Paulson Des Brisay via The New York Times
Paulson Des Brisay via The New York Times

Ruídos da atividade humana podem alterar canto dos pássaros

Pássaros próximos a campos de petróleo, por exemplo, ajustam seus cantos de acasalamento para se adaptar às mudanças em seu habitat

Hiroko Tabuchi, The New York Times

07 Abril 2018 | 11h00

Se um pardal canta seu amor em um campo de petróleo, mas seu alvo em potencial não consegue ouvi-lo devido ao barulho das bombas parafuso, o que lhe resta fazer?

Em Alberta, no Canadá, pesquisadores analisaram centenas de horas de cantos de amor de pardais de Savannah e descobriram algo extraordinário: para serem ouvidas acima dos ruídos, as aves estão mudando suas entoações de maneiras complexas que os cientistas estão apenas começando a entender.

"Elas estão adaptando suas melodias dependendo de qual parte de sua mensagem é a mais afetada," disse Miyako Warrington, bióloga da Universidade de Manitoba que liderou um recente estudo sobre como os pardais lidam com o barulho da infraestrutura de petróleo e gás que marca a paisagem do Canadá. "Isso parece mostrar um complexo nível de adaptação. Não é só todo mundo falando mais alto."

Miyako faz parte do crescente número de estudiosos que investigam os ruídos gerados pela atividade humana - furadeiras, turbinas, motores a jato - e como eles afetam o mundo natural.

A mineração nas margens da floresta tropical brasileira está prejudicando os gritos dos macacos titi locais, apontou estudo no ano passado. Baleias e golfinhos são conhecidos por serem particularmente vulneráveis aos ruídos dos motores de navios e perfurações em alto-mar, que podem atrapalhar as formas complexas com que se comunicam.

E os humanos não estão imunes ao barulho. Epidemiologistas associaram o barulho do trânsito a doenças cardiovasculares e a outras enfermidades.

Os estudiosos notam há muito tempo que as aves da cidade soam diferentes de seus pares do campo. Mas Miyako queria entender como os pássaros selvagens se adaptam às bombas e às perfurações que o desenvolvimento em óleo e gás trouxe para a América do Norte.

Sua equipe se concentrou no chamado de acasalamento do pardal macho de Savannah. Antes eles eram comumente encontrados nas pastagens da América do Norte, mas as populações de pardais de Savannah estão em declínio à medida que seu habitat diminui.

Num ambiente calmo, o canto do pardal macho é uma sequência de stacatos brincalhões, seguida por um zumbido gutural e um trinado final e triunfante.

Na presença da bomba de sucção, o pardal não só adapta a seção intermediária de seu canto como também baixa o tom das notas de abertura. Miyako teoriza que a primeira seção é onde o canto se sobrepõe com os ruídos da bomba, que diminuir o tom melhora as chances de que o motivo de abertura não seja abafado.

Para entender melhor um padrão geral de mudanças, a equipe de pesquisa rastreou e registrou 73 pardais de Savannah em 26 locais a 200 quilômetros da cidade de Brooks, no coração do campo petrolífero do Canadá.

A equipe descobriu que as aves alteraram seu canto quando estavam perto de bombas de parafuso com gerador - o mais barulhento dos quatro tipos de infraestrutura de petróleo estudados. A diferença mais comum foi no tom e nas notas de abertura e partes de zumbido de suas melodias, mas o conteúdo delas não mudou.

Miyako e outros estão agora observando como as mudanças nas melodias podem afetar as chances reprodutivas de uma ave. Pesquisas separadas sobre pássaros azuis de montanha e papa-moscas cinzentos no Novo México mostraram sinais de estresse crônico em aves expostas a ruídos constantes da infraestrutura de petróleo e gás.

Em um sinal encorajador, um estudo de acompanhamento do comportamento de acasalamento das fêmeas dos pardais - chamados recíprocos, movimentos de asa de paquera - mostrou que os pássaros machos podem estar conseguindo seduzir as fêmeas com suas melodias modificadas.

"Estávamos preocupados que, mudando de tom, pássaros que soavam como, digamos, George Clooney soassem como Bart Simpson, e isso poderia significar que as fêmeas nunca viriam. Mas o que você espera é que, diante do barulho, você mude sua voz, e ainda é bom", disse Miyako.

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