Gracia Lam via The New York Times
Gracia Lam via The New York Times

Revelando o universo dos sons a crianças surdas

Dispositivos que ajudam a superar a surdez têm melhores resultados quando usados desde cedo

Jane E. Brody, The new York Times

19 de outubro de 2018 | 06h00

A consultora de audiologia pediátrica e patologista da fala Jane R. Madell quer que todos os pais que têm filhos com deficiência auditiva saibam que hoje é possível que essas crianças aprendam a ouvir e falar como se sua audição fosse normal.

"Crianças identificadas com perda auditiva ao nascer que recebem a tecnologia de audição nas primeiras semanas de vida se misturam tão bem às demais que as pessoas nem percebem que seu número é considerável", disse ela.

Com o dispositivo de audição adequado e treinamento auditivo para as crianças e os responsáveis por seus cuidados durante a fase pré-escolar, mesmo aquelas que nascem surdas "terão a capacidade de aprender com seus pares quando começarem a escola", disse Jane Madell, de Nova York. "Oitenta e cinco por cento dessas crianças se adaptam com sucesso ao restante das turmas regulares. Os pais precisam saber que a audição e a linguagem falada são possibilidades para seus filhos".

Determinada a fazer esse recado chegar a todas as famílias que descobrem que seus filhos têm uma deficiência auditiva, Jane produziu um documentário em parceria com Irene Taylor Brodsky, "The Listening Project" [Projeto Audição], para demonstrar a ajuda disponível por meio dos auxílios modernos à audição e o treinamento auditivo.

Entre os "astros" do filme, que cresceram com surdez parcial ou total, estão a obstetra, ginecologista e cirurgiã Elizabeth Bonagura, o músico Jake Spinowitz, a assistente social Joanna Lippert e a psicóloga Amy Pollick. Todos começaram usando aparelhos de audição que os ajudaram a falar e compreender a linguagem falada.

Mas, agora, todos têm implantes cocleares, que, nas palavras de Joanna, "realmente revolucionaram meu mundo" quando, aos 11 anos, ela obteve um implante coclear no Centro Médico da Universidade de Nova York.

"Subitamente, quando eu jogava futebol, pude ouvir o que os colegas de equipe estavam dizendo", lembrou Joanna, agora com 33 anos. "Minha mãe praticamente chorou quando eu ouvi um grilo pela casa".

Amy, 43 anos e surda desde o nascimento, vive em Washington, DC, com o marido e os dois filhos pequenos, todos com audição normal. Os pais dela, surdos e determinados a ajudá-la a aprender a falar, conseguiram para ela um aparelho auditivo quando a filha tinha 6 meses, além de anos de terapia auditiva. Amy já estava na pós-graduação, pesquisando vocalizações primárias, quando obteve seu implante coclear.

"Quanto mais cedo é feito o implante, maior o sucesso, pois o cérebro recebe mais estímulo auditivo durante a infância e ajuda a desenvolver habilidades auditivas melhores"., disse.

Spinowitz, guitarrista de 27 anos que vive em San Francisco, usou aparelhos auditivos até os 15 anos, quando subitamente se tornaram inúteis por não haver mais o que amplificar: ele perdeu toda a audição residual.

Mas, ele disse que, depois de obter o implante, começou "a ouvir música, de todos os estilo, para compensar pelo tempo perdido". Tocou em bandas durante o ensino médio e superior e agora trabalha no YouTube.

O recado de Spinowitz para os pais com surdez aguda é: "O som faz do mundo um lugar melhor, então, se puderem oferecer isso aos filhos, não hesitem".

Um implante coclear vai além das células capilares defeituosas do sistema auditivo, transmitindo o som diretamente ao nervo auditivo para que o cérebro possa processá-lo. Os implantes podem ser feitos também em bebês. De acordo com o Instituto Nacional para a Surdez e Outros Distúrbios de Comunicação, crianças com profunda perda auditiva que recebem implantes antes de completarem 18 meses "desenvolvem suas capacidades de comunicação num ritmo comparável ao de crianças com a audição normal".

"A capacidade que temos agora de fazer os implantes em bebês é incrível. Eles crescem com o som; podem ouvir tudo. O som é uma dádiva - risos, vozes, sons da natureza", disse Elizabeth Bonagura no documentário.

Ainda assim, muitos deficientes auditivos resistem à tecnologia, insistindo que as crianças com perda acentuada de audição devem aprender apenas a língua de sinais. Eles rejeita a ideia segundo a qual a surdez seja um problema a ser corrigido.

"Hoje, a surdez não é como há 20 anos", disse Jane Madell. "A tecnologia é tão avançada que virtualmente todas as crianças com perda auditiva poderão escutar com o auxílio dos dispositivos corretores - aparelhos amplificadores e implantes cocleares".

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