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Por trás do sucesso global de ‘Round 6’, as preocupações econômicas de um país

O distópico sucesso da Netflix aborda as preocupações da Coreia do Sul sobre moradias caras e empregos escassos, preocupações familiares ao público americano e internacional

Jin Yu Young, the New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2021 | 05h00

Em Round 6, a série distópica de sucesso na Netflix, 456 pessoas enfrentando dívidas severas e desespero financeiro jogam uma série de jogos infantis mortais para ganhar um prêmio de US$ 38 milhões em dinheiro na Coreia do Sul.

Koo Yong-hyun, um funcionário administrativo de 35 anos em Seul, nunca teve que enfrentar guardas homicidas mascarados ou concorrentes que cortassem sua garganta como os personagens da série fazem. Mas Koo, que maratonou Round 6 em uma única noite, disse que tinha empatia pelos personagens e sua luta para sobreviver na sociedade profundamente desigual do país.

Koo, que sobreviveu graças a trabalhos esporádicos e pagamentos do seguro desemprego do governo depois de perder seu emprego estável, disse que é "quase impossível viver confortavelmente com o salário de um funcionário comum" em uma cidade com preços de habitação desenfreados. Como muitos jovens na Coreia do Sul e em outros lugares, Koo vê uma competição crescente para pegar uma fatia de uma torta que está encolhendo, assim como os concorrentes em Round 6.

Essas semelhanças ajudaram a transformar o drama de nove episódios em uma sensação internacional improvável. Round 6 é agora a série mais vista na Netflix nos Estados Unidos e está a caminho de se tornar uma das séries mais assistidas na história do serviço de streaming.

 "Há uma grande chance de se tornar a nossa maior série de todos os tempos", Ted Sarandos, co-presidente executivo da Netflix, disse em uma conferência de negócios recente.

Culturalmente, a série provocou uma busca online por seus visuais distintos, especialmente as máscaras pretas decoradas com quadrados e triângulos simples usadas pelos guardas anônimos e uma curiosidade global pelos jogos infantis coreanos que sustentam as competições mortais. As receitas de dalgona, um biscoito coreano açucarado no centro de um confronto especialmente tenso, viralizaram.

Como os livros e filmes de Jogos Vorazes, Round 6 prende seu público com seu tom violento, enredo cínico e - alerta de spoiler! - uma vontade de matar os personagens favoritos dos fãs. Mas também tocou em um ponto familiar para as pessoas nos Estados Unidos, Europa Ocidental e outros lugares:  a prosperidade nos chamados países ricos tornou-se cada vez mais difícil de alcançar à medida que as disparidades de riqueza aumentam e os preços das moradias ultrapassam os níveis acessíveis.

“As histórias e os problemas dos personagens são extremamente personalizados, mas também refletem os problemas e realidades da sociedade coreana”, Hwang Dong-hyuk, o criador da série, disse por e-mail.

 

Ele escreveu o roteiro em 2008 para um filme, quando muitas dessas tendências se tornaram evidentes, mas o reformulou para refletir novas preocupações, incluindo o impacto do coronavírus. (Minyoung Kim, chefe de conteúdo para a região Ásia-Pacífico da Netflix, disse que a empresa estava conversando com Hwang sobre a produção de uma segunda temporada.)

Round 6 é apenas o mais recente produto de exportação cultural sul-coreano a conquistar uma audiência global abordando os profundos sentimentos de desigualdade e falta de oportunidades do país. Parasita, o filme de 2019 que ganhou o prêmio de melhor filme no Oscar, colocou lado a lado uma família desesperada de vigaristas e membros alienados de uma família rica de Seul. Em Chamas, um sucesso de 2018, gerou tensão ao colocar um jovem entregador contra um rival abastado pela atenção de uma mulher.

A Coreia do Sul cresceu no período do pós-guerra, tornando-se um dos países mais ricos da Ásia e levando alguns economistas a chamar sua ascensão de “milagre no rio Han''. Mas a disparidade de riquezas piorou com a maturidade econômica.

À medida que as famílias sul-coreanas tentavam acompanhar o ritmo, a dívida delas aumentou, levando alguns economistas a alertar que a dívida poderia travar a economia. Os preços das moradias subiram a tal ponto que o acesso à habitação se tornou um tema político quente. Os preços em Seul subiram mais de 50% durante o mandato do presidente do país, Moon Jae-in, e levaram a um escândalo político.

Round 6 expõe a ironia entre a pressão social para ter sucesso na Coreia do Sul e a dificuldade de fazer exatamente isso, disse Shin Yeeun, que se formou na faculdade em janeiro de 2020, pouco antes da pandemia chegar.

Com 27 anos agora, ela disse que levou mais de um ano procurando por um emprego estável.

“Para as pessoas de 20 e poucos anos, é muito difícil achar um emprego integral atualmente,” ela disse.

A Coreia do Sul também sofreu uma queda brusca no número de nascimentos, gerada em parte por um sentimento entre os jovens de que criar filhos é muito caro.

“Na Coreia do Sul, todos os pais querem mandar seus filhos para as melhores escolas”, disse Shin. “Para fazer isso, você tem que morar nos melhores bairros.” Isso exigiria economizar dinheiro suficiente para comprar uma casa, um objetivo tão irreal "que nunca me preocupei em calcular quanto tempo vai levar", disse Shin.

Round 6 gira em torno de Seong Gi-hun, um viciado em jogos na casa dos 40 anos que não tem como comprar um presente de aniversário adequado para sua filha ou pagar as despesas médicas de sua mãe idosa. Um dia, ele tem a chance de participar do Round 6, um evento privado organizado para o entretenimento de pessoas ricas. Para ganhar o prêmio de US$ 38 milhões, os competidores devem passar por seis rodadas de jogos infantis tradicionais coreanos. Fracassar significa morrer.

Os 456 concorrentes falam diretamente a muitas ansiedades do país. Um deles é formado pela Universidade Nacional de Seul, a melhor do país, e é procurado pelo mal gerenciamento das finanças de seus clientes. Outra é uma desertora norte-coreana que precisa cuidar de seu irmão e ajudar sua mãe a escapar do Norte. Outro personagem é um trabalhador imigrante cujo patrão se recusa a pagar seu salário.

Os personagens ressoaram na juventude sul-coreana que não vê uma chance de progredir nessa sociedade. Conhecida localmente como a geração da “colher suja”, muitos são obcecados por maneiras de enriquecer rapidamente, como através de criptomoedas e loteria. A Coreia do Sul tem um dos maiores mercados de moeda virtual do mundo.

Como o prêmio em dinheiro na série, as criptomoedas dão “às pessoas a chance de mudar suas vidas em um segundo”, disse Koo, o funcionário administrativo. Koo, cujo empregador anterior fechou durante a pandemia, disse que a dificuldade de ganhar dinheiro é um dos motivos pelos quais os sul-coreanos são tão obcecados em fazer dinheiro rápido.

“Fico pensando quantas pessoas participariam se ‘Round 6’ existisse na vida real,” ele disse. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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