Valentyn Ogirenko, via Reuters
Valentyn Ogirenko, via Reuters

Projeto de resort de esqui de um oligarca alarma a Ucrânia

Os planos de colocar um desenvolvimento de bilhões de dólares no meio do nada apontam para as fortunas revividas de Ihor Kolomoisky, um patrono do novo presidente da Ucrânia

Andrew Higgins, The New York Times

22 de novembro de 2019 | 06h00

CHORNA TYSA, UCRÂNIA - Uma quantidade repentina de trabalho para ampliar uma estrada quase intransitável nos Montes Cárpatos, na região sudoeste do país, aumentou consideravelmente a crescente preocupação, na Ucrânia, com a possível volta de Ihor Kolomoisky, um bilionário desacreditado.

Em 2017, Kolomoisky foi para o exílio voluntário quando o governo tomou o seu ativo de maior valor, o Privatbank, e o acusou de um desfalque de bilhões de dólares. Este ano, ele retornou à Ucrânia, depois que o comediante Volodymyr Zelensky, seu ex-parceiro de negócios, venceu as eleições presidenciais.

As autoridades afirmam que a obra da estrada nas montanhas faz parte da programação de reparos normais. Entretanto, os que são contrários ao projeto do resort de esquis na região, alertam que uma das áreas selvagens mais frágeis da Europa está sendo ameaçada. 

Permitido graças ao pagamento de propinas, o desmatamento arrasou as florestas dos Cárpatos. Na opinião dos conservacionistas, o projeto do resort - que inclui 33 elevadores, 230 quilômetros de pistas de esquis, dezenas de hotéis e 120 restaurantes - ameaça estender os danos até uma zona de bosques de grande altitude, conhecida como maciço Svydovets.

Na área proposta para o resort está a nascente do Rio Tysa, um importante afluente do Danúbio, assim como florestas virgens, espécies vegetais que desapareceram quase completamente, e animais ameaçados de extinção. Também estão trechos partes de uma floresta primitiva de faias, declarada pela Unesco patrimônio da humanidade.

Kolomoisky não respondeu às solicitações de entrevistas. Entretanto, registros corporativos mencionam Kolomoisky como coproprietário da Skorzonera LLC, uma companhia que documentos do governo identificaram como a locomotiva por trás da “construção de um projeto detalhado de um complexo turístico e de recreação no Svydovets”.

Em uma carta datada de julho de 2016 enviada às autoridades locais, a companhia de Kolomoisky alardeou a enorme escala e as vantagens econômicas do projeto de Svydovets. O envolvimento de Kolomoisky dá uma medida da confusão que cerca o seu papel mais amplo na Ucrânia. Antes que o seu banco fosse confiscado pelo governo, Kolomoisky gozava de amplo apoio da população. Esta imagem favorável se desfez  com a débacle do Privatbank.

Mas desde o seu regresso à Ucrânia, dias antes da posse de Zelenski em abril, Kolomoisky se reafirmou perante a população, e como operador experiente nos bastidores. O projeto do Svydovets foi anunciado inicialmente em 2016. Em 2017, alguns moradores da região entraram com uma ação em um tribunal regional pedindo que o projeto fosse arquivado, e tiveram sucesso. Um tribunal superior reverteu a decisão e, depois de um recurso, a questão atualmente se encontra na Suprema Corte do país.

Ivan Pavlyuchuk, o prefeito de Chorna Tisa, um vilarejo aos pés do maciço do Svydovets, disse que está determinado a ver o resort decolar. “Se este projeto não acontecer,” afirmou, “não se fará mais nada aqui: nada de novas estradas, nada de novas escolas, nem empregos. Nada”.

Bohdan Prots, um cientista do Museu de História Natural da Ucrânia, disse que compreende a ansiedade do prefeito por melhores perspectivas econômicas, e alertou que ele e outras pessoas estão sendo ludibriados. “Este é apenas um brinquedo para Kolomoisky”, afirmou Prots. “Na realidade, ele não liga se construirá ou não o resort de esquis. Ele quer apenas mostrar a sua influência”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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