Ivor Prockett para The New York Times
Ivor Prockett para The New York Times

Retirada americana da Síria ameaça futuro de milícia curda

Líder das Forças Democráticas Sírias, Mazlum Kobani diz que dará continuidade à luta, mesmo sem auxílio dos EUA

Ben Hubbard e Eric Schmitt, Thge New York Times

22 de maio de 2019 | 06h00

RMEILAN, SÍRIA - O comandante sírio que se destacou como o maior aliado dos Estados Unidos na batalha pela derrota do Estado Islâmico tem diante de si um futuro preocupante. Líder curdo das Forças Democráticas Sírias, conhecido pelo nome de guerra Mazlum Kobani, ele aplaudiu recentemente, em uma rara entrevista, a aliança com os Estados Unidos e disse esperar que tropas americanas permaneçam na Síria.

No entanto, se isso não for possível, Mazlum afirmou estar preparado para defender as conquistas de sua milícia ao longo dos anos de combates contra o grupo terrorista. "Fomos companheiros de armas - lutamos no mesmo fronte contra o EI", disse, referindo-se aos americanos.

Agora, ele está preocupado com o plano de uma retirada rápida, lembrando a saída dos americanos do Iraque em 2011, à qual se seguiu a ascensão do Estado Islâmico. Na qualidade de comandante da milícia respaldada pelos americanos que combateu o EI, Mazlum agora supervisiona as forças que controlam um terço da Síria e se encontra no centro de interesses internacionais conflitantes nas áreas ocupadas anteriormente pelos jihadistas.

O governo sírio ameaçou retomar o território. Milhares de combatentes do EI foram para a clandestinidade, de onde planejam retorno. E a vizinha Turquia, que combateu os separatistas curdos por dezenas de anos, é abertamente hostil aos curdos sírios ao longo de sua fronteira que conquistaram território, armas e alianças como resultado de oito anos de guerra civil na Síria.

Mazlum e as forças curdas que constituem a espinha dorsal das Forças Democráticas Sírias têm uma militância histórica contra a Turquia, bem como o interesse em preservar o poder conquistado na Síria, disse Dareen Khalifa, analista sírio do International Crisis Group que se reuniu com Mazlum na Síria.

A parceria das forças de Mazlum com os EUA nasceu da necessidade durante a crise. Em 2014, depois de tomar grandes partes da Síria e do Iraque, o Estado Islâmico cercou a cidade curda de Kobani no norte da Síria, na fronteira turca. A fim de prevenir o ataque, os Estados Unidos armaram a principal milícia curda síria enquanto realizavam pesados bombardeios aéreos.

A estratégia funcionou, e os Estados Unidos encontraram um novo parceiro na Síria, a milícia curda conhecida como Unidades de Proteção Popular, uma ramificação do Partido dos Trabalhadores Curdos, que há muito luta pela autonomia curda na Turquia.

Ao contrário dos rebeldes árabes da Síria, os curdos ficaram felizes de combater o Estado Islâmico em lugar do governo sírio. E, por ser um movimento secular, levantaram suspeitas de que pudessem simpatizar pelos extremistas islâmicos.

Com o apoio dos EUA e de seus aliados, o grupo expulsou os jihadistas de outras partes da Síria e se uniu a outras milícias. Em 2015, passou a denominar-se Forças Democráticas Sírias - uma mescla de combatentes curdos, árabes e de outras procedências. 

A parceria sofreu um golpe em dezembro quando o presidente Donald J. Trump anunciou que retiraria 2 mil soldados americanos do leste da Síria. Desde então, os planos dos EUA mudaram repetidas vezes, e mais recentemente o governo determinou a retirada de mil soldados apenas, seguida por uma reavaliação. Mazlum espera que os Estados Unidos permaneçam para ajudar a perseguir os combatentes do EI que foram para a clandestinidade.

Segundo Mazlum, as negociações com o governo sírio a respeito da reunificação do nordeste com o restante do país não avançaram, e o governo Trump desencorajou futuras conversações. Ele também afirmou que precisa de mais apoio da coalização liderada pelos EUA. "Evidentemente será difícil, mas se acabarmos ficando sozinhos, continuaremos a guerra, como fazíamos antes da coalizão".

Segundo um oficial americano, unir forças com Mazlum foi necessário para combater o Estado Islâmico. "Devemos muito a estes combatentes. E eles também nos devem muito", afirmou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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