Michael Loccisano/Getty Images
Michael Loccisano/Getty Images

Novo álbum: que elo Seu Jorge e Rogê fazem entre passado e futuro?

No dia 7 de fevereiro, a dupla vai lançar 'Seu Jorge & Rogê: Night Dreamer Direct-to-Disc Sessions', novo álbum que lembra as glórias de um Brasil que ambos deixaram para trás

James Gavin, The New York Times

24 de janeiro de 2020 | 06h00

Vinte e cinco anos atrás, o ator e cantor Seu Jorge começou sua ascensão das favelas do Rio de Janeiro. A banda que ele formou com um grupo de amigos, Farofa Carioca, lançou um álbum importante, Moro no Brasil, retrato dançante e investigativo da vida em meio ao crime, ao racismo e à pobreza do Rio.

Seu Jorge cantava samba, reggae, funk e soul com balanço, e fazia rap com uma expressão teatral. Um de seus fãs era Rogê, cantor e compositor aspirante do gênero samba-funk saído do conforto do Arpoador, região vizinha a Ipanema. Rogê ficou surpreso quando Seu Jorge veio a uma de suas apresentações. “Ele ficou bem na frente do palco", lembrou o músico recentemente. "Ele me estendeu a mão e disse: ‘E aí, Rogê, como está?’”.

Apesar de todas as diferenças entre os dois, a amizade ainda vai bem. Agora com 49 anos, Seu Jorge, nascido Jorge Mário da Silva, é um astro internacional da música e do cinema— conhecido por seus papéis em  Cidade de Deus (2002) e The Life Aquatic With Steve Zissou, de Wes Anderson, para o qual tocou músicas de David Bowie em português.

Aos 44 anos, Roger José Cury, o Rogê, é conhecido quase exclusivamente na Lapa, bairro boêmio do centro do Rio. Na casa noturna Carioca da Gema, onde ele reinou por uma década, seu samba de ritmo acelerado e bom astral mantinha o público dançando por horas. “É alguém especial para mim", afirmou Seu Jorge. “Um compositor que vi crescer”.

No dia 7 de fevereiro, a dupla vai lançar Seu Jorge & Rogê: Night Dreamer Direct-to-Disc Sessions, um novo álbum intimista que lembra as glórias (a natureza, a comida, a música, a religião folclórica) de um país que ambos deixaram para trás.

Em 2013, Seu Jorge e a mulher trocaram São Paulo por Los Angeles; no ano passado, Rogê fez o mesmo, trazendo a mulher e os dois filhos. Seu Jorge explicou que as filhas moram por perto, “e meu lar é onde elas estão". Mas o Brasil traz lembranças difíceis para ele, incluindo anos em que viveu na rua e a morte do irmão, baleado pela polícia.

Sua indignação com a corrupção, os altos impostos e outros problemas explodiu publicamente em 2013, quando respondeu a um crítico no Twitter: “que oportunidade essa merda de pais [sic] vai me dar seu imbecil! eu moro em Los Angeles!e o seu BRASIL nao me ajudou em nada bobão!”

Seguiu-se uma tempestade de reações negativas, com muitos o descrevendo como arrogante e ingrato. Ele insiste que suas palavras foram “tiradas de contexto", acrescentando: “Era tudo provocação de robôs e gente que não gosta de mim na internet".

A ausência de temas sociais e políticos no novo álbum com Rogê chama a atenção. Rogê disse que o governo atual do presidente Jair Bolsonaro “é inimigo da cultura. Não gostam de samba". “Cheguei aos Estados Unidos muito orgulhoso de ser brasileiro", prosseguiu Rogê. “Toco música brasileira. Quando conheço artistas do hip-hop e de outras culturas, todos respeitam isso — às vezes muito mais do que nosso próprio povo". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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