Ivor Priclett para The New York Times
Ivor Priclett para The New York Times

Restaram poucos cristãos na Síria depois do Estado Islâmico

Jihadistas caçavam os que tinham vínculos com a antiga Assíria

Ben Hubbard, The New York Times

30 Agosto 2018 | 15h15

TEL TAL, Síria - As memórias do petroleiro aposentado estão espalhadas por esta aldeia da Síria onde ele cresceu. A capela na qual se casou. A igreja que ajudou a construir, que enchia de fiéis nos dias santos. A comunidade de famílias cristãs assírias que viviam lado a lado havia gerações.

Agora a aldeia é habitada por fantasmas.

A igreja é um monte de escombros, o campanário e a cruz foram derrubados. As ruas de terra estão coberta de vegetação, só cachorros sem dono as percorrem. A maioria das casas está vazia, seus proprietários agora estão na Alemanha, na Austrália, nos Estados Unidos ou em outros países.

“Todas as habitações viviam cheias de gente”, disse o petroleiro, Ishaq Nisaan, 79. “Agora na minha rua, só sobramos eu e o meu vizinho”.

O mesmo destino sofreram outras aldeias, onde os cristãos assírios, uma das muitas minorias religiosas da Síria, desde sempre cultivavam a terra e criavam animais ao longo do Rio Khabur, no nordeste do país.

O Estado Islâmico atacou a região em 2015, sequestrando mais de 220 moradores. Os jihadistas foram expulsos meses mais tarde pelas forças curdas e por combatentes locais, e soltaram a maioria dos presos depois de receberem resgates exorbitantes.

Mas antes de partir, os fanáticos demoliram muitas das igrejas da região, e quase todos os cativos libertados, juntamente com suas famílias e vizinhos, foram embora desde então.

“A vida aqui é muito boa, mas não há gente”, disse Ramina Noya, 23, uma funcionária da prefeitura local. Ela ficou, mas a maioria dos seus parentes está nos Estados Unidos.

Sete anos de guerra provocaram o deslocamento de metade da população da Síria e mandaram milhões de refugiados para o exterior. Enquanto o governo do presidente Bashar al-Assad retomar o território dos rebeldes, algumas pessoas poderão retornar.

Mas outras comunidades, como Tel Tal, ficaram tão traumatizadas que talvez nunca consigam se recuperar, deixando vazios permanentes no tecido social da Síria.

O número de cristãos em todo o Oriente Médio vem declinando há dezenas de anos porque a perseguição e a pobreza provocaram uma grande migração. O EI considerava os cristãos infieis e os obrigava a pagar impostos especiais, acelerando a tendência na Síria e no Iraque. Nesta região da Síria, o êxodo foi rápido.

Cerca de dez mil cristãos assírios viviam em mais de 30 aldeias antes do início da guerra, em 2011, e havia mais de vinte igrejas. Agora, restam cerca de 900 pessoas e apenas uma igreja realiza as funções religiosas regularmente, disse Shlimon Barcham, um funcionário do templo.

Em uma aldeia há apenas cinco homens que protegem as ruínas da Igreja da Virgem Maria.

Barcham duvida que muitas pessoas regressem. “Todos falam bonito sobre o seu retorno, mas não acho que queiram mesmo voltar”, ele disse.

Os assírios são uma minoria originária do Oriente Médio, cujas raízes remontam, segundo afirmam, ao antigo império assírio. Suas principais comunidades modernas estão no Irã, Iraque, Síria, Turquia e alguns países do Ocidente. Eles pertencem a Igrejas diversas, como a Igreja Assíria do Leste e a Igreja Católica Caldeia, e falam um dialeto do aramaico.

Quando o Estado Islâmico começou sua devastação em todo o Iraque e a Síria, os jihadistas  mataram ou escravizaram muçulmanos xiitas e yazidi, mas procuraram tirar dinheiro dos assírios, supondo que seus parentes no exterior pagariam o resgate.

Os assírios haviam deixado o Oriente Médio há dezenas de anos, antes do surgimento do EI. Muitos dos que estão na diáspora uniram-se para ajudar seus irmãos que ficaram presos na Síria, realizaram eventos para angariar fundos e enviaram dinheiro para o pagamento dos resgates. Acredita-se que a Igreja pagou mais de um milhão de dólares ao EI.

Em uma aldeia, Tel Shamiran, resta apenas Samira Mikola, 65, com o filho adulto.

Ela foi sequestrada pelo EI com o marido e quatro outros parentes. Depois que foi solta, retornou, mas descobriu que a casa havia sido saqueada.

Ela a reconstruiu e com o filho cria galinhas e planta uma ou outra coisa na horta. Seus outros filhos estão na Austrália ou na Alemanha, mas ela não quer mais sair.

“Só mantenham as pessoas más longe de nós”, disse.

O filho, Nabil Youkhanna, 35, conta que ficou para tomar conta dela, mas não tem mais certeza de quanto aguentará.

“Estamos ficando aqui, mas por quanto tempo?” perguntou. “Se eu quiser casar, não há moças por aqui”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.