Matt Dorfman
Matt Dorfman

Romance sobre pandemia parece profético, mas plano não era esse

Escritor diz que se deu conta do quão perto estávamos de enfrentar uma ameaça de doença existencial ao fazer pesquisa para seu livro

Lawrence Wright, The New York Times

27 de março de 2020 | 06h00

Meu novo romance The End of October (O fim de outubro, em tradução livre) é um trabalho de ficção. O livro não é uma profecia, mas sua publicação em meio a pior pandemia da memória dos que estão vivos não é inteiramente uma coincidência. Tudo começou com uma simples pergunta do cineasta Ridley Scott, que leu o romance pós-apocalíptico de 2006 de Cormac McCarthy A estrada e me perguntou: “O que aconteceu?”.

Como a civilização humana tornou-se tão destruída? Como pudemos falhar em preservar as instituições e a ordem social que nos definem quando somos confrontados com uma catástrofe que, em retrospecto, parece tão inevitável? Este não é o resultado que eu espero da atual pandemia de coronavírus (covid-19).

Ao escrever meu livro, no entanto, percebi que seríamos ingênuos e orgulhosos em acreditar que escapamos das armadilhas de doenças que a natureza está constantemente inventando. O que pode parecer profecia é na verdade o fruto da pesquisa. Como escritor, sempre me surpreendi mais com a realidade do que com a imaginação, por isso tento aprofundar a ciência, a história e a experiência humana.

Pandemias - como guerras e depressões econômicas, as quais muitas vezes coincidem - deixam cicatrizes no corpo da história. Grande parte da história da civilização tem sido sobre a nossa luta para sobreviver em alojamentos próximos, o que permite a proliferação de patógenos. Como algumas das doenças transmissíveis mais temíveis do passado - poliomielite, tifo, cólera, febre amarela - foram domadas ou eliminadas, elas retrocederam da terrível notoriedade que já tiveram nos assuntos cotidianos.

A peste matou talvez 50 milhões de pessoas durante o reinado do imperador Justiniano no século VI, cerca de metade da população mundial na época. A próxima pandemia de peste, conhecida como Peste Negra, foi a mais mortal da história da humanidade, surgindo na China em 1334 e seguindo as rotas comerciais da Ásia Central e da Europa até que ela desaparecesse 200 anos depois. A varíola, uma das doenças mais infecciosas já registradas, matou cerca de 400 mil pessoas por ano na Europa apenas, e, entre os sobreviventes, um terço tornou-se cego.

O flagelo não diminuiu até 1796, quando um médico inglês chamado Edward Jenner percebeu que as leiteiras pareciam imunes à doença. Ele teorizou que elas haviam sido protegidas pela exposição à varíola bovina, uma enfermidade semelhante que pode ser encontrada no gado, mas não é fatal em humanos. Para testar sua teoria, ele pegou uma amostra de varíola bovina de uma leiteira chamada Sarah Nelmes e a injetou no filho de 9 anos do jardineiro.

Meses depois, Jenner também injetou varíola (humana) no garoto. Quando o menino não foi infectado, surgiu uma nova era na medicina. Ao pesquisar meu romance, percebi o quão perto estávamos dos últimos tempos de enfrentar uma ameaça de doença existencial.

Um dos heróis da saúde pública foi Carlo Urbani, um médico italiano. Dedicou-se a combater os platelmintos em crianças que viviam ao longo do rio Mekong, no sudeste asiático. Em fevereiro de 2003, ele recebeu uma ligação do hospital francês de Hanói, no Vietnã. Um paciente gravemente doente havia chegado de Hong Kong. Antibióticos eram ineficazes. Médicos e enfermeiros do hospital estavam ficando doentes.

Urbani impôs uma quarentena ao hospital. Ele identificou o que se tornou conhecido como síndrome respiratória aguda grave, ou SARS, notificando a Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a nova doença altamente infecciosa que poderia facilmente se tornar uma pandemia. Ele convenceu o governo vietnamita a abordar o contágio de modo transparente e isso foi decisivo.

Graças às suas ações, Hanói foi poupada do pior, a propagação da doença foi contida em outros 16 países e a SARS foi controlada em 100 dias. Isso foi aclamado como a resposta mais eficaz a uma possível pandemia da história, mas o triunfo foi obscurecido pela de morte de Urbani por SARS um mês após o início do surto. Em meu romance, escolhi fazer da gripe o personagem central. A doença permanece não remediada, matando centenas de milhares de pessoas no mundo todos os anos.

Imaginei o que aconteceria se uma nova variedade de influenza surgisse, como a gripe espanhola de 1918, que matou pelo menos 50 milhões de pessoas. Na era moderna, com bilhões de pessoas viajando, se encontrando e fazendo compras, quão rapidamente uma doença dessas se disseminaria? Quantos morreriam? O que aconteceria com a economia, as lideranças políticas, a civilização? Quanto tempo se levaria para desenvolver uma vacina ou encontrar a cura? E o que seria necessário fazer para isso?

Tive a sorte de escrever The End of October, pois, para isso, consegui consultar alguns dos engenhosos e corajosos cientistas e profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate ao vírus muito real que nos ameaça hoje. É a eles que dediquei meu livro. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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