Kentaro Takahashi para The New York Times
Kentaro Takahashi para The New York Times

Romancista japonesa questiona pensamento convencional sobre as mulheres

Sayaka Murata escreveu sobre uma protagonista que vive feliz numa vida simples e sem sexo

Motoko Rich, The New York Times

10 Agosto 2018 | 15h30

TÓQUIO - Keiko, uma mulher de 36 anos que se recusa a esconder seu próprio lado estranho, trabalhou como caixa de uma loja de conveniências de Tóquio durante metade da sua vida, sem perspectivas. Mora sozinha e nunca se envolveu num relacionamento amoroso, nem mesmo fez sexo. E vive feliz do seu jeito.

A romancista japonesa Sayaka Murata, criadora da personagem, acredita que isso faz de Keiko uma verdadeira heroína.

“Keiko não se importa - ou talvez nem perceba - quando os outros caçoam dela", disse Sayaka, 38 anos, a respeito da narradora de “Convenience Store Woman” [Mulher da loja de conveniência], seu 10.º romance e o primeiro traduzido para o inglês. “Ela simplesmente não tinha interesse no sexo, e escolheu essa vida. Admiro o caráter dela.”

“Convenience Store Woman", que ganhou o prestigiado prêmio Akutagawa de literatura dois anos atrás e vendeu quase 600 mil exemplares no Japão, foi lançado em junho nos Estados Unidos. Escrito numa prosa que remete à linguagem oral, o volume de modestas dimensões se concentra numa personagem que, sob muitos aspectos, encarna um pânico demográfico no Japão.

A mídia japonesa está repleta de reportagens a respeito da queda no número de casamentos e da baixa natalidade, além de referências a ameaçadores levantamentos envolvendo jovens que são virgens ou abriram mão dos encontros amorosos e do sexo, uma narrativa que a mídia ocidental considera particularmente atraente ao escrever a respeito do Japão.

No romance, os amigos e parentes de Keiko vivem mortificados em nome dela, insistindo para que a jovem encontre um companheiro estável ou procure um emprego que lhe pareça mais recompensador. Keiko observa a ansiedade deles com curiosidade, sem compreender do que se trata.

Sayaka disse que pretendia escrever a partir da perspectiva de alguém que desafiasse o pensamento convencional, particularmente numa sociedade conformista na qual espera-se das pessoas que exerçam papéis pré-determinados.

“Eu queria ilustrar como são estranhas as pessoas que acreditam ser normais", disse Sayaka. “Elas se dizem normais, mas, ao invertermos a direção da câmera, são elas que parecem estranhas e esquisitas.”

Filha de um juiz e de uma dona de casa, Sayaka, que ainda mora com os pais, escreveu a partir de suas próprias experiências: trabalhou em diferentes lojas de conveniência ao longo de um período de quase 18 anos, desde a época em que ainda estava na faculdade.

“Quando estava na faculdade, eu era uma garota muito tímida", disse ela. “Mas, nas lojas, era instruída a erguer a voz e falar num tom alto e amistoso, o que fazia de mim uma pessoa ativa e animada nessas circunstâncias.”

Com o passar dos anos, ela optou por ficar no emprego porque os turnos a ajudavam a manter a disciplina na escrita.

Ela acordava às 2 da madrugada e escrevia até as 6, antes de começar o turno na loja de conveniência às 8 horas. Depois de sair do trabalho, às 13h, ela ia para um café e escrevia até voltar para casa, na hora do jantar. Gostava de escrever com o som das pessoas ao seu redor.

Cinco anos atrás, seu romance “Of Bones, of Body Heat, of the White-Colored City” [Dos ossos, do calor corporal, da cidade branca] rendeu-lhe o prêmio de literatura Yukio Mishima, mas foi somente no ano passado que ela decidiu abandonar o emprego formal para se concentrar integralmente na escrita.

Sayaka diz ter interesse em pessoas - especialmente mulheres - que não desejam o sexo; quer garantir a elas que não há nada de errado nisso.

Ela disse que, muito frequentemente, “sob o modelo conservador do sexo convencional, a mulher é simplesmente tratada como ferramenta ou objeto". Em vez disso, ela quer que as mulheres vivenciem um “sexo verdadeiro e intencional, que é algo maravilhoso".

A autora disse que seu próximo romance é protagonizado por outra mulher, não muito diferente de Keiko. “Ela não se encaixa", disse Sayaka. E não há problema nisso.

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