Stephen Munday/Getty Images
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Ressurgimento de rede jihadista preocupa Grã-Bretanha

Al Muhajiroun esteve envolvida nos atentados a bomba de 2005 em Londres

Ceylan Yeginsu, The New York Times

25 de maio de 2019 | 06h00

LONDRES - Enquanto outros países europeus se preocupam com o retorno de combatentes do soldado islâmico calejados pela Síria e pelo Iraque, a Grã-Bretanha enfrenta um problema diferente: o ressurgimento de uma célula militante doméstica, Al Muhajiroun, uma das redes extremistas mais prolíficas da Europa, implicada nos atentados a bomba de 2005 em Londres. Depois desses ataques, o governo britânico aprovou uma série de leis de combate ao terrorismo e agiu contra os extremistas islâmicos. Muitos foram condenados à prisão, em alguns casos domiciliar, por sentenças de dez anos ou mais.

No dia 13 de maio, Anjem Choudary, um cofundador da Al Muhajiroun, foi fotografado perto de sua casa no leste de Londres vestindo um comprido roupão branco e uma tornozeleira eletrônica. As autoridades confirmaram que Choudary, um dos pregadores islâmicos radicais mais conhecidos do país, tinha sudo libertado depois de cumprir mais da metade de uma longa sentença por incitar apoio ao Estado Islâmico.

Ele não está sozinho: muitos membros da antiga rede de Choudary estão sendo libertados da detenção. Longe de reformados, eles já iniciaram nova mobilização. Fundada em 1996, a Al Muhajiroun, que já usou diferentes nomes, passou anos provocando com sucesso as forças de segurança britânicas ao seguir operando apesar da proibição em vigor desde 2006.

Não se sabe ao certo quantos ativistas fazem parte da rede. Mesmo durante o auge do grupo, no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, nunca foram mais de 200 os membros dedicados, de acordo com Michael Kenney, que passou anos infiltrado no grupo como parte do trabalho de pesquisa para seu livro O Estado Islâmico na Grã-Bretanha.

Por enquanto, Choudary está proibido de falar em público e de se reunir com a antiga rede. Mas vários ex-integrantes disseram que a soltura dele tinha encorajado o grupo, ligado a 25% de todas as condenações associadas ao terrorismo islâmico na Grã-Bretanha entre 1998 e 2015.

É difícil exagerar ao descrever o papel desempenhado por Choudary na motivação dos extremistas islâmicos. Esse mês, por exemplo, a BBC informou que um dos envolvidos nos ataques do domingo de páscoa no Sri Lanka foi radicalizado por Choudary depois de assistir a seus sermões durante um programa de intercâmbio em 2006.

“Nenhum outro cidadão britânico teve tamanha influência em tantos terroristas quanto Choudary", disse Nick Lowles, diretor executivo do grupo britânico Hope Not Hate, que combate o racismo. Durante muitos anos, Choudary conseguiu permanecer fora da prisão mesmo enquanto as autoridades perseguiam muitos membros da sua rede.

“A tática deles era reduzir e destruir, e devo admitir que funcionava", disse Mohammed Shamsuddin, recrutado para a Al Muhajiroun por Choudary há mais de 20 anos. “Agora, todas as pessoas que eles prenderam 10 anos atrás estão saindo da cadeia", disse ele, “e estão mais fortes e saudáveis do que antes".

Alguns dos membros mais experientes do grupo disseram que a prisão domiciliar foi como um prolongado período de férias. “Foi ótimo", disse um membro. “Fui colocado em uma casa de quatro quartos só para mim na melhor parte de Ipswich", no leste da Inglaterra.

“Esses programas de monitoramento só obtêm um dentre dois resultados", acrescentou ele. “Ou eles nos derrubam, ou nos tornam mais determinados. No meu caso, estou me sentindo descansado e muito determinado. Estou pronto.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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