Andrei Pungovschi para The New York Times
Andrei Pungovschi para The New York Times

Romeno declarado morto trava batalha para 'voltar à vida'

Um tribunal se recusou a revogar da certidão de óbito de Reliu Constantin, que desapareceu em 1999, quando, sem dizer à família, decidiu viver na Turquia

Kit Gillet, The New York Times

04 Abril 2018 | 15h00

BARLAD, ROMÊNIA - Reliu Constantin não aparecia em casa há quase 20 anos. Sua família não teve notícias dele ao longo de todo esse tempo, e ele não mandava nenhum dinheiro. Todos os esforços para localizá-lo na Turquia, onde ele tinha ido trabalhar, foram inúteis.

Nestas circunstâncias, parecia razoável que sua ex-mulher pedisse a um tribunal romeno que o declarasse legalmente morto, e uma certidão de óbito foi emitida em 2016. O único problema era que Constantin estava muito vivo.

Mas isso foi apenas o começo dos problemas de Constantin, como ele descobriu quando finalmente voltou para casa, em janeiro. Um tribunal romeno diferente no mês passado se recusou a revogar sua certidão de óbito, deixando-o no limbo entre a vida e a morte administrativa.

“Eu estou oficialmente morto. Não tenho renda”, disse ele, sentado em um bloco de apartamentos sujo da era comunista na cidade de Barlad. “Passo meus dias indo e voltando entre as agências governamentais, a delegacia de polícia e os tribunais. Eu tenho diabetes, mas sem documentos, não posso fazer um check-up médico".

Seu retorno à vida também foi difícil para amigos e familiares. Sua mãe foi hospitalizada por três dias após o choque de vê-lo. Sua filha Luiza, agora com quase 30 anos e vivendo na Espanha, censurou-o por estar ausente nos últimos 20 anos. “Você sabe o que eu passei? Eu tenho três filhos”, foi o que ela lhe disse.

Constantin voltou à Romênia em janeiro após ser deportado da Turquia, onde as autoridades descobriram que ele estava vivendo ilegalmente há quase duas décadas.

Ele tinha ido para a Turquia em 1992, inicialmente para trabalhar em um canteiro de obras e depois como cozinheiro. No início, ele voltava em intervalos de alguns meses e mandava dinheiro de volta para a esposa e a filha. Mas em 1999, durante uma visita, ele decidiu ir embora para sempre.

No relato de Constantin, seu casamento era amargo e infeliz, com infidelidade de ambos os lados. Durante a última visita, sua esposa estava bebendo muito e um homem apareceu à sua porta por volta da meia-noite. A mulher, que agora vive na Itália, não respondeu a repetidas tentativas de contato.

"Eu cortei os laços com todos porque eu não queria que eles me rastreassem", explicou Constantin. "Sabia que era difícil para minha filha, mas senti que seria melhor para ela". Mas foi somente em 2013, depois de não ter ouvido falar do marido por 14 anos, que a esposa de Constantin pediu a um tribunal que o declarasse morto.

Ao desembarcar na Romênia após 26 dias em detenção na Turquia, ele recebeu a notícia. “Foi no aeroporto de Bucareste”, contou. “Eu estava cercado por funcionários da alfândega. Eles disseram: ‘Você está morto’. Achei que eles estivessem brincando”.

Ele se considera "um fantasma vivo". "Minha rotina diária está sendo ficar por aí, fazer os curativos de minha mãe e checar com o tribunal se alguma coisa mudou", lamentou.

Como ele não pode trabalhar sem um documento de identidade, vive com doações de parentes. O advogado que o está ajudando gratuitamente, Cristian Calinita, disse que enviou os documentos necessários para Constantin. “Uma vez registrado, deve demorar cerca de duas semanas para ser resolvido”, disse Calinita.

Além de ser declarado vivo novamente, Constantin espera retornar à Turquia. "Quero ser enterrado na Turquia", disse ele. "Minha vida é lá."

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