Spencer Platt/Getty Images
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Agora os ricos também querem sua pena

“A ideia da meritocracia vem sendo usada há muito tempo pelos ricos para se justificarem”, escreveu Richard V. Reeves, um estudioso britânico

Tom Brady, The New York Times

02 de novembro de 2019 | 06h00

Os muito ricos, escreveu F. Scott Fitzgerald em um conto de 1926, “são diferentes de vocês e de mim”. Vejamos de que maneira. Um estudo recente concluiu que algumas pessoas nascidas em famílias ricas acreditam ter qualificações para exercer funções nas quais têm pouca experiência, noticiou The Times.

Os pesquisadores afirmam que “o excesso de confiança” faz com que estas pessoas estejam exageradamente convencidas das suas capacidades - mesmo quando os testes mostram que são pessoas medianas. Por outro lado, os estranhos costumam confundir excesso de confiança com competência.

Rebecca Carey, que estuda as classes sociais na Northwestern Unversity em Illinois, disse que pode ser arriscado mostrar uma excessiva confiança quando os recursos pessoais são escassos. “Em um contexto de classe baixa, o custo é maior se você se engana quando comete um erro”, disse.

Jessica A. Kennedy, professora da Vanderbilt University em Tennessee, disse que constatou que, quando a realidade se revela, a percepção de que os indivíduos excessivamente confiantes são competentes, muitas vezes desaparece. “Talvez devêssemos também punir o comportamento de pessoas excessivamente confiantes mais do que costumamos fazer”, afirmou. Mas a vida é bastante difícil para os ricos sem que sua competência seja contestada. Basta perguntar a eles.

Os filhos de gente rica enfrentam dificuldade nos testes para ingressar nas melhores escolas, desde a creche até a faculdade. Com todas as atividades extracurriculares, o estresse pode levar os filhos à beira do suicídio ou do esgotamento. Suas mães, com formação superior, capazes de grandes realizações, e os seus pais trabalham por longas horas, e acabam ricos de dinheiro, mas pobres de tempo.

“As queixas dos ricos estão ficando mais fortes”, escreveu Richard V. Reeves, um estudioso britânico. Cansados de ser retratados como vilões alguns dos bem-sucedidos se declaram vítimas. “A ideia da meritocracia vem sendo usada há muito tempo pelos ricos para se justificarem”, escreveu Reeves. “E agora, está se tornando o combustível para a sua autocomiseração”.

Segundo ele, são os próprios ricos que criam os problemas. O que é bom, nunca é suficientemente bom, quando se trata dos seus filhos. E ele dá alguns conselhos. “Se você gasta milhares de dólares e milhares de horas cultivando os seus filhos para que entrem nas instituições mais seletivas: pare com isso. Os seus filhos se sairão igualmente bem frequentando uma boa universidade pública. Se você é um profissional que trabalha até ficar doente para ganhar um alto salário: pare com isso. Ninguém o obriga a trabalhar tanto”.

Talvez os jovens millenials pudessem aceitar este conselho. Nascidos em um mundo de conveniências e engenhocas outrora inimagináveis, aparentemente eles têm pouco tempo para gozar a vida. O escritor Rainesford Stauffer disse que sentia que estava estressado e andava depressa demais, mas só se deu conta disso ao subir a bordo de um trem.

“Viajar de trem sempre me faz lembrar de coisas que deixei de fazer: sentar a conversar com estranhos”, escreveu Stauffer. “Passe algum tempo em um espaço designado apenas para uma coisa, em lugar de dedicar-se a múltiplas tarefas em um ambiente destinado a todas as outras coisas ao mesmo tempo. Vá devagar’.

O trem evoca uma sensação de ócio, “e atualmente, o ócio pode parecer um repensamento”, escreveu. A conveniência é uma marca da vida moderna: mobília alugada, refeições pré-preparadas, e muitas coisas mais. Mas maximizar cada segundo pode ser exaustivo, ele acrescentou.

“Gostaria que as pessoas soubessem que a minha geração quer mais do que simplesmente otimizar a vida, ou achar que está seguindo a moda por estar sempre correndo”, ele escreveu. “Gostaria de que reduzir a velocidade não parecesse um luxo”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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