Jacob Biba para The New York Times
Jacob Biba para The New York Times

Restauradores de carros tratam a lanternagem como forma de arte

Oficina de lanternagem consegue recriar carrocerias - inteiras - de carros fabricados há muito tempo

Christopher Jensen, The New York Times

07 de novembro de 2019 | 06h00

Um para-lama amassado é fácil de consertar. Mas a tarefa fica mais complicada quando o para-lama pertence a uma elegante criação, com um nome como Ferrari, Bugatti ou Delahaye. As carrocerias desses carros foram confeccionadas artesanalmente há tanto tempo que, normalmente, é impossível encontrar peças sobressalentes ainda disponíveis. A fluidez, o arqueamento e o acabamento têm de ser recriados com uma excelente coordenação entre mãos e olhos.

Nesse momento, é necessária a presença de um artesão dos dias modernos, que os europeus chamam de “bate-chapa”, um termo que não faz justiça à finesse envolvida no trabalho. “Que desafio - meu Deus”, afirmou Leslie Kendall, historiador-chefe do Museu Automotivo Petersen, em Los Angeles.

“É preciso um bom olho, uma mão firme e uma sensibilidade artística altamente desenvolvida. Todos esses fatores têm de ocorrer juntos - e paciência.” Bill Warner, fundador dos Concursos de Elegância da Ilha Amélia, na Flórida, estima que somente 30 pessoas nos Estados Unidos façam esse tipo de trabalho. “Esses caras criam um Degas ou um Renoir dos dias de hoje a partir de metal bruto”, afirmou Warner.

Um desses artesãos é Mike Kleeves, 62 anos, que conserta Ferraris, Porsches, Delahayes, Jaguares e Bugattis há décadas. Sua oficina de lanternagem em Morganton, Carolina do Norte, consegue recriar carrocerias - inteiras - de carros fabricados há muito tempo, por empresas conhecidas como coachbuilders (construtoras de carrocerias, em tradução livre).

Até os anos 1930, pessoas interessadas em carros de luxo frequentemente compravam antes o chassi, que é composto por todas as peças mecânicas que fazem um veículo se mover, e depois decidiam como gostariam que ele fosse pelo lado de fora. As coachbuilders construíam, então, as carrocerias e as acoplavam. Kleeves afirmou que os reparos àquelas carrocerias deveriam honrar a maneira que os carros, de até 100 anos de idade, foram criados.

Ele começa o trabalho com um pedaço de metal plano, às vezes aço, às vezes alumínio. Mesmo que um computador possa auxiliá-lo a obter as dimensões corretas, o formato da chapa é conduzido em maior parte a mão, por uma série de golpes com o martelinho. A atenção aos detalhes históricos inclui fazer as soldas nos mesmos pontos, assim como utilizar a “peça apropriada” para homenagear o trabalho original. Essa peça pode demorar um ano ou mais para ser construída e custar entre US$ 300 mil e US$ 500 mil.

O empresário Peter Mullin escolheu Kleeves para um ambicioso projeto que seria realizado em seu museu automotivo, em Oxnard, Califórnia. Entre a coleção de automóveis franceses anteriores à 2ª Guerra havia o chassis de um Bugatti Type 64 Coupe, de 1939, construído por Jean Bugatti. O chassis tem todas as peças mecânicas, mas não a carroceria. Bugatti morreu em um acidente de carro antes de criá-la. Somente três Type 64 foram fabricados, e somente dois deles ainda existem.

Kleeves finalizou a carroceria em 2013, 14 meses e 5,5 mil horas de trabalho depois. Nem ele nem Mullin revelaram o preço do serviço. Em 2015, Kleeves recebeu o Phil/Hill Craftsman Award inaugural, batizado em homenagem a um carro de Fórmula 1 que foi campeão mundial e outro que venceu as 24 horas de Le Mans. Para Kleeves, a maior recompensa é tomar parte na preservação de alguns dos melhores momentos da história dos automóveis. “Ser capaz de tocar e sentir aquele período de tempo é uma bênção”, afirmou ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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