Sergey Ponomarev para The New York Times
Sergey Ponomarev para The New York Times

Governo russo articula influência política na África

Moscou está pronto para se envolver com países africanos em termos mutuamente benéficos

Anton Troianovski, The New York Times

07 de novembro de 2019 | 06h00

SOCHI, RÚSSIA - José Matemulane afirmou que deixou Moçambique, sua terra natal, há quase duas décadas, passou anos estudando em São Petersburgo e entrou em contato com a alma russa. Agora, ele acompanha a vanguarda da investida da Rússia em seu continente de origem, espalhando o boato segundo o qual trabalhar com Moscou para reduzir a influência dos americanos e outros ocidentais seria do interesse da África.

“Os russos têm sua maneira própria de pensar, diferente dos padrões do Ocidente”, afirmou Matemulane. A Rússia começou a articular silenciosamente uma discreta infraestrutura de influência política na África, que ressoa com a estratégia do Kremlin em relação a Europa e Estados Unidos.

Acionando o canal de televisão RT e a agência de notícias Sputnik, seus recursos de propaganda internacional, o Kremlin está martelando na seguinte tecla: enquanto a Europa Ocidental e os EUA dão continuidade a séculos de tradição explorando a África, Moscou está pronto para se envolver com a África em termos mutuamente benéficos.

Matemulane administra um instituto de pesquisas chamado Afric, descrito no próprio website como um organismo “financiado por doadores que compartilham a paixão em comum de fomentar o desenvolvimento da África”, sem mencionar a Rússia. Em entrevista, porém, Matemulane afirmou que a organização foi inaugurada no ano passado com apoio de um empresário de São Petersburgo, que ele se recusou a identificar.

Em uma cúpula que reuniu dezenas de líderes africanos, recebidos pelo presidente russo, Vladimir Putin, no balneário de Sochi, no Mar Negro, no mês passado, o Afric anunciou que estabeleceria uma parceria com um especialista russo em propaganda que anteriormente dedicava sua atenção aos EUA.

Talvez o mais proeminente personagem no esforço da Rússia na direção da África seja Yevgeny V. Prigozhin, o empresário de São Petersburgo indiciado pelos EUA por administrar a “fazenda de trolls” online que buscou influenciar as eleições presidenciais americanas de 2016. Diz-se que ele controla uma empresa terceirizada de segurança militar que presta serviço a vários países africanos.

Outra figura é Konstantin Malofeev, um banqueiro nacionalista sancionado pelas autoridades americanas que tem estreitado laços com políticos da extrema direita europeia e americana - e também com separatistas pró-Rússia no leste da Ucrânia. Prigozhin não apareceu em público durante a conferência, mas Malofeev mostrou uma agência que promete ajudar governos africanos a ter acesso a financiamentos, uma alternativa a fontes ocidentais como o Fundo Monetário Internacional.

Malofeev descreveu a nova organização, chamada Agência Internacional para Desenvolvimento Soberano, como um mecanismo econômico para romper a ordem mundial ocidental. Níger, Guiné e República Democrática do Congo já aceitaram a ajuda da agência para captar um total de US$ 2,5 bilhões, afirmou ele.

“O sistema ocidental está falido”, afirmou Clifton Ellis, que tem nacionalidade britânica e jamaicana e se mudou para São Petersburgo recentemente, onde ajuda a coordenar as atividades do Afric. “Temos que combater a narrativa que classifica automaticamente como negativo qualquer tipo de envolvimento russo.”

O Afric - sigla em inglês para Associação para Livre Pesquisa e Cooperação Internacional - está constituindo laços com políticos africanos e analistas, enquanto publica artigos que exaltam os benefícios da cooperação com a Rússia. O instituto também investiu pesado em missões de monitoramento de eleições que espelham a abordagem da Rússia em relação às suas próprias votações: trazer ao país estrangeiros simpáticos que louvem a imparcialidade e a transparência dos pleitos, mesmo que reconhecidas organizações ocidentais os critiquem.

Líderes africanos têm se atentado para a crescente influência da Rússia no Oriente Médio como um sinal de que Moscou estaria se tornando um ator geopolítico mais poderoso. Mahmoud Ali Youssouf, ministro das relações exteriores do Djibouti, apontou países que ele considera prejudicados em razão de políticas ocidentais equivocadas: Iraque, Afeganistão, Síria e Líbano. “Por que não deveríamos tentar uma nova abordagem? Uma nova mensagem?”, afirmou Youssouf. “Talvez a Rússia seja a alternativa.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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