Mauro Pimentel/Agence France-Presse - Getty Images
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Críticos veem perigo para indígenas com nomeação de ex-missionário

Para Funai, as tribos que não foram contatadas merecem ser protegidas da ação de estranhos

Ernesto Londoño e Leticia Casado, The New York Times

14 de fevereiro de 2020 | 06h00

RIO DE JANEIRO - Recentemente, o governo brasileiro nomeou um ex-missionário cristão para a coordenação geral da proteção de tribos indígenas isoladas no Brasil, o que desencadeou veemente reação entre antropólogos e especialistas. Em uma rara carta de protesto, a associação dos representantes dos funcionários de carreira da agência de assuntos indígenas do Brasil condenou a nomeação de Ricardo Lopes Dias, antropólogo e pregador evangélico.

Na carta, eles definiram como perigosa a medida porque poderá causar “danos irreparáveis” a grupos vulneráveis que optaram por viver no isolamento. Desde o final dos anos 1980, o governo brasileiro desistiu em grande parte de estabelecer contato com as dezenas de tribos que vivem em isolamento voluntário, a maioria deles na Amazônia.

A Fundação Nacional do Índio (Funai), organismo federal criado para proteger as comunidades indígenas, afirmou que as tribos que não foram contatadas merecem ser protegidas da ação de estranhos. Este contato é frequentemente devastador para as comunidades isoladas, que podem ser facilmente devastadas por moléstias comuns. Ocorre que alguns missionários evangélicos há muito tempo estão ansiosos por conseguir conversões entre os povos indígenas da Amazônia.

Dias trabalhou durante anos para um grupo missionário que tentava estabelecer uma igreja cristã em toda comunidade indígena do Brasil. Em uma entrevista, Dias disse que “não tem qualquer interesse” em usar o cargo para evangelizar. Ele defendeu o seu trabalho de missionário e afirmou que está qualificado para o posto.

As comunidades indígenas brasileiras mais vulneráveis são os grupos - segundo algumas estimativas mais de 100 - que tiveram pouco ou mesmo nenhum contato com o mundo exterior. A Fundação Nacional do Índio presta assistência médica e orientação a cerca de 11 delas, que recentemente optaram por sair do isolamento total.

O grupo missionário para o qual Dias trabalhou de 1997 a 2007 disse que há urgente necessidade de converter todas as tribos a fim de salvá-las da “persistente escuridão espiritual”. Segundo Leila Silva Burger Soto-Maior, antropóloga que se aposentou da Fundação Nacional do Índio em 2018, há um profundo alarme entre os seus antigos colegas da Funai, a respeito do destino de tribos não contactadas e recentemente contactadas no novo governo.

“Existe a sensação de que uma política que levou tantos anos para se firmar, e que está funcionando, agora está sendo desmantelada”, ela disse. “Há uma sensação de desespero”. Márcio Santilli, ativista dos direitos indígenas no Brasil e ex-diretor da FUNAI, teme que um governo eleito com o forte apoio dos evangélicos permita a ação de missionários.

“A Constituição é muito clara em sua finalidade de proteger da identidade cultural do povo indígena, como os grupos que vivem em isolamento”, ele disse. “O perigo é que o Estado se torne um veículo para grupos religiosos que não querem proteger a identidade cultural destas comunidades”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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