Don Hogan Charles/The New York Times
Don Hogan Charles/The New York Times

Revolução de Columbia faz 50 anos e história de ativistas negros vem à tona

A negligenciada participação de manifestantes afro-americanos nos atos de 1968 é, segundo pesquisadores, parte do legado da universidade

Jennifer Schuessler, The New York Times

06 Abril 2018 | 15h45

No campus da Universidade de Columbia há vários marcos dedicados a ex-alunos ilustres e a ideais elevados. Mas recentemente, cerca de 20 pessoas reuniram-se ao redor do relógio de sol na praça central da escola para prestar uma homenagem que não foi celebrada por qualquer outro monumento de pedra.

"Horam expecta veniet - espere a hora, ela virá”, proclamou Frank Guridy, professor associado de História da Universidade, lendo uma inscrição em latim no relógio de sol. “Acho que o fato de as coisas terem começado aqui foi simbólico”.

No dia 23 de abril de 1968, alunos unidos em oposição aos projetos de construção de um ginásio universitário em um parque público próximo, e no envolvimento de Columbia na pesquisa de armas, encontraram-se neste local. Uma semana mais tarde, cerca de mil ativistas haviam ocupado cinco edifícios, tomado o reitor como refém e fechado o campus. Posteriormente, eles foram retirados pela polícia em meio a um tumulto que acabou em uma das maiores prisões em massa da história da cidade de Nova York.

Somente agora o episódio está sendo entendido em toda sua extensão, disse o professor Guridy ao grupo que se reunira para uma visita aos locais dos protestos. Entre os presentes estavam alunos que pesquisam a história de 1968 e cerca de meia dúzia de manifestantes daquela época.

Em 2008, o 40º aniversário deste evento expôs as tensões existentes entre os próprios jovens de 1968. Afro-americanos discursaram sobre o racismo que sofreram em Columbia, e o fato de seu papel ter sido ignorado nos relatos da greve, que enfatizaram na maior parte a ação de um movimento de brancos, chamado Estudantes por uma Sociedade Democrática. Alguns dos ex-grevistas brancos manifestaram sentimentos complexos a respeito do fato de terem sido solicitados a abandonar Hamilton Hall, o primeiro edifício tomado em 1968, para que os estudantes negros pudessem realizar um protesto em separado. “Fiquei realmente surpreso quando algumas pessoas ficaram ofendidas por uma decisão estratégica”, comentou Raymond M. Brown, um líder da ocupação do Hamilton Hall que atualmente é advogado.

Hoje, os alunos reconhecem a ocupação da Hamilton como “o ato fundamental” dos protestos, como disse Brown em um artigo que faz parte de uma coletânea recentemente publicada pela Columbia University Press.

A revisão da história foi o tema do grupo de antigos grevistas que participaram da comemoração. A cada parada, os ex-alunos de 1968 davam sua contribuição ao relato do professor Guridy. O clima durante a caminhada foi de camaradagem. Mas os participantes voltavam repetidamente à decisão dos estudantes afro-americanos de manterem um protesto separado. Brown explicou que os alunos negros tinham laços mais fortes com a comunidade do Harlem, nas proximidades, e menos tolerância pela retórica revolucionária adotada pelos brancos mais radicais.

O professor Guridy acrescentou que as duas principais reivindicações do protesto - cancelar o projeto da criação do ginásio e cortar os laços com um instituto de pesquisa de armas - acabaram sendo atendidas. No prazo de um ano, o presidente de Columbia, Grayson Kirk, renunciou ao cargo, foi criado um senado universitário e começou o processo para a introdução de cursos sobre história afro-americana.

Muitos afirmaram que a greve representou um grave prejuízo para Columbia por violar o estatuto que define da Universidade como um baluarte neutro, ainda que imperfeito, da “livre discussão e questionamento”, conforme o historiador Richard Hofstadter afirmou pouco tempo depois dos protestos, em um discurso de formatura.

O professor Guridy discordou. “Eles deveriam pôr uma placa no relógio de sol com os dizeres: ‘O evento que aqui ocorreu foi difícil e violento. Mas contribuiu para tornar a nossa comunidade um lugar melhor’”.

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