Robert Atanasovski/Agence France-Presse - Getty Images
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Rússia é suspeita de interferir em referendo na Macedônia

Consulta popular propõe mudança de nome do país, para Macedônia do Norte, o que é visto como porta de entrada na Otan

Marc Santora e Julian E. Barnes, The New York Times

21 Setembro 2018 | 10h00

SKOPJE, MACEDÔNIA - Enquanto os macedônios se preparam para a votação mais importante da história do seu país, numerosas publicações no Facebook pedem aos eleitores que queimem suas cédulas. Centenas de sites estão convocando um boicote. E uma reportagem compartilhada na internet alerta que o Google pode eliminar o macedônio da sua lista de idiomas reconhecidos, dependendo do resultado da votação.

Autoridades macedônias e ocidentais dizem que a atividade nas redes sociais é uma campanha de desinformação dirigida por grupos apoiados pela Rússia com o objetivo de estimular o medo e reduzir o comparecimento às urnas na votação que pode colocar este país balcânico no rumo da adesão à Otan.

“Não há como voltar atrás", disse o primeiro-ministro da Macedônia, Zoran Zaev. “Cada tentativa de retardar esses processos devolve a República da Macedônia a um estado de completa incerteza em relação ao seu futuro, uma sociedade na qual valores autoritários e instabilidade podem ser reintroduzidos.”

A jovem e frágil democracia da Macedônia é o mais recente país balcânico a ser arrebatado pela longa disputa geopolítica entre a Rússia e o Ocidente. O referendo, marcado para 30 de setembro, pergunta ao eleitor macedônio se o país deve encerrar uma disputa com a Grécia que já dura três décadas, mudando seu nome para Macedônia do Norte. A aprovação pode significar o fim das objeções gregas à entrada do vizinho na aliança ocidental.

Funcionários do governo russo negaram o envolvimento em tentativas de afetar o resultado de votações europeias. Mas diplomatas russos não esconderam sua oposição à contínua expansão da Otan, argumentando que isso poderia desestabilizar a região dos Bálcãs.

Funcionários da Otan dizem ter oferecido à Macedônia informações para que o país combata a campanha russa. “Vemos indícios de interferência da Rússia, que tenta espalhar a desinformação", disse Jens Stoltenberg, secretário-geral da Otan. “Mas a Rússia não está vencendo.” Ele acrescentou que as pesquisas de opinião indicam que a maioria apoia a mudança de nome do país.

No primeiro semestre do ano, torcedores de futebol contrários à mudança de nome entraram em confronto com a polícia diante do parlamento do país em Skopje, levando a histórias falsas alegando brutalidade por parte do governo.

“Há uma famosa cantora balcânica, e eles pegaram uma foto antiga dela, quando estava ferida após um episódio de violência doméstica, e tentaram alegar que ela teria sido espancada pela polícia durante o protesto", disse Marko Troshanovski, que trabalha para o instituto de pesquisa Societas Civilis, com foco na democracia. “A desinformação foi desmentida, mas estava no fluxo.”

Depois do confronto, Zaev expulsou um diplomata russo. “Se houvesse um conflito entre a Rússia e a Otan, vocês seriam considerados um alvo legítimo", alertou o Embaixador da Rússia na Macedônia,Oleg Shcherbak, em resposta.

Os gregos acreditam que, como a antiga Macedônia era uma cultura helênica, os macedônios, de idioma eslavo, não poderiam reivindicar tal nome. Já os macedônios se chamam por esse nome desde quando passaram a habitar essas terras.

Em 2008, a Macedônia estava prestes a ser aceita na Otan, mas a Grécia vetou a inclusão do país. Zaev e o primeiro-ministro Alexis Tsipras, da Grécia, chegaram a um acordo em junho, que pôs fim ao impasse. Se o eleitorado da Macedônia concordar com a mudança de nome, e se a Constituição do país for emendada para refleti-la, o acordo seria então submetido à aprovação do parlamento grego. 

Funcionários do governo grego também acusaram Moscou de interferência e responderam com a expulsão de dois diplomatas. “É nossa grande oportunidade", disse Zaev. “Os cidadãos sabem que precisamos aproveitar o momento. É assim que eles definirão o próprio futuro e o futuro do país.”

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