FOTOS de Andrew Esiebo para The New York Times
FOTOS de Andrew Esiebo para The New York Times

Roupas doadas na África viram moda cara na Europa

Maior parte das peças vintage do Marché Noir vem de doações

Allyn Gaestel, The New York Times

20 Setembro 2018 | 10h15

LOMÉ, Togo - A maioria das lojas físicas, de tijolos e argamassa, no Grand Marché de Hedzranawoe, está fechada, mas as butiques de compensado são extremamente numerosas na esplanada, com seus corredores ladrilhados. Vestidos, cuecas boxer, gravatas, macacões e protetores de ouvido estão pendurados em varões, como cortinas em exposição.

Um dia, em março, Amah Ayivi, designer e comerciante de roupas, procurava alguma coisa nas pilhas de jardineiras com suas mãos carregadas de anéis. “Você pode vasculhar no meio disso tudo e tirar apenas uma coisa, ou nada, ou então vinte coisas”, falou entre os gritos dos camelôs.

Ayivi procurava “uns lápis coloridos de boa qualidade e material escolar antigo” que mais tarde enviaria para Paris e venderia como mercadoria vintage com sua própria marca, Marché Noir.

O mercado de Hedzranawoe, aberto seis dias por semana, é um entreposto de roupa usada de Lomé. A mercadoria vem em geral da Europa. Em 2016, Togo importou roupas de segunda mão no valor de 54 milhões de dólares, segundo o Observatório da Complexidade Econômica. Grande parte destes itens vem de doações. 

Quando a mercadoria chega, é selecionada, novamente embalada e vendida em fardos.

Mas se, por um lado, as importações forneçam roupa a preços acessíveis para consumidores pobres, por outro prejudicam as indústrias têxteis locais. No ano passado, a Comunidade da África Oriental, organização que abrange seis países, taxou com tarifas elevadas as importações de roupas usadas com a finalidade de proibi-las até 2019.

O intuito da organização era proteger e promover as indústrias têxteis locais. O Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos ameaçou excluir os países da Lei de Oportunidade e Crescimento para a África se não retirasse as tarifas. Somente Ruanda manteve as restrições, e em março os EUA anunciaram que suspenderiam o país do acordo do comércio.

A Nigéria proibiu há muito tempo as importações de roupas de segunda mão. Mas isto só contribuiu para desviar a demanda. A roupa usada é contrabandeada para a Nigéria, e em Lomé, os nigerianos dominam o setor de revenda. Victor Chukwu, um nigeriano que trabalha em Togo desde 1983, tem uma butique no mercado e um depósito nas proximidades. “A moda está sempre trazendo de volta as coisas antigas”, observou.

A Marché Noir inclui peças vintage, artesanato africano e criações originais para homens e mulheres. 

Para as mulheres, Ayivi seleciona vestidos e saias de seda autêntica. Para os homens, ele tem uma queda por uniformes: militares, roupa de trabalho e jeans, nos quais às vezes imprime o seu logotipo.

“Antes era Marché Noir Paris, agora é Lomé-Paris”, disse Ayivi. “Mudei porque, como  estou trabalhando bastante aqui, quero manter a identidade africana”. É de Lomé que vem a grande maioria de suas roupas vintage - até as francesas. Mas ele ganha dinheiro na França.

Ayivi define sua participação na moda como um comentário sobre consumismo. “A moda é muito rápida”, afirmou. “Produz em excesso. Precisamos pensar como criar um estilo com aquilo a gente tem.“

As roupas que ele leva de volta para a Europa tornam visíveis os caminhos que o vestuário percorre depois de descartado. “Eu as levo de volta para provar, para mostrar que a indústria da moda é exagerada, vai longe demais”.

O modelo de negócio do Marché Noir se alimenta desta superprodução. As roupas são baratas onde Ayivi as compra. O valor das peças muda com a mudança de contexto.

Em Lomé, os macacões vintage que ele procura são datados, fora de moda. Em Paris, eles são modernos e elegantes. As roupas de Ayivi procedentes do mundo inteiro refletem uma vida vivida entre países.

“Na África, encontro grande parte do estilo nas ruas”, ele disse. “As crianças nas ruas, as mulheres que vendem peixe, eles têm este toque de estilo que não se encontra em nenhum outro lugar. Isto é uma inspiração para nós”. Ayivi chama a isto “estética afro”.

A recuperação da vestimenta africana tradicional no design contemporâneo é um movimento crescente em todo o continente e na diáspora. Maki Oh é uma estilista nigeriana de sucesso que incorpora em sua linha técnicas de tingimento tradicionais. MaXhosa de Laduma é uma marca sul-africana que está fazendo um trabalho semelhante incorporando a estética tradicional em tricô.

“Quero trazê-lo aqui na Europa”, disse Ayivi. “Em dois anos, quero que esteja em toda parte, em cada revista, na rua”.

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