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Rússia e Cuba podem acabar com catástrofe venezuelana

Estados Unidos devem pressionar países nos esforços para depor Maduro, diz professor

Jorge G. Castañeda, The New York Times

25 de maio de 2019 | 06h00

Uma tentativa fracassada de levante militar na Venezuela em 30 de abril é o mais recente capítulo da lenta marcha do país rumo à catástrofe. A situação tem agora implicações internacionais mais amplas. A Rússia se tornou uma participante de peso no drama. A Venezuela estava na pauta quando Mike Pompeo, secretário de estado dos Estados Unidos, conversou com seu equivalente russo em Moscou no mês de março, quando se encontraram em Helsinque no início desse mês e, mais recentemente, em Sochi.

O presidente Donald Trump debateu a situação venezuelana com o presidente russo Vladimir Putin no dia 3 de maio. Nada parece ter resultado dessas conversas. mas está claro que há diferenças gritantes entre as posições de cada um desses governos, e os russos se mostram cada vez mais conscientes do quanto Washington se importa com o tema.

No mês passado, a Rússia enviou cerca de 100 prestadores de serviços militares privados a Caracas. O país continua vendendo armas ao governo de Nicolás Maduro, e o defende nas Nações Unidas. Seus amigos em Cuba jazem à espreita na Venezuela há anos e agora desempenham um papel mais crucial do que antes, provavelmente incentivados pela Rússia.

O governo Trump tem razão em conversar com os cubanos na busca por uma solução para o impasse político na Venezuela. Mas, se esses canais falharem, o caminho estará aberto para uma maior participação russa. O que quer Trump com Rússia, Cuba e Venezuela, afinal?

O senador republicano Marco Rubio, da Flórida, provavelmente preferiria esquecer a Venezuela e se concentrar na derrubada do regime cubano de Raúl Castro, líder do Partido Comunista. Trump pode estar preocupado apenas em conquistar os votos da Flórida em 2020; o eleitorado cubano e venezuelano no estado pode ser crucial para garantir a vitória nesse estado.

O governo americano deve continuar aplicando pressão a Cuba, e então indicar a Moscou e Havana que esta pode ser aliviada se o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, e Castro ajudarem a solucionar a crise na Venezuela. Talvez Cuba não tenha muita escolha, especialmente se a Rússia for seduzida a empurrá-la nessa direção. Pela primeira vez desde a aprovação do seção III da Ata Helms-Burton, em 1996, o governo Trump está permitindo que cidadãos americanos busquem nos tribunais federais compensação pelas propriedades confiscadas pelo governo de Fidel Castro.

Ainda que não seja provável a recuperação de ativos perdidos no futuro próximo, investidores americanos, europeus, canadenses e latino-americanos que têm dinheiro em Cuba e usam propriedades confiscadas também podem ser processados, ou ter revogado seu visto americano. Já foram movidos processos contra a Carnival Cruise Lines.

Trump também anunciou restrições mais rigorosas aos americanos em viagem a Cuba, e limitou a remessa de divisas a US$ 1 mil por pessoa, por trimestre. A ilha produz muito pouco e não dispõe de recursos para gastar com importações. Somadas, as medidas vão afetar a situação econômica já adversa enfrentada pelo país - redução nos carregamentos de petróleo da Venezuela, queda acentuada no turismo americano, e uma desaceleração generalizada no investimento estrangeiro.

Em abril, Castro alertou para a possibilidade de dificuldades econômicas. Ele garantiu que o país não passaria por outro “período especial", como na época do colapso da União Soviética nos anos 1990, mas ninguém pareceu confortado com isso. Na linguagem dos Castro, quando se diz que algo não vai acontecer, é muito provável que aconteça.

No início de maio, ovos, frango e carne de porco eram objeto de racionamento, com o país enfrentando dificuldades com a escassez de gêneros básicos. Se a situação persistir, o governo pode enfrentar protestos pela primeira vez desde o colapso da União Soviética, em 1991. Talvez a Rússia prefira concentrar seus esforços na salvação de Cuba, em vez de defender simultaneamente a Venezuela.

Três motivos são citados para explicar o crescente envolvimento da Rússia na Venezuela. Primeiro, proteger os mais de US$ 60 bilhões que diferentes entidades venezuelanas devem aos bancos russos. É possível que um governo pós-Maduro não reconheça essas dívidas.

Segundo, Putin está desrespeitando os EUA ao ser inconveniente no quintal americano, em uma resposta proporcional ao que Moscou considera a interferência da Otan em assuntos do Leste Europeu. Por último, e talvez mais importante, a Rússia espera projetar seu poder em uma região que os americanos consideram parte de sua esfera de influência.

A Rússia manteve laços de proximidade com Havana por 60 anos, desde a época em que Nikita Khrushchev era líder da União Soviética. Ao oferecer empréstimos a Argentina, Bolívia e Equador, Putin tenta expandir a influência da Rússia na região. Trump deve seguir pressionando Cuba a juntar-se aos esforços para depor Maduro.

O país pode desempenhar um papel crucial ao garantir a ele um refúgio e participar das negociações para garantir uma transição democrática, com a libertação de todos os presos políticos e a participação de todos os líderes da oposição em eleições livres e justas para cargos públicos, restabelecendo a liberdade de imprensa e associação, e reduzindo de forma gradual e pacífica sua presença na Venezuela. Trump deve conversar com a Rússia para que o país convença os cubanos a seguir esse rumo. E ele deve ter em mente que, no fim das contas, é impossível aplicar a abordagem da cenoura e do porrete sem uma cenoura. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Jorge G. Castañeda foi ministro das relações exteriores do México de 2000 a 2003, é atualmente professor da Universidade de Nova York e autor de “Utopia Unarmed: The Latin American Left After the Cold War".

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