Jacob Hannah para The New York Times
Jacob Hannah para The New York Times

Responsabilizando os bitcoins pela lentidão no crescimento dos Estados Unidos

Criptomoedas são desvio de capital, tempo e energia, já que recursos reais são perdidos em algo virtual

Binyamin Appelbaum, The New York Times

16 Março 2018 | 15h00

WASHINGTON - Uma startup manufatureira está se mudando para uma fábrica de alumínio abandonada no interior de Nova York, valendo-se da abundante eletricidade gerada a partir do Rio St. Lawrence.

Mas, em vez de derreter alumínio, a empresa espera transformar essa energia em bitcoins.

O dinheiro é uma ferramenta para comprar coisas. Agora, o investimento mais quente dos Estados Unidos é a compra de dinheiro. A corrida para investir está levantando perguntas, entre elas: será que um dos motivos para o ritmo lento do crescimento econômico nos anos mais recentes é o fato de os Estados Unidos estarem ocupados com distrações? Ainda que a mineração dos bitcoins não envolva mão de obra intensiva, a atividade consome tempo, energia e capital que poderiam ser investidos em atividades mais produtivas.

“Parece que boa parte da nossa infraestrutura digital em evolução é dedicada a atividades absolutamente frívolas, como a proliferação de moedas digitais", disse James McAndrews, ex-diretor de pesquisas do Federal Reserve Bank de Nova York.

O bitcoin, a maior das moedas virtuais, é um consumidor particularmente voraz de recursos, pois os novos bitcoins são distribuídos numa espécie de loteria, cujo preço de participação é pago em eletricidade.

Os mineradores de bitcoins concorrem pelas moedas enviando respostas para difíceis problemas de matemática. Em vez de resolverem os problemas, os mineradores usam computadores para enviar uma enxurrada de palpites. Isso pode ser lucrativo: o valor dos bitcoins, que oscilou muito, esteve acima dos US$ 10 mil nos dias mais recentes.

Na prática, os bitcoins são um investimento especulativo, como o ouro. E o economista Tyler Cowen, da Universidade George Mason, disse que a mineração do ouro é um melhor emprego de recursos, pois, ainda que o metal perca valor, ele ainda pode ser usado nos reparos odontológicos.

“Depois que a energia dos bitcoins é gasta, ela se perde para sempre", disse ele.

Colin L. Read, prefeito de Plattsburgh, Nova York, também enxerga os inconvenientes da nova tecnologia. A cidade recebeu a garantia de uma quantidade fixa de energia a custo baixo como contrapartida pela construção de represas para a geração de eletricidade no Rio St. Lawrence nos anos 1950. Read disse que a mineração de bitcoins consome agora cerca de 10% da energia da cidade, obrigando Plattsburgh a comprar cada vez mais eletricidade adicional no mercado, pagando valores até 100 vezes maiores que o custo.

Read disse que prefere vender a cota de energia barata da cidade a empresas que empreguem muitas pessoas. A Mold-Rite Plastics, que fabrica tampas de garrafa, também usa cerca de 10% da eletricidade da cidade, mas emprega cerca de 200 pessoas. Já as mineradoras de bitcoins “contratam um segurança e um sujeito para fazer a manutenção“.

David Bowman, que se descreve como o primeiro minerador de bitcoins de Plattsburgh (“comecei há muito tempo, nos idos de 2014", disse), conta que começou com alguns computadores. Agora, ele tem 20 máquinas.

Alguns anos atrás, ele alugou um cômodo num antigo armazém de papel, onde deixa os discos rígidos especializados funcionando direto. Desde então, algumas outras empresas semelhantes de mineração já se mudaram para o mesmo edifício.

Bowman é o único funcionário da sua empresa e, no momento, ele estuda medicina em tempo integral na ilha de Granada, no Caribe. A mineração dos bitcoins pagou o custo da sua faculdade e vai financiar o diploma de medicina.

Outros governos também estão pesando o mérito das moedas virtuais. A Enel, maior empresa de energia da Europa, disse este mês que não venderia eletricidade a uma mineradora virtual, citando preocupações ambientais.

Mas o Quebec, uma das maiores produtoras mundiais de energia hidrelétrica, tem grande excesso de energia à disposição, graças à estabilização da demanda, ao ponto de a cidade estar avaliando uma série de propostas de empresas de mineração.

Algumas empresas americanas de serviços elétricos também anseiam por novos clientes. A demanda doméstica por eletricidade está em declínio com a transferência de empresas de alto consumo (como a produção de alumínio) para outros países, e os lares cada vez mais substituem as lâmpadas tradicionais por LEDs.

O consultor de energia Robert McCullough disse, “elas estão gratas pelo fato de ainda haver alguém interessado em usar a energia”.

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