Ashley Gilbertson/The New York Times
Ashley Gilbertson/The New York Times

República Centro-Africana encontra parceiro para a paz, mas custo é alto

Senhores da guerra governam, e mercenários treinam soldados

Dionne Searcey, The New York Times

06 de outubro de 2019 | 06h00

BANGUI, REPÚBLICA CENTRO-AFRICANA - O negociante fechou a cintilante cortina rosa e despejou o conteúdo de dois envelopes brancos sobre a mesa: diamantes reluzentes, mais de cem deles.

Algumas pedras preciosas são vendidas legalmente, explicou ele. Mas muitas são traficadas por rebeldes que travam batalhas pelas minas, alimentando uma insurreição que já dura seis anos, deixando milhares de mortos e provocando o deslocamento de mais de um milhão de pessoas aqui na República Centro-Africana.

Agora, com a esperança de conseguir controlar o comércio de diamantes e remendar um país em frangalhos, o governo se voltou para um novo parceiro, a Rússia, em uma manobra que alguns legisladores temem ser uma perigosa negociação, trocando uma ameaça por outra.

Mercenários russos têm se espalhado pela nação para treinar soldados locais. Um ex-espião russo foi nomeado pelo presidente centro-africano como seu principal conselheiro de segurança. Russos transportaram senhores da guerra para negociações de paz, o que colaborou para um acordo entre mais de uma dezena de grupos armados para o fim dos combates.

E a figura central por trás do envolvimento russo, de acordo com autoridades ocidentais, é Yevgeny V. Prigozhin, um homem de confiança do presidente Vladimir Putin que foi indiciado nos Estados Unidos no ano passado, acusado de ajudar a financiar uma “guerra de informações” e interferir nas eleições americanas de 2016. É ligado a empresas de mineração, segurança e logística que se estabeleceram no país.

O governo centro-africano deu boas-vindas aos russos, apostando que a estabilidade possibilitará a venda legalizada de mais diamantes e o uso desse dinheiro para reconstruir a nação.

“A rebelião no nosso país nos custou caro”, afirmou Albert Yaloke Mokpeme, porta-voz do presidente centro-africano. “Com a ajuda da Rússia, seremos capazes de tornar seguras nossas minas de diamantes.”

Mas a ajuda da Rússia tem seu preço. Representantes do país fizeram acordos com o governo centro-africano para minerar diamantes onde o comércio é legalizado.

Agentes russos também se aliaram a rebeldes para obter diamantes em regiões onde o comércio é ilegal, lucrando com a ausência de lei - justamente a situação à qual deveriam pôr fim, de acordo com membros do governo centro-africano. Mercenários que treinam os soldados do país foram acusados de abusos de direitos humanos, alarmando legisladores.

Na Europa e nos EUA, a Rússia usou dados hackeados, desinformação e outras estratégias para tentar invadir e desestabilizar democracias ocidentais. Mas, de acordo com os analistas, Moscou parece ter outros objetivos aqui na República Centro-Africana: assegurar sua importância global e colher recompensas financeiras.

Vários países ao sul do Saara têm pedido auxílio da Rússia para lidar com questões de segurança. Em maio, a Rússia anunciou que enviaria especialistas militares para a República Democrática do Congo. Na Guiné, um ex-embaixador russo que glorificava o presidente do país foi nomeado, recentemente, para a diretoria de uma grande empresa russa de produção de alumínio que tem operações por lá.

“Eles estão colecionando amigos e aliados. E estão encontrando ambientes permissivos para vender seus produtos e conquistar oportunidades comerciais”, afirmou Judd Devermont, diretor do Programa para a África do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

A República Centro-Africana está repleta de diamantes. Eles são encontrados no fundo de buracos cavados por homens que trabalham por US$ 3 ao dia. Eles estão no subsolo próximo a um miserável acampamento onde uma menina de 14 anos foi baleada no rosto por rebeldes que disputavam as joias.

Em 2013, o Processo de Kimberley, um esforço internacional para impedir grupos armados de lucrar com o comércio de diamantes, qualificou as pedras centro-africanas como “diamantes de sangue” e baniu todas as vendas de pedras do país. Cerca de três anos atrás, os membros do Processo de Kimberley consentiram com a exportação de diamantes originários de algumas minas a oeste da capital, satisfeitos com o fato de o governo ter assumido o controle da região.

Ávido por reassumir mais minas no país e erradicar o próspero comércio ilegal de diamantes, o governo centro-africano procurou a ajuda da Rússia.

Em outubro de 2017, a mineradora Lobaye Invest foi registrada em Bangui, seguida por uma empresa de segurança chamada Sewa Security Services, de acordo com documentos oficiais. Ambas são vinculadas a Prigozhin, o homem de confiança de Putin, de acordo com as autoridades.

A ONU concedeu à Rússia isenção de um embargo de armas que vigorava e, em janeiro de 2018, o governo russo enviou cinco militares e 170 treinadores civis para Bangui.

Funcionários da Sewa se juntaram à guarda presidencial e, após um ciclo de violência de grupos rebeldes, em 2018, Valetiy Zakharov, um ex-agente de espionagem, assumiu como principal conselheiro de segurança do presidente Faustin-Archange Touadéra.

O presidente logo convocou dezenas de outros mercenários russos, que se espalharam por centros de treinamento em todo o país.

A Lobaye começou a trabalhar em minas de diamante no pequeno trecho do país de onde as gemas podem ser exportadas legalmente, afirmaram autoridades do governo.

Mais ou menos na mesma época, a empresa pagou pelo transporte de senhores da guerra para o Sudão, onde ocorreram negociações de paz entre os grupos armados centro-africanos. Prigozhin também compareceu aos encontros, de acordo com um senhor da guerra que esteve presente.

Em fevereiro, mais de uma dezena de grupos armados assinaram um acordo de paz com o governo centro-africano. O pacto, que tem apoio das Nações Unidas, instala senhores da guerra acusados de crimes em cargos do alto escalão do governo.

Autoridades americanas estimam atualmente que haja mais de 400 mercenários russos agindo em território centro-africano. O Ministério de Relações Exteriores da Rússia não informou quantas empresas terceirizadas de segurança de seu país estão presentes na República Centro-Africana, mas enfatizou que elas foram enviadas na qualidade de instrutoras, com o consentimento da ONU.

“Muitas delas já começaram a executar operações relacionadas ao combate de insurgentes e à proteção de civis”, afirmou o ministério em um comunicado.

Operações de mineração russas, porém, foram detectadas em regiões onde as gemas são consideradas diamantes de sangue, de acordo com diplomatas, autoridades locais e dois senhores da guerra cujos grupos atuam nesses locais. Essas áreas têm produção mais abundante de gemas de melhor qualidade, afirmaram autoridades do governo.

Um ex-funcionário do governo afirmou que os mercenários russos levaram aviões particulares até as proximidades de uma região onde treinavam soldados locais e carregaram as aeronaves com diamantes. Empresas russas também estão minerando diamantes próximo à fronteira com o Sudão, de acordo com autoridades locais e senhores da guerra.

“Estão fazendo esses pactos na calada da noite”, afirmou Hassan Bouba, um líder rebelde que foi nomeado recentemente para um cargo de nível ministerial, por determinação do acordo de paz, e já esteve ligado ao comércio ilícito de diamantes.

Três jornalistas russos que investigavam os laços de Prigozhin com mineração de diamantes e ouro foram mortos no ano passado em uma mina de extração de diamantes de sangue, próximo à cidade de Bambari.

O governo centro-africano afirmou que está investigando as mortes. Autoridades russas negaram envolvimento, e o porta-voz de Prigozhin se recusou a responder questões a respeito de operações de mineração e segurança das empresas russas no país.

Combates entre grupos rebeldes nas proximidades de Bambari forçaram o deslocamento dos camponeses da região a campos precários. O presidente, Touadéra, tentou visitar Bambari este ano, apesar de ter sido alertado para não fazê-lo. Integrantes do gabinete e seus contingentes de segurança foram expulsos a tiros.

No dia seguinte, os militares centro-africanos e seus treinadores mercenários russos realizaram prisões em massa, tirando de circulação dezenas de muçulmanos que, segundo eles, tomavam parte nos combates, de acordo com moradores da região e um funcionário da ONU.

Um comerciante de 38 anos contou que foi capturado por soldados locais. Ao longo de quatro dias, afirmou, ele teve os pulsos amarrados aos tornozelos, foi espancado e sofreu cortes feitos por mais de uma dezena de russos vestidos em trajes civis.

Quando se negou a confessar envolvimento com os rebeldes, um russo cortou-lhe um dedo fora, disse ele. As Nações Unidas alertaram o governo centro-africano a respeito das alegações de “detenção e tortura” realizadas por “indivíduos de nacionalidade russa” e compartilharam com autoridades do governo documentos que fundamentam as acusações.

O Ministério de Relações Exteriores da Rússia qualificou as alegações como “falsas”.

Até agora, o acordo de paz que os russos ajudaram a mediar parece estar funcionando. Mas muitas vítimas de atrocidades duvidam que algum dia verão justiça ser feita, especialmente agora que os senhores da guerra entraram no governo e os combatentes rebeldes foram incorporados às forças do governo.

“É como se a morte tivesse se tornado algo banal aqui”, afirmou Pasquale Serra, um artista de Bangui que tinha se juntado a uma cerimônia em homenagem a famílias que perderam entes queridos, representados por tijolos colocados em círculo.

Depois do fim da cerimônia, as autoridades levaram os tijolos embora. / Eric Schmitt, Jaime Yaya Barry e Oleg Matsnev colaboraram com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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