Dmitry Kostyukov para The New York Times
Dmitry Kostyukov para The New York Times

Poeta francês atrai seguidores para a cidade natal que ele odiava

Para os fãs, túmulo de Arthur Rimbaud neste recanto desconhecido do norte da França hoje é um santuário

Norimitsu Onishi, The New York Times

30 de outubro de 2019 | 06h00

CHARLEVILLE-MÉZIÈRES, FRANÇA - Quando Bernard Colin foi nomeado zelador do cemitério da cidade, há 27 anos, o seu predecessor deu-lhe um conselho que não poderia prever o futuro: “Não se preocupe, você não terá trabalho com o túmulo de ​Arthur Rimbaud - ninguém vem visitá-lo”.

Hoje com 60 anos, Colin coleciona cartas até mesmo da Ásia, endereçadas a Rimbaud, o poeta que escreveu obras clássicas como O barco bêbado e Uma temporada no inferno, e morreu em 1891. As missivas costumam ser deixadas sobre o seu túmulo aqui, em sua cidade natal.

Como é possível que Rimbaud - um dos principais tópicos dos currículos escolares franceses - tenha se tornado, como disse Colin, o “Jim Morrison dos poetas”? Para os fãs, o seu túmulo neste recanto desconhecido do norte da França hoje é um santuário, como os túmulos dos astros do rock que atraem turistas em Paris.

Ignorado por muito tempo por escarnecer dos valores tradicionais, Rimbaud foi venerado pela contracultura dos anos 1960. Hoje, o seu modo de vida atrai admiradores. “Não é exatamente a sua poesia que me interessa, é a sua história”, afirmou Florian Gaudet, 22. “Foi rejeitado pelas pessoas, e ficou sozinho e infeliz. Posso compreendê-lo”. O mercado logo tratou de explorar esta oportunidade, e as canecas “Arthur Rimbaud, a “terrine de Rimbaud”, a cerveja clássica de Arthur” passaram a ser procurados.

Cinquenta anos após a sua morte, dizia-se que Rimbaud desistira da poesia depois de redescobrir a fé católica, história criada por sua própria família, segundo Adrien Cavallaro​, um especialista em Rimbaud da Universidade de Grenoble Alpes. Nascido em 1854, Rimbaud produziu uma obra-prima depois da outra em uma carreira literária bruscamente abandonada quando tinha pouco mais de 20 anos.

“Há muito tempo, se a memória não me falha, a vida era um festim em que todo coração estava aberto, todo vinho fluía”, começa Uma temporada no inferno. “Uma noite, fiz a Beleza sentar sobre meus joelhos - Vi que ela era amarga. - E eu a magoei”. Mas a obra do poeta foi ofuscada por seu comportamento em Paris, principalmente por seu caso amoroso com o poeta Paul Verlaine. Mais velho do que Rimbaud, deixou esposa e filho por ele e depois atirou contra o amante - mas não fatalmente - quando este quis deixá-lo.

Encerrada a carreira literária, Rimbaud viajou pelo mundo como mercenário, explorador e comerciante. Regressou à França quando descobriu que estava com câncer. Aos 37 anos, morreu após sofrimentos terríveis em um hospital de Marselha. Somente a irmã ficou ao seu lado. Rimbaud passara 20 anos tentando deixar Charleville atrás de si, mas o seu corpo foi levado de volta à cidade que fora o seu berço. “Segundo o desejo da mãe,” explicou Lucille Pennel do Museu Arthur Rimbaud, de Charleville-Mézières.

Ele considerava a cidade “excepcionalmente estúpida”, “hedionda”. Dedicou um poema, À Música, uma sátira à sua burguesia. Aliás, sentimentos que eram recíprocos. Os boatos sobre o seu comportamento chegaram a Charleville, e durante anos a sua poesia foi considerada tabu.

“Por muito tempo, as pessoas se fixaram na imagem deste filho que dissera as piores coisas de Charleville, e não havia qualquer motivo para honrá-lo,” disse Lucille Pennel. “Mas nós fomos além de todas estas coisas horríveis que ele disse a nosso respeito”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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