Dmitry Kostyukov para The New York Times
Dmitry Kostyukov para The New York Times

Robô Zora traz conforto a pacientes idosos em Paris

Para alguns, os robôs são vitais para ajudar nos cuidados com uma população cada vez mais velha

Adam Satariano e Elian Peltier, The New York Times

08 Dezembro 2018 | 06h00

O robô Zora pode não parecer grande coisa - está mais para um brinquedo simpático do que uma maravilha futurista -, mas é a peça central de um experimento na França que busca alterar o funcionamento dos cuidados com os pacientes idosos.

Quando Zora chegou a este asilo nos arredores de Paris, algo estranho começou a acontecer: muitos pacientes desenvolveram um elo emocional com o aparelho, tratando-o como um bebê, segurando-o no colo e beijando-lhe a cabeça.

Zora, que pode custar até US$ 18 mil, ofereceu alguma companhia num lugar onde a vida pode ser solitária. As famílias não podem visitar sempre, e os funcionários estão ocupados. Os pacientes do hospital, chamado Jouarre, têm demência e outras condições que exigem cuidados o tempo todo.

O enfermeiro do Jouarre que supervisiona Zora controla o robô a partir do laptop. Com frequência, ele fica fora da vista dos pacientes, para que não saibam que ele está no controle. O robô consegue conversar porque o enfermeiro digita palavras no laptop para que o robô as fale. Alguns pacientes se referem a Zora como “ela”, e outros, como “ele”.

Zora costuma organizar sessões de exercício e partidas de jogos. Mas nem todos estão encantados. A robótica ainda precisa avançar muito antes de termos uma possibilidade realista de empregar um enfermeiro humanoide. 

Zora não aplica remédios, não tira a pressão sanguínea nem troca a roupa de cama. No Jouarre, Zora foi vista por alguns como uma ferramenta supérflua que simplesmente “mantém os pacientes ocupados", disse a enfermeira Sophie Riffault.

Outra enfermeira, Nathalie Racine, disse que não deixaria um robô alimentar os pacientes nem se pudesse. Os humanos não deveriam delegar às máquinas momentos de intimidade como esses. “Nada pode substituir o toque humano, o afeto humano que nossos pacientes necessitam", disse ela.

A experiência em Jouarre é como uma janela mostrando um futuro no qual dependeremos mais dos robôs para os cuidados com os entes queridos conforme a idade deles avança. A belga Zorabots, que produz o robô em Jouarre, diz ter vendido mais de mil unidades a instalações de saúde em todo o mundo, incluindo os Estados Unidos, Ásia e Oriente Médio.

 

Isso faz parte de uma crescente ênfase em robôs voltados para ajudar nos cuidados pessoais. Um cachorro robô fabricado pela Sony é anunciado como companhia para adultos mais velhos. “Precisamos ajudá-los com a solidão", disse Tommy Deblieck, executivo da Zorabots.

Conferir aos robôs mais responsabilidade no cuidado com pessoas no fim da vida pode parecer uma perspectiva distópica, mas, para muitos, esse destino parece inevitável. Em praticamente todos os países, a população de adultos mais velhos está aumentando. 

O número de pessoas com mais de 60 anos vai aumentar em mais de 100% já em 2050, chegando a 2,1 bilhões, de acordo com as Nações Unidas. E os números apontam para uma lacuna crescente. Simplesmente não haverá pessoas em número suficiente para assumir os trabalhos necessários no setor da saúde. Muitos dizem que é necessário desenvolver uma nova tecnologia para superar essa diferença.

O desafio é particularmente importante na França, onde os hospitais enfrentam uma crise nacional, com profissionais de saúde em greve e protestando contra cortes orçamentários e insuficiência de mão de obra. Uma alta no número de suicídios de enfermeiras e médicos chegou às manchetes, e o ministro da saúde da França reconheceu que o sistema hospitalar estava “ficando sem combustível".

O desafio será criar máquinas capazes de tarefas mais complexas. Animar um paciente com uma música é diferente de realizar um cuidado médico. O hospital francês, que comprou o robô com a ajuda de uma doação de caridade, coloca Zora em ação apenas algumas vezes por mês.

Pesquisadores de um hospital da Austrália que usa o robô Zora descobriram que ele melhora o estado de ânimo de alguns pacientes, fazendo com que se envolvam mais nas atividades, mas, para isso, era necessário um considerável apoio técnico.

A experiência da equipe do hospital francês foi semelhante. Os funcionários sempre ficam surpresos com o quanto os pacientes ficam apegados. Os pacientes contaram ao robô detalhes de sua saúde que não compartilham com os médicos.

“Ela traz um pouco de ânimo para nossas vidas aqui", disse Marlène Simon, 70 anos, que passou por uma traqueostomia e está no hospital há mais de um ano. “Nós a amamos, e sinto falta dela quando não a vejo.”

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