Ania Shrimpton
Ania Shrimpton
Jim Farber, The New York Times

17 de fevereiro de 2019 | 05h00

Há quase cinco meses, quando o cantor e compositor britânico Sam Fender, 22 anos, lançou “Dead Boys", uma canção a respeito do suicídio de um amigo próximo, ele não imaginava que um tema tão sombrio ecoaria tão profundamente com o público. A canção, exorcizando o pesar dele numa torrente de cordas, batidas frenéticas e vocais assombrados, foi ouvida mais de 3,5 milhões de vezes no Spotify. Em dezembro, ele foi premiado com o Critics’ Choice 2019 Brit Award (o equivalente britânico ao Grammy).

Enquanto compunha a canção, Fender descobriu que 84 britânicos cometem suicídio toda semana; outro amigo se matou depois que ele gravou a música. Fender atribui a responsabilidade por essas mortes, em parte, a “um mundo no qual os homens têm a sensação de não poderem falar a respeito dos seus problemas, independentemente do quanto possam ser difíceis", disse ele. “Comecei a questionar todas as concepções arcaicas a respeito de como um homem deve ser.” Nos meses mais recentes, um número de roqueiros e rappers lançaram músicas que contrariam as concepções mais sufocantes do significado da masculinidade.

O novo álbum da banda brutalista britânica Idles, “Joy as an Act of Resistance", usa a masculinidade tóxica como tema recorrente. A obra ficou entre os 5 maiores sucessos na Grã-Bretanha. O Guardian o classificou na 6ª posição da sua lista de 50 melhores álbuns de 2018. A banda As It Is, de Brighton, Inglaterra, faz o estilo neo-emo e lançou um single em junho do ano passado, “The Stigma (Boys Don’t Cry)", atacando as restrições da masculinidade.

Esses homens, que se identificam todos como heterossexuais, dizem que suas composições são resultado do movimento #MeToo e dos debates em torno da identidade de gênero. “Todas as normas que vemos ao nosso redor nada têm de normais", disse Joe Talbot, 33 anos, vocalista dos Idles. “É tudo uma grande mentira.”

Em 2017, a mulher dele deu à luz uma bebê natimorta. “Foi a experiência mais traumática da minha vida", disse ele. “Mas eu me mantive afastado das minhas emoções. Pensei que fosse estoicismo, mas não passava de ignorância.” Foram necessários meses de terapia e a leitura do livro de Grayson Perry, “The Descent of Man”, lançado em 2016, antes que Talbot se dissesse capaz de “estabelecer um elo com os outros e se sentir menos solitário".

O rapper e ator britânico Jordan Stephens, 26 anos, passou por uma jornada parecida após o término abrupto de um relacionamento. “Nunca tinha experimentado uma perda de controle como aquela", disse Stephens. “Eu me vi chorando por causa de assuntos que nada tinham a ver com o término, coisas que mantive trancafiadas por anos, como a morte da minha avó.”

A experiência o levou a escrever um ensaio publicado em outubro no Guardian intitulado “A masculinidade tóxica está por toda parte; cabe a nós, homens, mudar isso”. O fato de a música ter se tornado o veículo usado por esses homens para explorar tais temas tem bons antecedentes. Astros transgressivos dos anos 1960, como Mick Jagger, e roqueiros da era glam dos anos 1970, como David Bowie, usaram a androginia para lutar contra as limitações de gênero.

Nos anos 1980, por meio do estilo musical hardcore, apresentações e palestras de confronto e um personagem machão, Henry Rollins, hoje com 57 anos, usou a virilidade para atacar a própria virilidade. Ele enxerga uma mudança significativa entre os músicos de hoje e os daquela época. “A carga de testosterona da cena musical é muito menor", disse ele.

Ainda assim, os roqueiros temem ser vistos como empreendendo uma tentativa de roubar os holofotes no debate das questões enfrentadas e denunciadas pelas mulheres. “Não quero de maneira nenhuma diminuir a luta dos demais quando falo dos dramas vividos por um homem heterossexual", disse Patty Walters, 27 anos, vocalista do As It Is. “Dito isso", completou ele, “a masculinidade tóxica é real".

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