Ellie Smith para o The New York Times
Ellie Smith para o The New York Times

Romance conta histórias em defesa da educação das meninas nigerianas

'The Girl With the Louding Voice', lançado em quatro de fevereiro, é o livro de estreia da autora Abi Daré

Concepción De León, The New York Times

20 de fevereiro de 2020 | 06h00

A inspiração para o primeiro livro de Abi Daré surgiu quando uma das suas filhas, então com oito anos de idade, não quis colocar os pratos na máquina lava-louças. Abi Daré, que vive em Londres e cresceu em Lagos, disse à filha que havia meninas da sua idade na Nigéria que faziam trabalho doméstico para sobreviver.

“Ela parou e me perguntou, ‘o que a senhora quer dizer, mamãe?” Isso significa que trabalham como se trabalha todo dia num escritório e são pagas? Que ótimo ser pago! Posso receber um pagamento, então?’”, lembrou a senhora Daré. A conversa proporcionou a Abi Daré uma nova perspectiva de algo comum entre as famílias de classe média como aquela onde ela cresceu: empregar meninas como empregadas domésticas.

Nessa noite, ela fez uma busca na Internet por “empregadas domésticas na Nigéria” e deparou com artigos falando da violência, dos maus-tratos e do salário baixo ou inexistente que quase sempre fazem parte das suas condições de trabalho. Um dos artigos relatava a história de uma garota de 13 anos cujo patrão a escaldou com água fervente para chamar a atenção dela. “A notícia era pungente, disse a escritora. “Mas o que a tornou ainda mais dolorosa para mim foi que o rosto da menina era um borrão e parecia mais um dado estatístico para informar.

Seu romance de estreia, The Girl With the Louding Voice, lançado em quatro de fevereiro, dá voz a uma dessas meninas. Adunni, de 14 anos, cresceu em meio à pobreza e encontrou trabalho como empregada doméstica de uma rica família de Lagos, sofrendo abusos, sendo explorada, e sonhando em ir para a escola.

Abi Daré, de 38 anos, falou sobre o foco do seu romance na educação e como tentou expressar os sentimentos de Adunni. 

Por que a senhora decidiu escrever o livro num inglês incorreto?

Achei que tinha de quebrar o inglês dela e o meu também no processo de compreendê-la de maneira que ela possa ser entendida por qualquer pessoa que ler o livro. 

Apesar do inglês “macarrônico”, a senhora consegue de fato contar quão brilhante e lutadora é Adunni.

Eu quis explorar o talento, os sonhos e a inteligência que matamos e desperdiçamos quando não permitimos a essas meninas irem à escola, quando contratamos essas jovens e as colocamos para trabalhar. Quis mostrar que ela é uma garota que sonhava. Se tivesse tido uma chance, como no é o caso de outras meninas no mundo, todas brilhariam e floresceriam. Quis realmente mostrá-la como alguém que é mais do que uma menina que não consegue falar bem inglês. E é por isto que, num certo ponto no livro, ela se conscientiza de que, veja, trata-se apenas de uma língua e não uma medida de inteligência.

O livro gira em torno do desejo dela de ter uma educação. É o que a motiva durante o livro todo. Poderia falar sobre essa sua decisão particular?

Eu tinha catorze ou quinze anos e tinha meus namorados. Uma tarde, fui me encontrar com um deles. Fingi que ia jogar o lixo e minha mãe me seguiu. Eu perguntei: ‘Por que a senhora está me seguindo?’ Ela então respondeu: 'Sei onde você está indo jogar o lixo. Você vai se encontrar com alguém’”. E ela me disse: “Ouça, tudo isso vai desaparecer. Você vai partir. Vai ficar mais velha. A beleza vai desvanecer. Tudo irá se dissipar. Mas a única coisa que não desaparecerá é a sua inteligência e o que está em sua cabeça, a sua educação”.

Aquilo realmente me tocou, a importância da educação. Acho que a conversa naquela noite mudou minha vida. Na Nigéria, a educação é muito valorizada, mas infelizmente não existe o suficiente por causa da pobreza. Eu quis enfatizar isso. Muitas pessoas são muito educadas e nem todas conseguem emprego. Mas no caso de uma pessoa como Adunni, a educação é a primeira etapa para alguma coisa mais. Acho que é a base essencial para qualquer vida, especialmente para as meninas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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