Bryan Derballa para The New York Times
Bryan Derballa para The New York Times

Romance retrata a história da Libéria sob a óptica do realismo mágico

Wayétu Moore adota em 'She Would Be a King' a fórmula usada pelo pai para explicar os acontecimentos da guerra civil liberiana

Lovia Gyarkye, The New York Times

04 Outubro 2018 | 10h00

Quando Wayétu Moore tinha 5 anos, ela e a família fugiram de Monróvia, a capital da Libéria. Era o ano de 1989 e o país estava no meio de uma violenta guerra civil. Wayétu, seu pai e duas irmãs refugiaram-se na aldeia natal da avô materna, perto da fronteira de Libéria com Serra Leoa.

“Meu pai fazia horas extras para preservar nossa infância”, disse Wayétu. Os tiros de armas de fogo ao longe tornaram-se “dragões lutando” e os corpos mortos eram de pessoas que “dormiam pelas ruas”.

“Por muito tempo, eu entendi que nós fazíamos parte desse jogo”, contou. “Íamos ver mamãe. E havia algo errado, algumas pessoas zangadas andavam pela rua, mas em geral nada acontecia com a gente”.

Naquela época, a mãe de Wayétu era uma pesquisadora da Fulbright que conseguira uma bolsa de estudos da Columbia University em Nova York. Com poucas possibilidades de contatar sua família, ela fugira para Serra Leoa para obter uma passagem segura para elas.

Em seu romance de estreia, She Would Be King, Wayétu, 33, explora a história da Libéria usando o mesmo tipo de realismo mágico que o pai empregava.

She Would Be King, publicado pela Graywolf, em setembro, acompanha três personagens, Gbessa, June Dey e Norman Aragon, cujos destinos acabam se cruzando e iniciando a formação da Libéria.

Trata-se de um romance ambicioso, abrangente, que explora as nuances da história liberiana além de sua identidade como colônia criada para afro-americanos emancipados. Wayétu reconsidera habilmente o idealismo dos primeiros colonos afro-americanos através de seus interações como os moradores locais e tece com eles histórias íntimas centradas em temas universais: a descoberta do amor, desafiar as expectativas da família e as dificuldades para fazer a coisa certa.

“Ela cria uma voz diferente”, disse Patricia Jabbeh Wesley, poeta liberiana e professora associada de Inglês na Pennsylvania State University Altoona. “Escreve sobre a guerra, não escreve sobre a pobreza ou sobre as aldeias de uma maneira paternalista”.

Quando Wayéty era criança, seus pais liam para ela histórias sobre a Libéria antes de dormir. 

Estas histórias a ligaram, assim como suas irmãs, ao pequeno país da África Ocidental, mesmo quando elas se mudaram para os Estados Unidos, de Nova York ao Tennessee e depois no Texas, para Houston, onde vieram em um bairro habitado predominantemente por brancos. Embora ela tenha lembranças boas de sua infância no Texas, às vezes, sentia-se isolada. “Não ouvia falar nada da África, e com certeza nada da Libéria, na escola”, falou. “Acho que esta falta foi muito profunda”.

A carreira de Wayétu reflete uma tentativa sincera de preencher este vazio. Em 2011, depois de concluir o mestrado em belas artes na University of Southern California, ela abriu a One Moore Book, uma pequena editora infantil multicultural. O empreendimento começou como uma empresa de capital independente com vista ao lucro, e o primeiro livro, “J Is for Jollof Rice”, foi escrito por ela e ilustrado por sua irmã Kula Moore. Poucos anos mais tarde, ela abriu também uma livraria sobe temas gerais em Monróvia.

A editora agora oferece 23 títulos que cobrem uma variedade de países da Libéria à Guiné ao Haiti e ao Brasil, e está associada a escritores como Edwige Danticat e Ibi Zoboi, a autora de American Street. Elas venderam mais de 6 mil livros e doaram mais de 7 mil com a ajuda de organizações como a Lit World, uma organização sem fins lucrativos dedicada à alfabetização global.

Moore quer “fazer justiça à organização” e tornar One Moore Book sustentável de modo a não depender dela, das irmãs e de alguns estagiários e voluntários.

Neste final de ano, ela trabalhará no seu livro de memórias sobre a fuga de sua família da Libéria e dará aulas no curso de mestrado para o programa de belas artes no Randolph College, em Virginia. 

Também planeja refletir sobre o futuro de One Moore Book, que ela relançou como empreendimento sem fins lucrativos em 2015.

“Criar uma plataforma foi um dos aspectos mais compensadores deste processo”, afirmou. “Espero conseguir fazê-la crescer até tornar-se algo maior do que eu”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.