Lauren DeCicca para The New York Times
Lauren DeCicca para The New York Times

Resgates fraudulentos viram problema para montanhistas no Everest

Autoridades investigam fraudes que atrapalham o turismo no Nepal

Kai Schulz, The New York Times

16 Setembro 2018 | 10h15

KATHMANDU, Nepal - Geoffrey Chang, um esportista australiano que se dirigia para o acampamento base no Monte Everest, acordou certo dia com dores no peito, e o seu guia nepalês sugeriu imediatamente uma evacuação de emergência, afirmando que ele tinha um caso agudo de doença de altitude.

Mas na manhã seguinte, Chang sentiu-se melhor, os seus níveis de oxigênio haviam voltado a um patamar aceitável. Michelle Tjondro, sua companheira de viagem, perguntou se eles poderiam descansar naquele dia ou descer como outros montanhistas que haviam apresentado sintomas semelhantes.

O guia não atendeu a estas sugestões, e continuou insistindo na necessidade de uma dispendiosa evacuação por helicóptero. Mais tarde, em um hospital para estrangeiros em Kathmandu, a capital do Nepal, o passaporte de Chang foi confiscado, ele contou, e enquanto a conta não parava de aumentar, um médico aconselhou-o a exagerar os seus sintomas para que a seguradora que ele contratara pagasse por sua internação.

Chang, Michelle e a seguradora acreditam que foram alvos de uma fraude que vem prejudicando o turismo do Nepal e arranca enormes somas de dinheiro das companhias de seguros.

O governo nepalês e as seguradoras dos montanhistas falam em uma onda de fraudes em que as operadoras de trekking no Monte Everest, os guias, as companhias que fazem o transporte de emergência dos doentes por helicóptero e os hospitais agem em conluio, enganam as seguradoras, e encorajam as evacuações exagerando sintomas e serviços médicos.

Segundo as autoridades, eles ganharam milhões de dólares em solicitações possivelmente fraudulentas.

Os guias recebem polpudas comissões de operadoras desacreditadas insistindo na necessidade de evacuações de emergência em casos de doença de altitude não graves e de outras enfermidades.

A situação chegou a tal  ponto que o governo do Nepal anunciou recentemente uma operação de combate às fraudes. Rabindra Adhikari, ministro do Turismo, disse que as companhias de transporte de helicóptero, as operadoras de trekking e alguns hospitais agora são obrigadas a apresentar as faturas relativas aos resgates para que seja possível garantir a sua “autenticidade”.

Mas o esquema se tornou tão difundido que a World Nomads, a seguradora de Chang e Michelle Tjondro, elaborou uma lista negra interna de empresas de helicópteros e hospitais que ela suspeita de fraudes.

Phil Sylvester, um porta-voz da World Nomads, disse que o guia de Chang e de sua companheira coordenara com a companhia de trekking, a Advanced Adventures, o envio de um helicóptero da Flight Connection International. Esta última, que passou a fazer parte da lista negra, apanharia os excursionistas em Lobuche, uma aldeia a um dia de caminhada do Acampamento Base.

Chegando a Kathmandu, eles seriam levados ao Swacom International Hospital, uma clínica que também entrou na lista negra.

Em entrevistas, representantes do hospital e das duas companhias, negaram ter cometido qualquer transgressão.

Posteriormente, os excursionistas descobriram  um relatório de um médico anexado ao pedido de seguro de Chang, ao qual o The New York Times teve acesso. O relatório apresentou dados imprecisos, inclusive que os sintomas do segurado não haviam melhorado, mesmo depois da descida, o que tornara necessária uma evacuação para tratamento medico.

A solicitação superava os 10 mil dólares, que segundo Sylvester, a companhia tinha pago.

O governo nepalês acusou a Flight Conneciton International e a Swacon de apresentarem faturas fraudulentas e de cobrarem tarifas excessivas das seguradoras.

Rishi Ram Bhandari, o médico diretor da Satori Adventures and Expeditions, afirmou que esta manobra se popularizou extraordinariamente, normalizando uma prática que acabou prejudicando os empregos de honestos cidadãos locais no setor de turismo.

No ano passado, um guia mais antigo foi até o escritório de Bhandari à procura de trabalho. Ele afirmou que se fosse contratado traria “muitos benefícios” para a empresa.

“Se o senhor me enviar como guia de um grupo de 10 pessoas, vou arranjar para o senhor dois resgates”, falou o homem a Bhandari, que retrucou: ‘Obrigado por sua proposta, mas não sou este tipo de empresário’ ”.

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