Leo Francini/Alamy
Leo Francini/Alamy

Ruído emitido por embarcações ameaça vida marinha

Segundo especialistas, as ondas sonoras prejudicam a nutrição, reprodução e comportamento social dos animais

Jim Robbins, The New York Times

01 de fevereiro de 2019 | 06h00

Navios pesados e lentos cruzam constantemente os oceanos, com capacidade para disparar de 12 a 48 tiros com canhões de ar pressurizado nas profundezas marinhas. As ondas de som atingem o leito oceânico, penetram quilômetros adentro e ricocheteiam na superfície, onde são captados por hidrofones. 

Os padrões acústicos formam um mapa tridimensional do local onde é mais provável encontrar petróleo e gás. Os canhões de ar sísmicos produzem o ruído mais alto que os homens usam normalmente debaixo d’água.

"Eles disparam aproximadamente a cada dez segundos, 24 horas por dia, meses a fio", disse Douglas Nowacek, professor da Duke University da Carolina do Norte. "Já foram detectados a 4 mil quilômetros de distância. São impactos enormes."

Os testes sônicos são o exemplo mais recente citado pelos ambientalistas, entre outros, do crescente problema representado pelo ruído nos oceanos.

Alguns cientistas afirmam que o barulho dos canhões de ar, do sonar dos navios e do tráfego dos petroleiros em geral provoca a morte gradativa, quando não direta, das criaturas marinhas, desde as gigantescas até as menores - baleias, golfinhos, peixes, lulas, polvos e até mesmo o plâncton.

Outros efeitos são a redução da audição dos animais, hemorragias cerebrais e comprometimento dos sons para a comunicação, que são importantes para a sobrevivência. Os especialistas temem que o ruído esteja comprometendo o ecossistema marinho, diminuindo as populações de determinadas espécies, porque os níveis de som perturbam a nutrição, a reprodução e o comportamento social.

Um estudo de 2017 constatou que uma forte explosão, menor do que a de um canhão de ar sísmico, matou cerca de dois terços do zooplâncton a um quilômetro de distância. "Os pesquisadores notaram uma completa ausência da vida ao redor do canhão de ar", afirmou Michael Jasny, do Natural Resources Defense Council, uma organização ambiental.

Calcula-se que cada disparo sísmico de canhões de ar atinge até 260 decibéis, igual a cerca de 200 decibéis na atmosfera. Os navios que transportam contêineres produzem sons de até 190 decibéis - o equivalente a 130 na atmosfera. (O lançamento de uma nave espacial atinge cerca de 160 decibéis para os que se encontram em suas proximidades.)

Como a água é mais densa do que o ar, o som viaja nela a uma velocidade cerca de quatro vezes maior e vai muito mais longe do que na sua superfície. Christopher Clark, um pesquisador do Cornell Lab of Ornothology, de Ithaca, Nova York, descreveu o ruído como o "próprio inferno" para a vida marinha.

As companhias de prospecção de petróleo ao largo da costa nos Estados Unidos discordam sistematicamente das reclamações de dano e afirmam que os efeitos do ruído podem ser mantidos a um mínimo mediante uma cuidadosa monitoração e a interrupção da exploração, quando são avistadas espécies, como as baleias francas do Atlântico Norte, ameaçadas de extinção.

Hoje, não vivem mais do que 500 baleias francas migratórias no Golfo de Maine. Esta espécie já está enfraquecida e estressada pelo aumento da temperatura do oceano. A sua reprodução foi drasticamente reduzida. E o ruído sísmico pode mascarar os sons dos navios, provocando colisões.

"Stress crônico prolongado de qualquer tipo é ruim, porque desvia os recursos da reprodução", afirmou o dr. Nowacek. "Ele pressiona as glândulas suprarrenais a produzir adrenalina e hormônios de stress, causando perda de peso e imunossupressão."

A comunicação acústica é fundamental no ecossistema marinho, onde a visibilidade é tão limitada. Muitas espécies de baleias se comunicam com ruídos como cliques, lamentos e cantos. Os sons dos navios que transportam contêineres e dos sonares também são um problema para a vida marinha.

Como o número de navios vem aumentando nos últimos anos, a cavitação, o ruído provocado pelo colapso das bolhas de ar criadas pela hélice de um navio, bem como o estrondo dos seus motores, são outro problema.

O ruído mascara as expressões das baleias entre famílias, o que pode afetar a orientação, a nutrição, o cuidado dos filhotes, a detecção da presa e até o aumento da agressão. O ruído já prejudica 80% da comunicação de algumas espécies de baleias.

Cerca de 20 mil espécies de peixes conhecidas podem ouvir, e cerca de 800 espécies produzem sons para caçar e acasalar. Um peixe, o porichthys notatus, por exemplo, canta para as fêmeas para se acasalar e defende os ninhos com sons semelhantes a latidos.

O ruído do oceano também pode ter consequências econômicas. Pesquisas na Noruega mostram que os pescadores comerciais retornam às docas com 40% a 80% menos peixe quando há prospecção nas proximidades.

As regulamentações são escassas, e os especialistas buscam soluções. A ONU realizou recentemente um simpósio de uma semana de duração sobre a poluição sonora. Por outro lado, tem havido iniciativas voluntárias. O Porto de Vancouver pede aos navegantes que reduzam a velocidade dos navios e melhorem a cavitação das suas hélices.

"Os efeitos nos mamíferos marinhos são sentidos em uma escala extraordinariamente ampla", afirmou Jasny. "Um ruído alto tem consequências para as espécies de toda a rede alimentar."

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