Takeshi Inomata
Takeshi Inomata

Descobrindo ruínas maias por meio de mapas públicos online

Os 27 sítios identificados pelo arqueólogo Takeshi Inomata são construções cerimoniais que os cientistas nunca haviam visto anteriormente

Zach Zorich, The New York Times

21 de outubro de 2019 | 06h00

Até pouco tempo atrás, a arqueologia se limitava ao que um pesquisador podia enxergar no chão. Mas a tecnologia lidar (Light Detection and Ranging) transformou este campo, oferecendo a possibilidade de explorar regiões inteiras de sítios arqueológicos.

Com uma variedade de lasers aéreos, os pesquisadores agora podem visualizar através das copas de densas florestas ou distinguir as formas de antigos edifícios para descobrir e mapear antigos sítios por milhares de quilômetros quadrados. Um processo que outrora exigia expedições para o mapeamento que duravam dezenas de anos, e penosos deslocamentos pelas florestas com equipamento de pesquisa, já é feito em questão de dias no relativo conforto de um avião.

Mas os mapas com a tecnologia lidar são dispendiosos. Takeshi Inomata, arqueólogo da Universidade de Arizona, gastou recentemente US$ 62 mil por um mapa que cobria 90 quilômetros quadrados e que foi em grande parte desconsiderado. Ele ficou entusiasmado, no ano passado, quando fez uma importante descoberta usando um mapa gratuito lidar que encontrou online, de domínio público.

O mapa, publicado em 2011 pelo Instituto Nacional de Estatística e Geografia do México, que cobria 11.500 quilômetros quadrados nos estados de Tabasco e Chiapas, foi elaborado como parte da missão do instituto de criar mapas precisos usados por empresas e pesquisadores.

Inomata soube do mapa pelo arqueólogo Roberto Liendo, da Universidade Nacional Autônoma do México. A resolução era baixa. Mas os contornos de inúmeros sítios se destacaram. Até agora, ele permitiu identificar as ruínas de 27 centros cerimoniais maias antes desconhecidos, com um tipo de construção que os arqueólogo não  haviam visto ainda. Estes sítios podem  conter indicações sobre as origens da civilização maia. “É possível perceber um quadro muito melhor de toda uma sociedade”, afirmou o cientista. As descobertas ainda não foram para a revisão dos pares.

Civilização maia

A civilização maia surgiu entre os anos 1000 AC e 400 AC. Quando Inomata começou a estudar os maias na universidadem nos anos 80, os seus professores estavam interessados principalmente no período clássico, entre 250 DC e 900 DC. No auge da visão política e da economia maia. Ele estava mais preocupado com o surgimento da cultura maia, e os artefatos que poderiam responder às suas indagações estavam enterrados ainda mais fundo no solo.

Em 2005, ele e a esposa, Daniela Triadan, antropóloga da Universidade de Arizona, começaram as escavações da cidade antiga de Ceibal, na floresta de Petén, na Guatemala, onde descobriram alguns dos primitivos edifícios maias. O centro cerimonial da cidade data de 950 AC, mas Ceibal não tinha habitações permanentes até 200 anos mais tarde.

Triadan e Inomata acreditam que os maias primitivos provavelmente ainda levavam um estilo de vida migratório, e iam a Ceibal para fins religiosos. Como se deu a transição para a construção de grandes cidades, e que papel teve a civilização olmeca, que antecedeu a dos são as grandes questões às quais os dois pesquisadores pretendem responder.

Artefatos de estilo olmeca foram encontrados entre os primeiros edifícios em Ceibal, o que indica que a civilização maia foi influenciada pelos olmecas desde o início. “A relação entre maias e olmecas está nas origens da civilização mesoamericana como um todo”, explicou Inomata.

O poder no Estado olmeca estava concentrado nas mãos de um único governante; as famosas cabeças de pedra olmecas, esculpidas em enormes pedras, podem ter sido retratos dos seus reis. Menos conhecidos são os primeiros governantes maias, porque eles só passaram a glorificar os reis com monumentos muito mais tarde. Os maias e os olmecas também criaram uma linguagem única e estilos arquitetônicos e artísticos próprios.

Decoberta

Os 27 sítios identificados por Inomata eram construções cerimoniais que os cientistas nunca haviam visto anteriormente – plataformas retangulares baixas, mas extremamente largas, algumas com um quilômetro de comprimento. “Caminhando sobre elas não é possível perceber”, disse o pesquisador referindo-se às plataformas. “São tão grandes que parecem fazer parte da paisagem natural”.

As semelhanças entre estes sítios e os edifícios primitivos encontrados em Ceibal os levaram a acreditar que ambos datam de um período entre o ano 1000 AC, e 700 AC. “A quantidade de trabalho necessário é espantosa”, compartilhou Triadan. “A quantidade de terra retirada é inacreditável”.

Marcello Canuto, pesquisador da Universidade Tulane, em Nova Orleans, foi o principal autor de uma pesquisa com lidar que cobriu dois mil quilômetros quadrados da floresta de Petén, na Guatemala. Ele também  chefia uma escavação da cidade maia de La Corona. Ao ver as margens da cidade e os edifícios entre as cidades, ficou chocado. “Quando começamos a olhar no lidar, nos sentimos totalmente ‘diminuídos’”, frisou. “Nós nos sentimos diminuídos por nos mostrar o que nós havíamos perdido”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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