Andrew White/The New York Times
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Ralph Blumenthal, The New York Times - Life/Style

23 de fevereiro de 2021 | 05h00

O que existe do outro lado do Rio Estige? Robert Thomas Bigelow gostaria de saber. Não é o que qualquer um gostaria, especialmente agora? Mas Bigelow não é qualquer pessoa, ou um homem qualquer de 76 anos em luto pela esposa e enfrentando a própria mortalidade. É um magnata do setor imobiliário e aeroespacial de Las Vegas, com recursos bilionários para financiar sua curiosidade inquieta que abrange o espaço interior e exterior, óvnis e o reino espiritual.

Agora ele está oferecendo quase US$ 1 milhão em prêmios pela melhor prova de "sobrevivência da consciência depois da morte corporal permanente".

Em outras palavras, Hamlet estava certo ao chamar a morte de uma fronteira inescapável, "o país desconhecido do qual nenhum viajante retorna"? Ou a consciência, de alguma forma, sobrevive à morte corporal – o que o Dalai Lama descreveu simplesmente como uma "troca de roupa"?

O "Sono Eterno" de Raymond Chandler é apenas uma soneca? Bigelow acredita que sim: "No plano pessoal, estou totalmente convencido disso."

Uma busca assustadora, talvez marginal para alguns, mas o único proprietário da Bigelow Aerospace e da Budget Suites of America não se deixa abater facilmente. Ele acumulou fortuna para perseguir seus interesses, incluindo o projeto e a construção de cápsulas infláveis de astronautas para a Nasa, como seu módulo expansível de atividade chamado Beam, conectado à Estação Espacial Internacional.

Os empreendimentos aeroespaciais foram financiados por seu negócio Budget Suites, uma das primeiras redes de aluguel de longa duração. Ele disse que os lucros lhe permitiram "afundar" mais de US$ 350 milhões na Bigelow Aerospace, "meu verdadeiro buraco negro", como ele mencionou em entrevistas recentes por telefone.

Uma exploração da vida depois da morte

Em junho passado, quatro meses depois que a doença da medula óssea e a leucemia tiraram a vida de sua esposa de 55 anos, Diane Mona Bigelow, ele, aos 72 anos, discretamente fundou o Instituto Bigelow para Estudos da Consciência, que tem o objetivo de apoiar pesquisas sobre o que acontece depois da morte.

Ele preparou o terreno para seu novo concurso de vida depois da morte, buscando as melhores provas disponíveis de sobrevivência da consciência, com prêmios de US$ 500 mil, US$ 300 mil e US$ 150 mil para o primeiro, segundo e terceiro lugar, respectivamente. Os vencedores serão anunciados em 1º de novembro.

Os participantes devem se qualificar como pesquisadores sérios até 28 de fevereiro, com um histórico de pelo menos cinco anos de estudo na área e, de preferência, alguma afiliação a grupos como a Society for Psychical Research, do Reino Unido. Os estudos, com limite de 25 mil palavras, devem ser enviados até 1º de agosto e serão julgados por um painel de especialistas. Bigelow afirmou ter uma ideia de qual poderia ser a melhor prova, mas "seria prejudicial dizer".

O interesse dos Bigelow pela consciência aumentou depois do suicídio, em 1992, de seu filho de 24 anos, Rod Lee, pai de um bebê e de uma filha que ainda não havia nascido. (Esse bebê, Rod II, cresceu lutando contra o vício em drogas e também se suicidou aos 20, em 2011. A irmã dele e neta de Robert Bigelow, Blair, trabalhou nas empresas aeroespaciais e imobiliárias do avô e pode acabar assumindo o controle delas, revelou Robert Bigelow.)

Buscando conforto depois da morte do filho, os Bigelow realizaram sessões com o renomado médium George Anderson. O filho deles fez contato? "Na verdade, não, mas acho que descobri, com as leituras, que seu espírito existia e que ele estava bem", comentou Robert Bigelow.

Tendo encontrado poucos pesquisadores dedicados ao estudo sério de experiências pós-vida, o casal doou, em 1997, à Cátedra Bigelow de Estudos da Consciência da Universidade de Nevada, em Las Vegas, um presente de US$ 3,7 milhões. Charles T. Tart, psicólogo transpessoal com inclinação espiritual, e Raymond Moody, autor que popularizou o estudo das experiências de quase morte, tornaram-se os dois primeiros titulares da cátedra, mas Bigelow encerrou o programa depois de vários anos. "Infelizmente, não conseguimos progredir o suficiente nos aspectos de pesquisa", justificou.

Depois de cancelar o programa de estudos da consciência, Bigelow se concentrou em óvnis, interesse que remonta a 1947, ano marcante para a febre dos discos voadores, depois da queda de algo ainda misterioso no deserto de Roswell, no Novo México.

Segundo Bigelow, naquele maio, quando tinha três anos, seus avós maternos, Tom e Delta Thebo, estavam descendo as montanhas da região de Las Vegas depois de escurecer quando um objeto brilhante voou em direção a eles, ocupando todo o para-brisa e aterrorizando-os antes de sumir. Eles estavam atrasados para voltar para casa e tão abalados que "meu avô não conseguiu dirigir o carro por algum tempo".

Quanto ao que pode ter acontecido com eles durante as horas em que estavam fora, Bigelow disse: "Eles não falavam sobre isso."

Bigelow teve experiências anômalas próprias, incluindo "uma da qual não falo". Outras, que começaram quando tinha cerca de sete anos, "atribuo apenas aos sonhos", comentou. Mas deixaram forte impressão em uma criança que crescia na era dos foguetes e das nuvens de testes atômicos no deserto de Nevada. "Eu estava totalmente viciado."

"Quando tinha 12 ou 13 anos, assumi o compromisso de realmente me envolver em algo relacionado ao espaço e a óvnis, se algum dia tivesse dinheiro para isso. Então, fiz um contrato premeditado comigo mesmo para entrar em algum tipo de campo no qual poderia ganhar muito dinheiro", contou.

'Há coisas que não me importo de falar'

Depois de estudar Administração na Universidade Estadual do Arizona, Bigelow seguiu os passos do pai no mercado imobiliário, fundando a Budget Suites, em 1987. As unidades mobiliadas, alugadas por semana ou por mês, atendem trabalhadores de baixa renda que vivem de gorjetas ou sem salário fixo.

A Budget Suites lhe rendeu a fortuna que prometera a si mesmo. Hoje, é frequentemente chamado de bilionário, mas não quis entrar em detalhes. "Não é o que importa. É fácil dizer isso quando se tem dinheiro, mas ele não é tudo", assegurou Bigelow.

O dinheiro lhe permitiu, no entanto, estabelecer a Fundação Bigelow em 1992, em colaboração com Bob Lazar, que alegou ter trabalhado na engenharia reversa de naves extraterrestres recuperadas na base secreta de Nevada, conhecida como Área 51.

Em 1995, Bigelow fundou o Instituto Nacional de Ciência da Descoberta para estudar fenômenos paranormais. Fechou o instituto em 2004, substituindo-o pelo Bigelow Aerospace Advanced Space Studies, que trabalhou secretamente com o Pentágono no programa de óvnis. Os arquivos de ambas as organizações permanecem lacrados para estranhos.

Em 2017, a jornalista Lara Logan perguntou a Bigelow no programa "60 Minutos": "Você acredita em alienígenas?" Ele respondeu: "Estou absolutamente convencido de que existem".

Ao contrário da consciência, o que ele chamou vagamente de "ET" forneceu evidências físicas para estudar, disse Bigelow: "Talvez você tenha recebido algo anômalo que não pode ser analisado como algo que podemos fazer."

Mas, quando solicitado a confirmar se possuía – ou se sabia de – algum material que comprovadamente veio de fora da Terra, completou: "Não falo sobre isso. Há coisas sobre as quais não me importo de falar e há coisas que não abordo."

'Pode ser importante o que você faz enquanto está aqui'

Contudo, ele estava feliz em discutir seu novo concurso de vida depois da morte. Bigelow observou que, de duas questões de "Santo Graal" – se a morte corporal marca o fim da existência e se estamos sozinhos no cosmos –, ele colocou a sobrevivência da consciência em primeiro lugar, com um aspecto moral especial. "O que você faz enquanto está aqui pode ser importante. Pode fazer a diferença do outro lado".

Isso parece religioso, mas Bigelow afirmou que não se ligou a nenhuma igreja ou denominação, mas à "força de Deus".

Além disso, os dois mistérios podem estar de alguma forma entrelaçados, especulou: "Se vemos uma sombra passando por uma parede e depois por outra, não sabemos ao certo se foi um espírito humano desencarnado ou um ET".

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