Mandel Ngan/Agence France-Presse
Mandel Ngan/Agence France-Presse

Por que os super-ricos ainda trabalham?

Estudos têm indicado que bilionários tendem a trabalhar mais horas e gastar menos tempo se sociabilizando

Alex Williams, The New York Times

10 de novembro de 2019 | 06h00

“Bilionários não deveriam existir”, afirmou recentemente o senador americano Bernie Sanders, que é candidato à presidência dos Estados Unidos. Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook, cuja fortuna se aproxima dos US$ 70 bilhões, é aparentemente aberto a essa ideia. “Não sei se tenho um teto exato quanto à quantia total que uma pessoa deveria ter”, disse ele em outubro. “Mas, em algum nível, ninguém merece tanto dinheiro.”

Ainda assim, os tempos atuais chegam a diminuir a época do “greed is good” (a ganância é boa, em tradução livre) dos anos 1980, que veio a simbolizar uma era dourada de exageros. Para muitos que agora estão no topo, o fato é que nunca é o bastante. Mas alguns se perguntam: por que as coisas são assim?

Estudos ao longo dos anos têm indicado que os ricos tendem a trabalhar mais horas e gastar menos tempo se sociabilizando, diferentemente da aristocracia de antes, mais dada ao lazer. Tim Cook, diretor executivo da Apple, cuja fortuna é estimada na casa das centenas de milhões de dólares, afirma que acorda às 3h45 para elaborar a estratégia diária de ataque aos seus rivais corporativos.

Elon Musk, o homem por trás da Tesla e da Space X, tem uma fortuna de aproximadamente US$ 23 bilhões, mas ainda assim considera uma vitória ter reduzido suas “insanas" semanas de 120 horas de trabalho para mais “administráveis” 80 ou 90 horas semanais.

Em um e-mail, o autor Tim Ferriss, que escreve livros de aprimoramento pessoal e atuou como investidor-anjo no Vale do Silício por quase uma década, explicou que muitas dessas pessoas “percorreram as trajetórias da vida e do trabalho em altíssima velocidade por décadas”. “Quando a necessidade financeira de trabalhar é superada — tornando-se ‘pós-econômicos’, como dizem alguns em San Francisco —, eles têm problemas para engatar as marchas mais lentas”, brincou Ferriss.

Os tipos atuais de personalidades competitivas não conseguem diminuir o ritmo, em parte porque temem despencar de suas grandiosas posições. “Pessoas obstinadas são somente obstinadas”, afirmou Maria Bartiromo, apresentadora da TV Fox Business. “Elas querem permanecer vibrantes e relevantes — e, para fazer isso, é preciso uma prática constante. Se você quer vencer, tem que apostar todas as fichas.”

Medindo felicidade por dinheiro

Seria de se pensar que os ricos podem estar finalmente se sentindo abastados o suficiente para diminuir a velocidade. Mas não estão. Uma pesquisa recente da Universidade Harvard envolvendo 4 mil milionários descobriu que as pessoas com fortunas a partir de US$ 8 milhões são pouquíssimo mais felizes do que as pessoas que possuem US$ 1 milhão.

Sociólogos discutem há muito a “hipótese do lucro relativo”. Tendemos a medir nossa satisfação material comparando-nos com as pessoas que nos cercam — não em termos absolutos. “A maioria das pessoas consegue se satisfazer com o que tem”, disse Robert Frank, editor de finanças e autor do livro Riquistão: uma jornada pelo boom das fortunas americanas e pelas vidas dos novos ricos (2007). “Mas há um outro grupo, de pessoas que, não importando o que possuem, têm de continuar acumulando. Chamo essas pessoas de ‘goleadoras’. Elas são verdadeiramente movidas por um entusiasmo competitivo.”

Status social

Entre os muito ricos, não importa a possibilidade de satisfazer todas as necessidades materiais imagináveis, afirmou Edward Wolff, professor de economia da Universidade de Nova York. “Em meio ao rarefeito grupo dos extremamente ricos, o status social depende de seu patrimônio líquido”, escreveu Wolff em um e-mail. “Suas enormes fortunas lhes permitem fazer substanciais contribuições de caridade a instituições como museus e salas de concerto, o que pode fazer com que seu nome seja dado a algum edifício ou monumento.”

O convívio com seus semelhantes leva os mais abastados a terem uma visão estreita da sociedade como um todo, imaginando esta como sendo mais rica do que realmente é — o que alimenta essa infinita necessidade de acumular riqueza. Aproximadamente 20% dos indivíduos ultrarricos, que possuem bens avaliados em US$ 30 milhões ou mais, vivem em somente 10 cidades do mundo, segundo uma contagem. Seis dessas cidades ficam nos Estados Unidos. 

Ao viver dentro de bolhas, os ricos necessitam de maiores excessos para sentir a mesma sensação de entorpecimento, explicou o psicólogo Steven Berglas. “Se você é um alcoólatra, você tem de beber um drinque, dois drinques, depois cinco drinques, seis drinques para ficar bêbado. Bom, quando você ganha US$ 1 milhão, você precisa de US$ 10 milhões para se sentir como um rei. Dinheiro é uma substância viciante.”

Super-ricos

Para os super-ricos que buscam comprar seu espaço nos esportes profissionais, por exemplo, ter cadeiras cativas nos estádios não é mais suficiente. Você precisa de um time só seu. Steve Ballmer, ex-diretor da Microsoft e dono do Los Angeles Clippers, da Associação Nacional de Basquete dos EUA, busca construir uma suntuosa arena de US$ 1 bilhão.

Os temores dos ricos parecem ser de natureza existencial. É como se as mesmas pessoas que mais lucraram nesses tempos de bonança duvidassem que os tempos são de prosperidade — ou que eles ficarão bem mesmo com a possível eleição de Bernie Sanders para a presidência, por exemplo.

Alguns deles se dão conta de que o restante de nós existe. Ray Dalio, o bilionário dos fundos de hedge, escreveu em um artigo publicado no LinkedIn que o capitalismo “está funcionando mal para a maioria dos americanos porque está produzindo espirais acentuadas, acelerando a subida dos mais ricos e e a descida dos mais pobres”.

E, para aqueles que acumulam fortunas, o dinheiro é a única maneira de medir seu sucesso, indicou Jordan Balfort, personagem da vida real que serviu de inspiração para O Lobo de Wall Street.

Diferentemente de quem constrói negócios que fabricam produtos reais, “muitos dos operadores de Wall Street não criaram coisa nenhuma — tudo o que eles fizeram foi negociar, se valendo da utilidade e da engenhosidade de criações de outras pessoas; então, no fim das contas, há algo de tangível que eles possam apontar como seu?”, afirmou Belfort. “Tudo o que eles têm é dinheiro”, continuou. “Assim, saem para dar uma volta e compram uma casa e um carro de luxo, e isso lhes dá uma sensação boa, que dura pouco; então, compram uma segunda casa e um carro mais luxuoso. Porque tudo o que eles têm é o que ganham. São definidos por isso.”

Riqueza extrema e isolamento

Alguém como Jeff Bezos, o homem de US$ 110 bilhões, não terá de leiloar seu jato Gulfstream de US$ 65 milhões se ele fizer uma aposta errada nos drones de entrega da Amazon (nem se passar por um divórcio que lhe custe US$ 36 bilhões).

Ainda assim, o isolamento que frequentemente acompanha a riqueza extrema pode estimular um impulso emocional para continuar ganhando dinheiro, muito depois de os confortos materiais terem sido alcançados, afirmou T. Byram Karasu, professor emérito de psiquiatria na Faculdade de Medicina Albert Einstein, em Nova York, que afirmou ter trabalhado com numerosos ricaços em seu consultório particular.

Empreendedores e financistas de ponta, afinal, são frequentemente “movidos a adrenalina, pessoas transgressoras”, afirmou Karasu. “Eles tendem a ter cérebros com mira a laser, estão sempre na frequência da negociação e, quanto mais riqueza acumulam, mais sozinhos se tornam, porque não se sentem parte de nada.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

 

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