Vincent Tullo para The New York Times
Vincent Tullo para The New York Times

A representatividade nas adaptações teatrais de conto de Charles Dickens

Para interpretar o personagem Tim Cratchit, de Um Conto de Natal, realizadores apostam em atores com necessidades especiais

Michael Paulson, The New York Times

22 de novembro de 2019 | 06h00

Na sua estreia na Broadway em Um conto de Natal, Sebastian Ortiz, 7 anos, parou um pouco para pensar sobre o que significa interpretar o Pequeno Tim no palco. “Ser sempre corajoso”, ele disse. “Sempre olhar o lado positivo”, segundo Jai Ram Srinivasan, 8, que compartilha o papel.

Os dois meninos mostram uma mescla de timidez e otimismo ao encarar uma aventura diferente de tudo o que ambos já experimentaram. Ambos sofrem de paralisia cerebral. Desde que Charles Dickens apresentou ao mundo o menino Tim Cratchit, há 176 anos, o personagem é o símbolo de Um Conto de Natal - a criança doente, mas corajosa cuja triste situação contribui para a transformação de Ebenezer Scrooge.

Mas agora, nesta era em que a autenticidade e a representação se tornaram palavras de ordem da indústria cinematográfica, os realizadores de algumas das inúmeras adaptações teatrais encenadas todos os anos estão repensando quem poderá fazer este papel. Paris Strickland, uma menina de 11 anos cuja espinha dorsal sofreu compressão por causa do câncer, será o Pequeno Tim pelo terceiro ano consecutivo no Goodman Theater de Chicago. Jonathan Rizzo, um menino de 12, com distrofia muscular, foi Tim no ano passado em uma adaptação musical no North Texas Performing Arts Repertory Theater.

As crianças se identificam com Tim. “Nós dois temos dificuldade para andar”, disse Paris, “mas mesmo assim nos sentimos felizes o tempo todo”. A adaptação na Broadway é de Jack Thorne, que a escreveu para o Old Vic Theater em Londres, onde é apresentada na época do Natal desde 2017. Ali, o Pequeno Tim é interpretado por meninos e meninas com ananismo, cardiomiopatia, paralisia cerebral e ataxia, além de outras dificuldades que afetam suas pernas e sua visão.

“Quando há escassez de papéis para pessoas com dificuldades, é realmente importante que estes personagens sejam interpretados por crianças nestas condições”, disse Thorne. Matthew Warchus, que dirigiu as produções de Londres e Nova York da versão de Um Canto de Natal de Thorne, disse que esta é uma mensagem importante para o público: “Ela abre os nossos olhos e a nossa imaginação para todas as diferentes versões de seres humanos que nos cercam, e isto é muito bom”.

O Pequeno Tim é um personagem que preocupa os defensores das pessoas com necessidades especiais, em parte por causa de sua enorme visibilidade. Ele é mais conhecido por sua frase: “Deus abençoe cada um de vocês!” “Outros personagens ficam em segundo plano e ideias contemporâneas se impõem, mas esta história permanece”, disse Julia Miele Rodas, estudiosa de necessidades especiais, em Nova York.

Scrooge começa a história como um avarento resmungão, e acaba como uma pessoa caridosa. Em algumas adaptações teatrais, o Pequeno Tim é curado pela generosidade de Scrooge, uma solução irreal segundo os defensores destas pessoas. Na produção da Broadway, a dificuldade das crianças não muda; o foco está na transformação de Scrooge e na força de Tim. “Scrooge é perdoado por uma criança”, disse Warchus. “O arco da história é este”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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