Maxim Babenko para The New York Times
Maxim Babenko para The New York Times

Rússia constrói usina nuclear flutuante

Críticos afirmam que a instalação, ancorada em Murmansk, seria um convite a desastres

Andrew E. Kramer, The New York Times

15 Setembro 2018 | 10h45

MURMANSK, RÚSSIA - Ao longo das praias da Baía de Kola, no extremo noroeste da Rússia, ficam as bases dos submarinos nucleares e navios quebra-gelo do país.

Neste lugar, a Rússia está realizando experimentos com energia nuclear, num projeto cujos defensores descrevem como grande feito da engenharia, mas cujos críticos apontam como um convite ao desastre. O país está apresentando uma usina nuclear flutuante.

Ancorada em Murmansk, a Akademik Lomonosov, instalação flutuante composta por dois reatores em miniatura de um tipo usando anteriormente em submarinos, por enquanto, é a única do seu tipo. Duas empresas na China estão construindo instalações desse tipo, e cientistas americanos também elaboraram seus planos. Os defensores desses projetos dizem que são mais baratos, limpos e seguros. Imaginam um futuro com reatores nucleares flutuantes ancorados perto de algumas das maiores cidades do mundo.

O projeto russo envolve o uso de reatores semelhantes aos de submarinos, montados em embarcações, com uma estrutura na proa para conectá-los à rede elétrica local. Os reatores vão gerar 70 megawatts de eletricidade, o suficiente para abastecer cerca de 70 mil lares típicos. A empresa nuclear estatal russa, Rosatom, planeja produzir essas usinas flutuantes em série e explora a ideia de ficar com a propriedade dos reatores, vendendo a energia gerada por eles.

A pesada estrutura retangular se assemelha a uma grande loja, apresentando um emblema nuclear na lateral. Do lado de dentro, o reator flutuante é um labirinto de corredores estreitos, escadarias íngremes, tubulações e fios, além de uma piscina, uma quadra de squash, uma academia de ginástica e um bar para os funcionários.

As autoridades esperam rebocar a usina até cidades costeiras que precisem de energia, seja para um complemento no curto prazo ou um incremento de longo prazo na capacidade elétrica. A unidade é capaz de transportar urânio enriquecido em quantidade suficiente para alimentar os dois reatores por 12 anos, antes de serem rebocada de volta à Rússia, onde o lixo radiativo será processado.

Surpreendentemente, a ideia de usinas flutuantes de energia ganhou apoio após o tsunami de 2011 no Japão. Nesse desastre, a usina nuclear de Fukushima ficou gravemente danificada com a inundação dos geradores de reserva movidos a diesel, que deveriam manter a usina resfriada em caso de um desligamento de emergência.

Os defensores da ideia dizem que, no mar, um reator flutuante sobreviveria às ondas de um tsunami. E, em caso de necessidade de um desligamento de emergência, seria mantido o acesso ao resfriamento, algo mais fácil de fazer quando a unidade já se encontra na água, sem depender de bombas. A Rosatom insistiu que sua usina é "invulnerável a tsunamis".

A Rosatom não revelou o custo do reator, nem os países que estariam interessados no projeto. A empresa calcula que cada usina flutuante será construída em quatro anos, prazo mais curto que os dez anos de muitas usinas nucleares convencionais.

Mas alguns grupos ambientais receberam a ideia com ceticismo. Não parecem convencidos pelas garantias de segurança da Rosatom. Os críticos temem a possibilidade de, durante um tsunami, a estrutura de aço de 19 mil toneladas não acompanhar a ondulação. Eles dizem que, na pior das hipóteses, a usina seria, em vez disso, arrancada do ancoradouro e arremessada contra o continente, arrasando edifícios até finalmente atolar em algum lugar muito distante da fonte de resfriamento dos dois reatores ativos, possivelmente expostos.

Em tal eventualidade, a Rosatom diz que um sistema reserva de resfriamento e energia impediria o derretimento dos reatores, ao menos pelas primeiras 24 horas.

A Rússia também é dona de um histórico de vazamentos e acidentes envolvendo submarinos nucleares e navios quebra-gelo operados pela marinha soviética e, posteriormente, russa.

Para Matthew McKinzie, diretor do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, de Washington, "a questão é: será que os cientistas da Rússia ficariam tranquilos pensando em algo desse tipo estacionado no porto de uma grande cidade?".

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