Yuri Kochetkov/EPA, via Shutterstock
Yuri Kochetkov/EPA, via Shutterstock

Repressão do governo enfurece os jovens na Rússia

Enquanto a era Putin esmorece, os dissidentes viram alvo

Andrew Higgins, The New York Times

02 de novembro de 2019 | 06h00

PSKOV, RÚSSIA - Depois de um adolescente ter explodido a si mesmo dentro de um escritório da polícia secreta russa próximo ao Círculo Polar Ártico no segundo semestre do ano passado, uma jornalista freelance, centenas de quilômetros ao sul, expressou uma conclusão que ela considerou “óbvia” em seu comentário semanal na rádio.

Graças a essa conclusão - de que a implacável repressão das forças de segurança da Rússia está radicalizando os jovens do país -, a jornalista Svetlana Prokopyeva, de Pskov, enfrenta uma acusação de “incitação pública ao terrorismo”, que pode lhe render até 7 anos de prisão.

O Conselho de Direitos Humanos do Kremlin protestou, afirmando que ela tentava explicar quais forças são capazes de motivar pessoas a praticar atos de extremismo - e não encorajá-las a praticá-los.

O caso traz uma reviravolta às cada vez mais assertivas ações de um aparato de segurança que parece dedicado a provar que os críticos mais duros do Kremlin estão certos quando afirmam que a Rússia tomou um rumo perigoso enquanto o presidente Vladimir Putin cumpre o que seria seu último mandato. A previsão para que ele deixe o cargo é 2024.

As agitações resultantes, exacerbadas pela estagnação da economia e pelos pequenos mas disseminados protestos que irromperam este verão, fizeram as forças de segurança russas se virarem para provar seu valor contra ameaças em potencial e garantir seu futuro em um país que elas veem como uma fortaleza cercada por inimigos internos e externos. 

As forças de segurança realizaram batidas em setembro em meios de comunicação críticos ao Kremlin em todo o país, e também em residências e escritórios de pessoas ligadas ao líder da oposição, Alexei Navalny.

Mas, como notou Svetlana, a repressão frequentemente alimenta o ódio e mais insatisfação. Quando homens armados com machadinhas e o apoio de policiais da tropa de choque impediu um pequeno protesto na Sibéria, em setembro, contra o tratamento dado pelas autoridades a um xamã, a violenta ação desencadeou a maior onda de fúria ao longo da fronteira com a Mongólia em anos.

“A lógica deles é a mesma que a dos terroristas: querem provocar o medo”, afirmou Lev Shlosberg, membro da Câmara Regional de Pskov. “Ao mandar uma só pessoa para a cadeia, eles aterrorizam um milhão.”

Maxim Kostikov, editor-chefe da estação de rádio que transmitiu o comentário de Svetlana em outubro do ano passado, afirmou que a decisão de processar a jornalista de 40 anos não faz sentido.

Ele estimou que “talvez trezentas ou quatrocentas pessoas” tenham escutado a transmissão original e talvez algumas centenas mais tenham lido o texto com o comentário de Svetlana em um portal de notícias de Pskov. Agora, graças à acusação criminal contra ela, “o mundo inteiro sabe o que Svetlana escreveu”.

Questionado sobre o caso, o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, afirmou que o presidente “está, com certeza, a par da situação, mas isso não é um assunto que mereça a atenção dele”.

Svetlana afirmou acreditar que o caso foi conduzido secretamente pelo Serviço Federal de Segurança, conhecido pelas iniciais FSB, em russo, que é responsável por combater o terrorismo.

Para ela, a motivação da agência é simples: “vingança”, em razão da sugestão de que o sistema de segurança da Rússia estaria criando os crimes que deveria evitar. Em seu texto, ela comparou o adolescente suicida aos jovens russos que se juntaram ao grupo anarquista Vontade do Povo, que foi responsável pelo assassinato do czar Alexandre II, em 1881.

No ano passado, pelo menos nove pessoas, além de Svetlana, foram alvo de acusações criminais - uma delas foi condenada a dois anos e meio de prisão - em razão de comentários a respeito do adolescente que se explodiu, Mikhail Zhlobitski, de 17 anos.

Vários membros - pacíficos e frequentemente mais velhos - das Testemunhas de Jeová, denominação cristã tornada ilegal por Moscou em 2017, também foram pegos pela repressão contra supostos “extremistas”.

Para Svetlana, o caso de Zhlobitski  foi um alerta para o qual as autoridades precisam atentar. “O implacável estado gerou um cidadão que tornou a morte sua argumentação”, escreveu ela, ressaltando que as autoridades interditaram as vias pacíficas de dissidência para os jovens. Ela deixou claro que não quer que outros sigam o exemplo do adolescente: “Esperemos que ele seja uma exceção.”

Zhlobitski deu sua própria explicação para ter apelado para a violência. Usando o pseudônimo “Sergei Nechayev”, nome de um violento revolucionário do século 19, ele postou uma mensagem online afirmando que queria atacar o FSB porque a agência “fabrica casos e tortura as pessoas”.

O Conselho de Direitos Humanos de Putin ressaltou em um comunicado que tinha “estudado cuidadosamente” o texto de Svetlana e “não observou nenhum sinal de justificativa ao terrorismo”.

Denis Kamalyagin, editor do Pskovskaya Guberniya, o jornal independente de Pskov, afirmou que o caso não representa “um sinal de como nossas autoridades se sentem fortes, mas de sua fraqueza. Elas não conseguem atuar como um governo europeu normal. A única coisa que elas sabem fazer é assustar as pessoas”.

E nem isso, acrescentou ele, funciona mais. “Elas criaram uma nova geração que não tem mais medo”, afirmou ele. / Oleg Matsnev colaborou com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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