Adam Dean / The New York Times
Adam Dean / The New York Times

Rio mais produtivo do mundo, Mekong sofre por falta de nutrientes

Estiagem fez baixar ainda mais o nível do curso d'água, de modo que partes do rio tornaram-se um deserto de vegetação morta

Hannah Beech, The New York Times

29 de fevereiro de 2020 | 06h00

NONG KHAL, TAILÂNDIA – A água é tão clara no Rio Mekong, no nordeste da Tailândia, que a luz do sol a trespassa, transformando este curso d’água em um aquário resplandecente e vazio. É maravilhoso, mas isto significa a morte.

Nesta época do ano, este trecho do rio mais produtivo do mundo deveria estar marrom e repleto de lodo. Ao contrário, uma seca e uma enorme barragem recém construída no Laos, a primeira no baixo Mekong, roubaram os nutrientes necessários para a vida. Em outro trecho, o Mekong torna-se um fiozinho de água estagnada cercada por uma paisagem lunar de raízes ressequidas. Nesta temporada, os peixes costumam desovar aqui, mas não há água.

“As nossas redes estão quase vazias”, disse Buorot Chaokhao, que pesca no Mekong em Non Khai, do outro lado da fronteira com o Laos, há quase cinqüenta anos. “Talvez o nosso ganha-pão tenha acabado”. O baixo Mekong, que atravessa cinco países, foi um dos poucos rios livres remanescentes no mundo. Mas o boom da energia hidrelétrica, associado à mudança climática, está mudando o curso de água.

Em outubro, as turbinas da primeira barragem do baixo Mekong, a Xayaburi, entraram em funcionamento rio acima, em Nong Khai no Laos. O efeito da barragem financiada pela Tailândia foi quase imediato, afirmam os moradores.

O Mekong corria claro e exaurido. As algas floresciam. Agora, uma seca que durou um mês fez baixar ainda mais o nível da água, de modo que partes do rio tornaram-se um deserto de vegetação morta e crustáceos secos.

Com cerca de mais dez barragens projetadas para o baixo Mekong e em centenas dos seus tributários, 60 milhões de pessoas deverão perder o seu sustento. Mais dezenas de milhões serão afetados à medida que as fazendas e a pesca forem comprometidas, enquanto os ricos da região lucrarão com as hidrelétricas. “Queremos saber: será este o colapso do Mekong?”, questionou Brian Eyler, autor de Last Days of the Mighty Mekong.

O Mekong está tão esgotado que o governo tailandês, que há muito tempo não tomou qualquer medida em relação ao meio ambiente, anunciou no dia 5 de fevereiro que rejeitou as ambições chinesas de usar dinamite nas rochas nas margens do rio a fim de permitir a passagem de barcos maiores e intensificar o comércio. Defensores do meio ambiente advertiram que obras constantes no rio poderão levar a uma catástrofe.

Desde que a China, onde as nascentes do Mekong se alimentam do degelo, começou a construir barragens no início deste século, o rio vem produzindo menos peixe. Para a população rio abaixo que outrora podia contar com a pesca mais abundante do mundo nos rios e com uma alimentação rica em proteínas, esta mudança foi devastadora.

Amkha Janlong, de 69 anos, lembra que, não faz muito tempo, ela ia para um cais em Nong Khai e olhava os homens que içavam peixes maiores e mais pesados do que eles mesmos. O maior de todos, o bagre gigante do Mekong, pesava mais de um tigre, e alimentava aldeias inteiras.

Em alguns lugares, os pescadores  recorrem à pesca com dinamite para capturar peixes cujos estoques estão diminuindo cada vez mais. “Os peixes que conseguimos são cada vez menores”, afirmou Amkha. E contou que, quando ela era jovem, eram deste tamanho, abrindo totalmente os braços. Agora, eles são do tamanho do seu dedinho.

Wittaya Thongnet, o genro de Amkha, desistiu completamente de pescar. “Não há o que pescar”, justificou. Ele não conseguiu convencer a sogra de que não é mais ele que apanha o peixe que ela come todos os dias, mas é comprado no mercado. “Ela não compreende o quanto o rio mudou”, observou.

Os caprichos do rio destruíram também a agricultura. Buorot foi obrigado a usar bombas para os seus campos à beira do rio. As pessoas que moram rio abaixo não sabem como a barragem funciona, e que a abertura e o fechamento de suas comportas afetam milhões de pessoas.

A agência tailandesa de eletricidade, que está comprando energia de Xayaburi, e o operador da comporta, que é financiado por investimentos tailandeses, se culpam reciprocamente pelos efeitos nefastos. Nenhum deles respondeu às perguntas sobre a barragem.

Com os nutrientes do Mekong cada vez mais insignificantes e a vazão da água imprevisível, os camponeses aumentaram o emprego de produtos químicos, fertilizantes e pesticidas, que são caros e prejudiciais quando usados em excesso.

A eletricidade que a Xayaburi produz não é necessária nesta área. A grade de eletricidade da Tailândia já tem energia mais do que suficiente, com um excesso de 30% em certas épocas do ano, segundo pesquisadores tailandeses. Ocorre que as barragens, construídas por tailandeses, vietnamitas ou, acima de tudo, companhias chinesas, beneficiam os moradores das cidades e as elites.

No templo budista Hai Sok nas margens do Mekong, o monge Phitakchai Jaruthammo disse que antigamente havia nestas águas 28 espécies de peixes. “Quando você constrói barragens e rouba areia, desvia o curso de um rio e muda o curso da vida”, destacou o monge. / MUKTITA SUHARTONO CONTRIBUIU PARA A REPORTAGEM

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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