Elaine Thompson/Associated Press
Elaine Thompson/Associated Press

Como a resistência à vacinação cresceu nos Estados Unidos

Desinformação, redes sociais e medo estão alimentando uma crescente crise de saúde pública, afirmam especialistas

Jan Hoffman, The New York Times

13 de outubro de 2019 | 06h00

Com frequência, a pergunta é feita aos sussurros, e quem a faz parece sem jeito. Cada vez mais, porém, os pais que frequentam o parquinho de Nova York onde Elizabeth Comen leva suas crianças têm lhe perguntado: “Você vacina seus filhos?” Comen, uma oncologista que tratou pacientes de câncer relacionados ao papilomavírus humano, que agora pode ser evitado com uma vacina, responde enfaticamente: é claro que sim.

Ela nunca imaginou que seria questionada a respeito desse assunto. Ainda assim, essas conversas de parquinho refletem uma discussão que ocorre nacionalmente no fim da segunda década do século 21 - um momento de avanços científicos e médicos impressionantes, mas também um momento em que os Estados Unidos, que em 2000 receberam da Organização Mundial da Saúde o certificado de erradicação do sarampo, têm testemunhado uma elevação nos casos dessa doença. A OMS apontou a hesitação em relação a vacinas como uma das principais ameaças à saúde global.

Os movimentos antivacina têm se constituído há décadas - subprodutos de uma internet impregnada de rumores e desinformação; da revolta contra a indústria farmacêutica; do fascínio com celebridades que conferem credibilidade a posicionamentos antivacinação; e, mais recentemente, da retórica anticiência do governo Trump.

“A ciência se tornou apenas mais uma voz”, afirmou Paul A. Offit, especialista em doenças infecciosas do Hospital Pediátrico da Filadélfia. “Ela perdeu sua plataforma. Agora, as pessoas simplesmente escolhem suas próprias verdades.” Ainda é verdadeiro o fato de que a maioria quase absoluta dos pais americanos vacina seus filhos. Grupos de pais como Voices for Vaccines, organizados para se contrapor às posições antivacinação, se proliferaram. Cinco estados eliminaram das escolas as isenções relativas à exigência de vacinação, permitindo somente dispensas médicas.

Mas existem tendências nefastas. Para doenças altamente contagiosas, como sarampo, a taxa de vacinação para se atingir a imunidade de grupo - ou efeito rebanho, termo que define a taxa ideal para se proteger toda uma população - é normalmente estabelecida em 95%.

Os Centros para Controle e Prevenção de Doenças descobriram que a taxa de vacinação contra sarampo, caxumba e rubéola (com a vacina tríplice viral) entre crianças em idade pré-escolar caiu nacionalmente, para 94,3%, entre 2017 e 2018, o terceiro ano seguido de queda. Quase todos os estados têm pelo menos um grupo antivacina.

Especialistas em saúde pública afirmam que pacientes e muitos médicos talvez não conheçam a gravidade das doenças que as imunizações evitam, como a poliomielite, porque provavelmente nunca viram ninguém com esses sintomas. “As vacinas são vítimas de seu próprio sucesso”, afirmou Offit, um dos desenvolvedores da vacina contra o rotavírus, que pode causar diarreias graves em crianças pequenas. “Eliminamos quase totalmente as recordações de muitas doenças.”

O crescimento da desconfiança em relação às vacinas nos EUA coincide com uma competição entre várias forças e atitudes. Desde o início dos anos 2000, enquanto o número de vacinas exigidas na infância crescia, uma geração de pais se tornava hipervigilante em relação aos seus filhos, legitimando suas ações por meio das redes sociais. Na visão deles, pais que vacinavam seus filhos eram crédulos e ingênuos.

Em 2011, Dana Fuqua, de Aurora, Colorado, grávida de seu primeiro filho, sentiu o peso do pensamento grupal em relação à paternidade. Ela havia acabado de se mudar para a região e se voltou para grupos de mães no Facebook. O Colorado tem um forte movimento antivacina. As novas amigas de Dana insistiram que ela tivesse um parto livre de medicamentos e nunca deixasse nenhuma gota de leite em pó descer pela garganta de seu bebê. Vacinas, segundo elas, eram uma abominação.

As mulheres a intimidavam. “Não discuti com elas”, afirmou Dana. “Eu estava tão desesperada pelo apoio delas que acabei cedendo e atrasei o calendário de vacinação.” Mas, quando seu segundo filho nasceu prematuro, suscetível a doenças, a aprovação do grupo não lhe pareceu tão importante quanto a saúde de seu bebê. Ela mudou de pensamento e vacinou os dois filhos plenamente.

Movimentos antivacinação existem pelo menos desde 1796. Mas muitos especialistas afirmam que o movimento atual se iniciou em 1982, quando a NBC-TV transmitiu um documentário a respeito de uma controvérsia que ocorria na Inglaterra: um suposto elo entre a vacina contra coqueluche - uma doença potencialmente fatal que causa problemas pulmonares - e convulsões em crianças pequenas.

Médicos criticaram o programa qualificando-o como perigosamente impreciso. Mas o medo se espalhou. E grupos antivacinação se formaram. Então, em 1998, Andrew Wakefield, um gastroenterologista britânico, publicou um estudo na revista científica médica The Lancet (que foi desacreditado e suprimido da publicação), associando a vacina tríplice viral com o autismo. Tendo de escolher entre autismo e sarampo, alguns pais consideraram a resposta óbvia. Mas a maioria das pessoas é reconhecidamente ignorante em termos de avaliação de riscos, afirmam especialistas em tomadas de decisão.

Muitos tropeçam em uma tendência à omissão: “Preferimos não fazer algo e sofrer uma consequência ruim do que fazer algo que cause uma consequência ruim”, explicou Alison M. Buttenheim, uma professora-assistente de enfermagem e saúde pública da Faculdade de Enfermagem da Universidade da Pennsylvania. As pessoas ficam impressionadas com o risco numérico. “Prestamos mais atenção aos numeradores, como ’16 reações adversas’, do que com os denominadores, como ‘a cada 1 milhão de doses de vacinas’”, afirmou Buttenheim.


Um conceito chamado de “aversão à ambiguidade” também tem influência, acrescentou ela. “Mas, se a pessoa não tem certeza em relação a uma decisão, ela vai encontrar quem confirme sua inclinação e consolide sua opinião”, afirmou Rupali J. Limaye, uma cientista social que estuda comportamento em relação a vacinas na Faculdade Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, em Maryland.

Em nenhum outro lugar esse tipo de confirmação é mais gritante do que nas redes sociais, acrescentou Limaye. “Você visita o pediatra de seu filho poucas vezes ao ano, mas pode passar o dia inteiro na internet”, afirmou ela. As pessoas também tendem a acreditar em narrativas de histórias individuais em vez de números abstratos.

Quando Jenny McCarthy, uma atriz, insistia em afirmar que tinham sido as vacinas que causaram o autismo em seu filho, milhares de pessoas a consideraram mais convincente do que os dados que comprovavam o contrário. Um movimento nascente ganhou força. Em 2014, estudos demonstraram que a confiança dos pais nas autoridades de saúde pública e nos pediatras estava em queda. Naquela época, Donald Trump estava expressando apoio no Twitter para a desacreditada ligação entre autismo e vacinação.

Eleito presidente, ele se encontrou com líderes do movimento antivacina, mas, quando o número de casos de sarampo aumentou, ele recomendou a vacinação. Logo, a tomada de decisões compartilhada se tornou o modelo da relação entre médicos e pacientes. Pediatras passaram a recomendar calendários de vacinação escalonados. Alguns se mostraram até flexíveis em relação à vacinação como um todo.

Pouco depois de Emma Wagner ter dado à luz na Georgia, um pediatra da maternidade examinou o bebê. “Ele me perguntou se eu estava interessada na vacina contra hepatite B”, afirmou ela, sobre a inoculação realizada normalmente logo após o parto. Ela estava apreensiva. “Eu estava motivada pelo medo”, afirmou Wagner. “Pensei: ‘Até eu saber ao certo que essa vacina é segura, não vacinarei’. O pediatra disse: ‘Vou apoiar a sua decisão e, daqui a alguns anos, conversaremos sobre isenções para a escola’.”

Desde então, ela passou a apoiar a imunização. A mentalidade libertária também influencia a hesitação em relação às vacinas, com os pais defendendo que o governo não deveria ter autoridade para determinar o que eles colocam nos próprios corpos - uma posição frequentemente divulgada como “direito de escolha”.

“Quando o governo os ordena a fazer algo, isso reforça as teorias de conspiração”, afirmou Daniel Salmon, diretor do Instituto para Segurança de Vacinas da Johns Hopkins. “E as pessoas consideram que os riscos são maiores quando a vacinação é obrigatória.” Com tantas convicções profundas e diferentes entre si, especialistas em saúde pública lutam para desenvolver campanhas de estímulo à vacinação. A equipe de Salmon na Johns Hopkins está trabalhando em um aplicativo para registrar as atitudes de pais em relação às vacinas e moldar a informação para persuadi-los a vacinar suas crianças.

Especialistas afirmam que a melhor maneira de transformar essa narrativa é com os profissionais da área médica educando pais e pacientes. “Pedimos aos pais durante os dois primeiros anos de vida de seus filhos que os protejam de 14 doenças - que a maioria das pessoas nunca viu, utilizando fluidos que elas não compreendem”, afirmou Offit, especialista em doenças infecciosas. “É hora de dar um passo atrás e oferecer explicações melhores.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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