Abedin Taherkenareh/EPA, via Shutterstock
Abedin Taherkenareh/EPA, via Shutterstock

Ricos alugam ambulâncias particulares para fugir do trânsito

Governo tenta coibir prática ilegal; mesmo com rodízio de carros, capital enfrenta problemas de congestionamento

Farnaz Fassihi, The New York Times

30 de agosto de 2019 | 06h00

Quando o telefone tocou em uma central de ambulâncias particulares em Teerã, quem estava na linha era um astro do futebol iraniano. A telefonista disse sentir muito pela dita emergência médica da família dele. O astro do futebol riu e disse que não havia ninguém doente.

Ele estava reservando uma ambulância porque tinha alguns compromissos a cumprir. Queria evitar o trânsito arrastado que pode transformar uma saída de 10 minutos em uma jornada de duas horas. O dinheiro que ele oferecia era equivalente ao salário mensal de um professor. Para os iranianos mais ricos, contratar uma ambulância à guisa de motorista particular se tornou a mais nova tendência em um país onde não faltam engarrafamentos.

A prática é ilegal. Todas as empresas de ambulância com quem entramos em contato se disseram preocupadas com o abuso dos veículos de serviços emergenciais - com sua capacidade de furar o sinal vermelho e abrir caminho entre os carros até chegar ao destino -, algo que impediria a transferência imediata de pacientes para instalações médicas. Muitos iranianos pedem uma fiscalização rigorosa, mas a prática continua.

Mahmoud Rahimi, diretor do serviço de ambulâncias particulares Naji, que recebeu o chamado do jogador de futebol, disse, “Infelizmente, recebemos chamados desse tipo por parte de celebridades e milionários". Rahimi disse que a empresa recusa os pedidos do tipo. “Não somos um serviço de táxi com sirene a serviço dos ricos", disse ele.

Teerã é uma cidade de 14 milhões de habitantes, e a expansão desordenada e a construção livre fizeram dela uma das piores do mundo em se tratando de congestionamentos. A cidade mobilizou formas de reduzir o tráfego - sem sucesso. Os motoristas precisam de um passe para circular na região central de Teerã, e durante algum tempo a cidade implementou um rodízio de carros com base no último número da placa, par ou ímpar.

De acordo com os analistas, o cidadão comum está há 40 anos em um jogo de gato e rato com a República Islâmica, desafiando as proibições. Dos véus obrigatórios para as mulheres nos espaços públicos até a proibição ao consumo do álcool, a mistura entre homens e mulheres, a dança e o uso das redes sociais, muitos iranianos dizem que as regras existem para serem quebradas.

Mas o escândalo das ambulâncias pode ter sido um passo longe demais - uma violação da ordem cívica. A reação tem sido forte nas redes sociais e nos jornais. Muitos iranianos criticaram o governo por não acabar com as violações. “Que pesadelo. Acabaram com a cidade", escreveu Araz Ghorbanoghli no Twitter. “Sem vergonha", publicou Ehsan Teymourpour. O ramo das ambulâncias particulares teve início há cerca de duas décadas em resposta à escassez de ambulâncias do governo.

Rahimi, do serviço de ambulâncias Naji, disse que os motoristas da empresa observaram um maior número de carros se recusando a dar passagem para a ambulância. “Ao ver uma ambulância, as pessoas podem pensar que não se trata de um paciente ou de uma situação de vida ou morte, e sim alguma celebridade indo cortar o cabelo", disse Rahimi. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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