Robert Rieger oara o The New York Times
Robert Rieger oara o The New York Times

Robô separa mais de mil artigos diferentes, com mais de 99% de precisão

Em uma instalação perto de Berlim, um novo tipo de robô está automatizando tarefas que até recentemente estavam fora do alcance de máquinas

Adam Satariano e Cade Metz, The New York Times

15 de fevereiro de 2020 | 06h00

LUDWIGSFELDE, ALEMANHA - Em um depósito nos arredores de Berlim, uma longa fileira de engradados passa por uma esteira rolante carregando lâmpadas, soquetes e outras peças elétricas. Quando os engradados param num determinado ponto, funcionários recolhem os pequenos itens e colocam cada um numa caixa de papelão. Na Obeta, companhia fabricante de peças elétricas aberta em 1901, esta é a monótona tarefa que os empregados desempenham há anos.

Mas há alguns meses, um novo funcionário veio se juntar à equipe. Um robô, com óculos de proteção e três ventosas na extremidade dos seu longo braço, realiza a mesma tarefa, separando cuidadosamente as peças com uma velocidade e precisão surpreendentes. Este robô destinado a separar componentes é um importante avanço no campo da inteligência artificial e na capacidade das máquinas desempenharem trabalho humano.

Com milhões de produtos transitando pelos armazéns da AmazonWalmart e outras varejistas, trabalhadores que recebem baixos salários têm de inspecionar contêiner atrás de contêiner repletos de produtos dos mais variados - de roupas e sapatos a equipamentos eletrônicos - para cada item ser embalado e enviado. As máquinas até agora não eram uma realidade à altura da tarefa.

“Trabalhei no setor de logística por mais de 15 anos e nunca vi algo igual”, disse Peter Puchwein, vice-presidente da Knapp, empresa austríaca que fornece tecnologia de automação para centros de distribuição. No armazém, engenheiros da Califórnia que fabricaram o robô tiram fotos. Eles passaram mais de dois anos projetando o sistema em uma startup chamada Covariant, baseados em sua pesquisa na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Em breve, poucos trabalhos em um depósito serão muito pequenos ou complexos para um robô. E à medida que as máquinas dominam tarefas realizadas por humanos, seu desenvolvimento desperta novas preocupações sobre a perda de empregos para a automação.

Como as vendas no varejo online crescem rapidamente - e mais empresas vão demorar para adotar as últimas tecnologias robóticas - os economistas acreditam que os avanços não reduzirão tão cedo o número total de empregos no setor de logística. Mas os engenheiros que vêm desenvolvendo essas tecnologias admitem que, num dado momento, muitas tarefas desempenhadas em armazéns serão realizadas por máquinas.

Os engenheiros da Covariant se especializaram num ramo da inteligência artificial chamado “aprendizagem por reforço”. As máquinas são programadas para aprender novas tarefas por conta própria por meio de erros e acertos. E o melhor lugar para aprender é o mundo real. “Se você deseja avançar com a inteligência artificial não tem de ficar num laboratório. Há uma enorme diferença quando você a traz para o mundo real”, disse Peter Chen, diretor executivo da Covariant.

Os armazéns já estão bastante automatizados. Na fábrica em Berlim, num salão maior do que um campo de futebol, robôs já vêm sendo usados para buscar caixas em prateleiras com altura de vários andares. Os engenheiros programam o robô para desempenhar o mesmo movimento repetidas vezes. As caixas são uniformes. O robô consegue pegá-las com o mesmo movimento todas as vezes.

Separar os itens variados de um contêiner é diferente. As formas variam, como também as superfícies. Um interruptor de luz pode estar de cabeça para baixo, o outro do lado certo. O próximo gadget elétrico pode ser uma bolsa de plástico que reflete luz de uma maneira que um robô jamais viu. Um toque humano é necessário. Programar um braço robótico para lidar com cada situação, uma regra de cada vez, é impossível. Na Knapp, Puchwein e seus parceiros jamais conseguiram criar um robô com a destreza e a flexibilidade necessárias para o trabalho.

A Covariant, trabalhando com a Knap, criou software que ensina o robô por meio de tentativas e erros. Primeiramente o sistema aprende a partir de uma simulação digital da tarefa - uma recriação virtual de um contêiner repleto de itens aleatórios. E quando Chen e seus colegas transferem este software para um robô ele consegue separar os artigos no mundo real. O robô continua a aprender enquanto seleciona itens que nunca viu antes. Dentro do armazém alemão, um robô pega e separa mais de mil artigos diferentes e o faz com mais de 99% de precisão, segundo a Covariant.

Como muitas operadoras de armazéns, a Obeta tem tido problemas para encontrar empregados dispostos a realizar esse trabalho monótono. Cada empregado cuida de 170 encomendas por dia, ou três por minuto durante um dia de oito horas de trabalho. No verão as temperaturas no armazém chegam a mais de 38 graus Celsius.

É difícil manter um empregado por mais de seis meses. A solução ideal é o novo robô. Um trabalho que requer três humanos é feito por um robô incansável. “Os novos armazéns serão construídos em torno de robôs de inteligência artificial e não humanos”, disse Puchwein.

A Knapp pretende dificultar para as empresas dizerem não à substituição de trabalhadores humanos por robôs. Puchwein disse que cobrará uma comissão que sempre será menor do que a empresa pagaria a um humano. Se ela paga US$ 40 mil ao ano para um trabalhador, a Knapp cobrará US$ 30 mil disse ele. “Apenas baixamos o preço. É basicamente o modelo de negócio. Para o cliente a decisão não é difícil”, disse Puchwein. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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