Eletricidade de Correa, Aleksey Mosquera, o primeiro a mencionar Coca Codo Sinclair: um megaprojeto que deveria fornecer um terço da eletricidade do país. No fim, a represa foi construída à sombra do vulcão Reventador - com tamanho quase duas vezes maior que o projeto de represa rejeitado décadas antes. 

Quando foi inaugurada, no fim de 2016, o presidente da China, Xi Jinping, viajou ao Equador para celebrar. Mas dois dias antes da visita, a represa estava afundada no caos.

Os engenheiros tentaram gerar a capacidade total de 1.500 megawatts prevista para a hidrelétrica, mas nem as instalações e nem a rede elétrica do Equador foram capazes de suportar a carga. O equipamento tremeu bastante, e, de acordo com autoridades, os blecautes se espalharam pelo país.

Atualmente, a represa costuma funcionar com metade da capacidade. Segundo especialistas, levando em consideração as especificações do projeto e o ciclo de temporadas úmidas e secas, seria possível gerar o montante total de eletricidade por algumas horas diárias durante seis meses por ano. Quer dizer, se tudo funcionasse.

Mas o Equador ainda precisa quitar a dívida. O empréstimo de US$ 1,7 bilhão do Banco Chinês de Importações e Exportações é lucrativo para a China: juros de 7% ao longo de 15 anos. O Equador deve pagar US$ 125 milhões em juros por ano. Agora, muitos equatorianos dizem que o fardo recai sobre suas costas.

Maria Esther Tello pagou US$ 60 em novembro para manter as luzes acesas em casa, algo chocante dadas as promessas do governo de preços mais baixos para a eletricidade. "Onde foram investidos os impostos pagos pela minha mãe idosa?", perguntou a filha dela, Isbela Nole, enquanto ajudava a descascar feijões.

Evidências de possíveis subornos

Na entrada da represa vê-se uma inscrição, dizendo "Jorge Glas Espinel, vice-presidente da República, responsável por vislumbrar e forjar este monumental projeto". Glas vive numa cela no Equador, condenado a seis anos de prisão. Foi acusado de receber subornos da principal concorrente da China nos projetos de infraestrutura em boa parte da América Latina: a brasileira Odebrecht. Promotores americanos dizem que a Odebrecht pagou US$ 33,5 milhões em subornos no Equador para vencer licitações.

Agora, autoridades equatorianas estão investigando se os chineses fizeram pagamentos a Glas e outros do seu círculo. "Não acho que seja coincidência o fato de as mesmas pessoas terem administrado todos esses projetos", disse Pérez, o ministro da Energia.

Entre esses funcionários estão Mosquera, ex-ministro da Eletricidade, que cumpre uma sentença de cinco anos por aceitar US$ 1 milhão da Odebrecht; e Carlos Pólit, funcionário encarregado de combater a corrupção e acusado de aceitar milhões em subornos da empresa. Ricardo Rivera, outro assecla de Glas, também foi condenado por receber pagamentos dos brasileiros.

Mas surgiram evidências indicando que esses funcionários também receberam subornos da China. Funcionários do policiamento equatoriano dizem ter confirmado a autenticidade de uma gravação feita por um executivo da Odebrecht, entregue aos promotores brasileiros. Na gravação, feita na casa de Pólit, os dois conversavam a respeito de um suborno chinês.

A gravação deu início a uma investigação, principalmente em torno de Rivera, que se apresentava como representante do vice-presidente em visitas à China, de acordo com as autoridades equatorianas. Elas dizem estar examinando 13 transferências bancárias no valor de US$ 17,4 milhões autorizadas por Rivera a uma conta do HSBC em Hong Kong.

Até recentemente, o procurador-geral Paúl Pérez comandava uma investigação de possível corrupção cometida pelos chineses, e foi à China em novembro em busca de ajuda. Mas Pérez renunciou depois de voltar. Ele não atendeu aos pedidos de entrevista.

Um advogado de Glas negou o envolvimento de seu cliente em episódios de corrupção envolvendo a Coca Codo Sinclair. Correa, o ex-presidente, vive exilado na Bélgica, procurado sob a acusação de organizar o sequestro de um rival. O advogado de Pólit disse que seu cliente negou o envolvimento em irregularidades.

'Vício em crédito'

O imenso endividamento levou os novos líderes do país a criticarem a China.

"Não vamos pagar", disse Pérez, o ministro da Energia, a respeito do possível custo bilionário para o conserto da represa.

A China já fez algumas concessões ao Equador, como aumentar em US$ 0,92 o preço pago pelo barril de petróleo. A parcela do petróleo equatoriano destinada à China também foi reduzida de 90% para 80%. Mas o governo ainda precisa de US$ 11,7 bilhões para financiar sua dívida, apontam analistas.

Além da China, o novo governo está recorrendo às instituições que Correa demonizava: o Banco Mundial e o FMI. Alguns temem que o Equador esteja em busca de outros senhores financeiros. "Temos um vício em crédito", disse Santos, ex-ministro da Energia.

Leopoldo Gómez, que trabalha numa instalação de tratamento de água construída durante o governo de Correa, concorda. "Agora percebemos que há coisas das quais não necessitávamos, como a represa", disse ele. / Jose María León Cabrera contribuiu com a reportagem.

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