Matt Roth/The New York Times
Matt Roth/The New York Times

Uma revolução psicodélica chega à psiquiatria

A psilocibina e o MDMA deverão ser os tratamentos da moda, algo que não se via desde o Prozac. Alguns temem que a pressão para facilitar o seu acesso possa trazer consequências indesejadas

Andrew Jacobs, The New York Times – Life/Style, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2021 | 05h00

Foi uma viagem longa e estranha nos 40 anos desde que Rick Doblin, um pesquisador psicodélico pioneiro, conheceu o ácido na universidade e decidiu dedicar a sua vida aos poderes curativos dos compostos que alteram a mente. Enquanto as campanhas contra as drogas levavam à criminalização do ecstasy, do LSD e dos cogumelos mágicos, e tiravam a maioria dos pesquisadores deste campo, Doblin continuou sua cruzada idealista com a ajuda financeira dos pais.

A luta de Doblin para conseguir a aceitação geral dos psicodélicos deu um significativo salto quando a revista Nature Medicine publicou em maio os resultados do seu estudo em laboratório do MDMA, a droga popularmente conhecida como ecstasy ou Molly. O estudo, a primeira fase de três testes clínicos realizados com terapia psicodélica assistida, constatou que o MDMA acompanhado por aconselhamento trouxe considerável alívio aos pacientes que sofrem de grave distúrbio de estresse pós-traumático.

Os resultados, divulgados semanas depois de estudo publicado no New England Journal of Medicine que esclareceu sobre os benefícios do tratamento contra a depressão com psilocibina, o ingrediente psicoativo contido nos cogumelos mágicos, animaram os cientistas, os psicoterapeutas e os investidores no campo da medicina psicodélica, hoje em rápida expansão. Segundo eles, é apenas uma questão de tempo para a FDA, agência que regulamenta medicamentos nos EUA, conceder a sua aprovação a compostos psicoativos a serem usados no campo terapêutico – para a MDMA, pode ser já em 2023, seguida pela psilocibina um ano ou dois mais tarde.

Depois de dezenas de anos de demonização e criminalização, as drogas psicodélicas estão prestes a entrar no campo da psiquiatria geral, com profundas implicações para esta área que, nas últimas décadas, viu poucos avanços farmacológicos para o tratamento dos distúrbios mentais e a dependência química. A necessidade de novos tratamentos ganhou maior urgência em meio a uma epidemia nacional de abuso de opioides e suicídios.

“Há dias em que acordo e não consigo acreditar até onde chegamos”, disse Doblin, 67 anos, que hoje supervisiona a Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos, um império de pesquisa e defesa de muitos milhões de dólares com os seus 130 neurocientistas, farmacologistas e especialistas em regulamentação que trabalham para preparar as bases da futura revolução psicodélica.

As principais universidades dos Estados Unidos apressam-se para criar centros de pesquisa psicodélica, e os investidores colocam milhões de dólares em um grupo de startups. Estados e cidades de todo o país começaram a abrandar as restrições impostas às drogas, os primeiros passos do que, com um pouco de esperança, levará à descriminalização federal da psicodélica para uso terapêutico e até mesmo recreativo.

“Houve uma enorme mudança na postura em relação a uma ciência que não faz muito tempo era considerada marginal”, disse Michael Pollan, cujo livro best-seller sobre psicodélica, How to Change Your Mind (Como Mudar sua Mente, em tradução livre), contribuiu para acabar com o estigma das drogas nestes três anos após a sua publicação. “Considerando a crise da saúde mental deste país, há uma grande curiosidade e esperança a respeito da medicina psicodélica e o reconhecimento de que necessitamos de novos instrumentos terapêuticos”.

A questão para muitos é até onde – e com que rapidez – o pêndulo deverá oscilar, e segundo os próprios pesquisadores que defendem a terapia psicodélica assistida, o impulso para a comercialização das drogas juntamente com um crescente movimento para a liberalização das atuais proibições poderá se revelar arriscado, principalmente para os que sofrem de graves distúrbios psiquiátricos, e comprometer o lento e metódico retorno à aceitação geral.

A organização de Doblin, a MAPS, preocupa-se em grande parte em obter a aprovação para terapias assistidas com drogas e promovê-las em todo o mundo, mas também busca da legalização de psicodélicos a nível nacional embora com rigorosas exigências para o seu licenciamento quanto ao seu uso recreativo para adultos.

Muitos estudos mostraram que psicodélicos clássicos como o LSD e a psilocibina não criam dependência e não causam danos mesmo em doses elevadas. E, contrariamente à crença popular, o ecstasy não deixa buracos no cérebro dos usuários, afirmam estudos, e nem viagens à base de ácido provocarão danos aos cromossomos.

Entretanto, a maioria dos cientistas concorda com a necessidade de mais pesquisas - como de que maneira as drogas poderiam afetar pessoas com problemas cardíacos. E embora o contínuo aumento de dados encorajadores tenha diminuído o ceticismo de cientistas proeminentes, alguns pesquisadores alertam contra a adoção precipitada de psicodélicos sem uma cuidadosa supervisão. Embora “as viagens ruins” sejam raras, alguns relatos ocasionais sugerem que os psicodélicos podem induzir a psicose em pessoas que sofrem de distúrbios mentais.

Michael P. Bogenschutz, professor de psiquiatria e diretor do Centro de Medicina Psicodélica, criado há quatro meses na NYU Langone Health, disse que a maior parte dos estudos clínicos até o momento foi realizada com números relativamente reduzidos de pessoas cuidadosamente avaliadas a fim de excluir as que tenham esquizofrenia e outros graves problema mentais.

Isto torna difícil saber se haverá a possibilidade de reações adversas caso as drogas sejam tomadas por milhões de pessoas sem qualquer orientação ou supervisão. “Sei que parece bobo, mas, crianças, não tomem estas coisas em casa”, disse Bogenschutz. “Eu aconselharia todos a não se adiantarem aos dados”.

A corrida aos investimentos

A psicodélica repentinamente nada em dinheiro

Dobin lembra de quando era praticamente impossível encontrar financiamento para a pesquisa. Mas a MAPS não precisa se preocupar agora; a companhia levantou US$ 44 milhões nos dois últimos anos.

“Passo muito tempo dizendo não aos investidores”, disse Doblin, cujo trabalho foi financiado por um grupo improvável de filantropos, entre eles Rebekah Mercer, doadora política republicana, e David Bronner, herdeiro da companhia de sabão líquido Dr. Bronners.

A Johns Hopkins, Yale, na Universidade da Califórnia, Berkeley, e o Mount Sinai Hospital em Nova York são algumas das instituições que recentemente criaram divisões de pesquisa psicodélica ou planejam fazê-lo, com financiamento de doadores particulares.

Enquanto isso, os cientistas estão realizando estudos sobre a possibilidade de psicodélicos serem eficientes no tratamento de uma série de distúrbios, da depressão, autismo e dependência de opioides à anorexia e às ansiedades de que sofrem os doentes terminais.

Mais de dez startups se apressaram a entrar na briga, e algumas companhias que abriram o capital foram coletivamente avaliadas em mais de US$ 2 bilhões. A Field Trip Health, uma empresa canadense fundada há dois anos listada na Bolsa de Nova York, captou US$ 150 milhões para financiar dezenas de clínicas de cetamina de alto nível em Los Angeles, Chicago, Houston e outras cidades em toda a América do Norte. A Compass Pathways, uma companhia de cuidados da saúde que captou US$ 240 milhões e é listada na Nasdaq, está realizando 22 testes clínicos em 10 países com a terapia de psilocibina contra a depressão resistente a tratamento.

Os investidores se sentiram encorajados com a mudança da política, inspirados em parte pela adesão acelerada do país à maconha de uso recreativo e pelo cansaço da sociedade com a guerra sem fim dos EUA contra as drogas. No ano passado, o Oregon tornou-se o primeiro estado a legalizar o uso terapêutico da psilocibina. Denver, Oakland, Califórnia e Washington, capital, descriminalizaram a droga, e vários estados como a Califórnia, estudam uma legislação semelhante. Embora as drogas continuem ilegais de acordo com a lei federal, o Departamento de Justiça adota até o momento uma atitude de não interferência, semelhante à adotada em relação à maconha recreativa.

E até alguns republicanos, grupo que tradicionalmente se opunha à liberalização da legislação referente às drogas, começam a se convencer. No mês passado, o ex-governador de Texas, Rick Perry, citando as elevadas taxas de suicídios entre os veteranos de guerra, pediu aos legisladores do seu estado que apoiassem um projeto de lei patrocinado pelos democratas que prevê um estudo sobre a psilocibina para pacientes com transtorno por estresse pós-traumático.

“Tivemos 50 anos de propaganda oficial sobre estas substâncias, e graças à pesquisa e a um movimento de base, esta narrativa está mudando”, afirmou Kevin Matthews, defensor da psilocibina que liderou um referendo bem-sucedido em Denver.

Décadas clamando no deserto

Muito antes de Nancy Reagan alertar os Estados Unidos a dizer simplesmente não às drogas e de o presidente Richard Nixon supostamente declarar Timothy Leary “o homem mais perigoso do país”, pesquisadores como William A. Richards estavam usando a psicodélicos para ajudar os alcoólatras a largar o vício e os pacientes de câncer a enfrentar a ansiedade no final da vida.

As drogas eram legais, e Richards, então um psicólogo do Centro de Pesquisas Psiquiátricas de Maryland, foi um das dezenas de cientistas que estudavam os resultados terapêuticos dos enteógenos, a classe das substâncias psicoativas que os seres humanos usam há milênios. Mesmo anos mais tarde, Richards e outros pesquisadores afirmam, muitos dos primeiros voluntários definiram as sessões psicodélicas as experiências mais importantes e significativas de suas vidas.

Mas quando as drogas saíram do laboratório nos anos 1960 e foram adotadas pelo movimento da contracultura, o establishment político do país reagiu alarmado. Na época em que a Drug Enforcement Administration (DEA) emitiu uma proibição de emergência contra o MDMA em 1985, o financiamento da pesquisa psicodélica em grande parte havia desaparecido.

“Estávamos aprendendo muito, e então tudo acabou”, disse Richards, 80 anos, atualmente pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins.

O Center for Psychedelic and Consciousness Research do Johns Hopkins, criado há dois anos com financiamentos privados de US$ 17 milhões, estuda entre outras coisas, a psilocibina para parar de fumar e para o tratamento da depressão associado à doença de Alzheimer, e também outras explorações mais no campo espiritual que envolvem o clero religioso.

“Precisamos ser cuidadosos e não prometer demais, mas estes são compostos fantasticamente interessantes com inúmeros usos possíveis”, afirmou Roland R. Griffiths, diretor fundador do centro e psicofarmacologista cujo estudo de 2006, do qual é coautor com Richards, administrou a psilocibina a voluntários saudáveis – um dos primeiros estudos para obter a aprovação da FDA.

A Viagem e os Negócios

O futuro da medicina psicodélica já pode ser vislumbrado em uma suíte elegante, com “quartos para as viagens”, com uma decoração suave, que ocupam a cobertura de um edifício de escritórios em Midtown, Manhattan. A clínica, administrada pela Field Trip Health, é uma empresa, criada há um ano, onde os pacientes usam viseiras e ouvem música eletrônica e cantos tibetanos, enquanto tomam seis injeções de cetamina ao longo de várias semanas.

As viagens de 90 minutos incluem “sessões de integração” guiadas pelo terapeuta e para ajudar os participantes a processar as suas experiências e trabalhar para atingir os seus objetivos mentais. Um curso normal de quatro sessões  começa com US$ 4.100, embora algumas companhias de seguro reembolsem uma parcela do custo aos pacientes.

A cetamina não é um psicodélico clássico; é um anestésico talvez mais conhecido tanto em um clube de drogas quanto como tranquilizante para cavalos. Mas em doses mais elevadas, pode produzir alucinações, entretanto mostrou ser promissor no tratamento de depressão profunda e PTSD grave, embora os efeitos costumem ser menos duradouros do que as terapias com psilocibina ou MDMA. No entanto, a cetamina tem uma vantagem peculiar em relação às outras drogas: é a única legalmente disponível nos EUA a pacientes fora de um estudo clínico.

Ronan Levy, presidente executivo da Field Trip, disse que a companhia espera obter uma fatia dos US$ 240 bilhões que os americanos gastam anualmente com os serviços de saúde mental. “Estamos à frente do que acredito será uma importante onda cultural e empresarial”, afirmou.

Para cientistas veteranos que viveram o primeiro caso de amor frustrado com a medicina psicodélica, esta exaltação corporativa é ao mesmo tempo emocionante e preocupante. Eles têm consciência dos erros em potencial que poderiam prejudicar o progresso dos últimos anos, e questionam se a futura comercialização poderá limitar o acesso aos que não dispõem de suficientes meios financeiros.

Charles S. Grob, professor de psiquiatria da escola de medicina da UCLA, que passou dezenas de anos pesquisando alucinógenos, teme que a comercialização e uma corrida ao uso recreativo possam provocar uma reação da sociedade, principalmente se o aumento da sua disponibilidade as drogas levar a uma onda de preocupantes reações psicóticas.

O que é preciso, afirmou, são rigorosos protocolos e um sistema para treinar e habilitar profissionais de medicina psicodélica. “Precisamos estar muito atentos aos parâmetros de segurança, porque se as condições não forem adequadamente preservadas, haverá o risco de algumas pessoas saírem psicologicamente dos trilhos”. “E se o motivo fundamental for o lucro, temo que o campo se torne mais vulnerável a percalços”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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