Ludovic Marin/Agence France-Presse
Ludovic Marin/Agence France-Presse

Romancistas questionam escolha de 'imortais' da Academia Francesa

Grupo, composto majoritariamente por homens com mais de 70 anos, enfrenta dificuldades para se adaptar às mudanças do século 21

Adam Nossiter, The New York Times

10 de março de 2019 | 06h00

PARIS - Balzac tentou, sem sucesso. Zola bateu à porta dúzias de vezes, e nunca foi aceito. Verlaine não recebeu nenhum voto. Hugo conseguiu entrar, mas foram necessárias múltiplas tentativas.

A augusta Academia Francesa - um clube de elite formado por 40 "imortais", como são conhecidos seus integrantes, que atua como guardião oficial do idioma francês - não aceita qualquer um. É tão exclusiva que a maioria dos maiores autores da França nunca foi aceita nela. Mas a sagrada tarefa de proteger a França do "mortífero esnobismo do anglo-americano", como rosnou um de seus integrantes em um discurso no mês passado, está se tornando mais difícil do que nunca.

Quatro vagas - concedidas em caráter vitalício - abriram desde dezembro de 2016. Os membros da academia já fizeram três votações, a mais recente delas em janeiro, e, nas três ocasiões, não foi possível formar uma maioria. Para alguns membros, o impasse reflete a situação da própria França - de um lado, uma França eterna determinada a se preservar, e, do outro, uma França que luta para se adaptar a um século 21 definido pela globalização, imigração e instabilidade social.

"Somos um reflexo da sociedade, e essa sociedade começa a se questionar", disse o romancista e integrante Amin Maalouf, nascido no Líbano.

Há também os que se queixam de que, para uma instituição conservadora ocupada por duas facções que se odeiam, a situação não poderia ser diferente. A academia existe desde 1634, fundada pelo cardeal Richelieu para promover e proteger a língua francesa, e não funciona com pressa.

A academia "é uma velha senhora muito sensível", disse um dos membros mais recentes, o autor canadense Dany Laferrière, nascido no Haiti.

Na verdade, a maioria dos integrantes é formada por senhores brancos. Há apenas cinco mulheres entre as fileiras, e Laferrière é o único negro. A média de idade era bem superior a 70 anos, segundo levantamento recente realizado pela mídia francesa.

É difícil adivinhar se a academia tem dificuldade para se diversificar, ou mesmo se deseja fazê-lo. As deliberações de seus integrantes, sob a redoma do Institut de France, construído no século 17, são misteriosas.

A atividade mais concreta da academia é atualizar o dicionário francês, coisa que ela vem fazendo desde o século 17. No mês passado, foram aprovadas versões femininas para cargos e títulos profissionais. Foi uma revolução para uma academia que há anos resiste a essa adaptação, já praticada amplamente na França. O idioma e a sociedade podem mudar, mas, para a academia, esse é um processo lento.

"A questão é: será que a academia deve defender seus princípios?", disse Laferrière. "Poderíamos preencher todos os assentos amanhã".

É improvável que isso ocorra. Não são os candidatos que escolhem a academia: é a academia que escolhe seus membros.

Mas alguns integrantes rejeitam o argumento segundo o qual tem sido impossível encontrar defensores dignos da língua da França. "É absurdo", disse o romancista Jean-Marie Rouart, membro desde 1997. "O que a França tinha de especial era o fato de todos se reconhecerem na literatura. Agora, temos que escrever para a universidade, ou para este e aquele grupo. É deplorável".

Ainda segundo Rouart, "A academia é um navio à deriva num mar seco".

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